segunda-feira, 25 de julho de 2016

26 de JULHO - DIA DOS AVÓS


Um pedacinho do meu livro, "Voternidade - ser avó, ser avô, um doce desafio", para comemorar!


"...Foi no meu trabalho como analista que aprendi a valorizar o que parece bobo através da força de duas regras fundamentais da psicanálise, descritas por Sigmund Freud: a atenção flutuante e a associação livre.
            Segundo ele, o inconsciente, tanto do analista como do paciente, precisa de um ambiente isento de pressões para se manifestar. Em linhas gerais, ele postula que as revelações mais preciosas em um encontro analítico surgem sem que as procuremos, quando permitimos que elas se manifestem.
            Não estou aqui defendendo que nós, avós, nos tornemos terapêuticos para nossos netos ou vice-versa, mas, ao contrário, estou chamando atenção para o modo como essa relação despretensiosa é privilegiada por carregar em seu bojo a possibilidade de um encontro transformador para ambos, exatamente por estar paradoxalmente isenta da responsabilidade de cumprir qualquer função.
            Momentos preciosos com aparência de tolos poderão surgir desta experiência capaz de revelar segredos imensuráveis da vida, ou ser somente uma pausa deliciosa como algodão doce, que não tem a menor pretensão de alimentar, mas enche os olhos, adoça a boca e lambuza o rosto e os dedos.

            Só mesmo quem tem a sabedoria adquirida no perde-ganha da vida pode reconhecer a sutil grandeza que o aparentemente simples comporta."

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O NINHO QUE TRANSBORDA

O NINHO QUE TRANSBORDA 

Houve um tempo em que a saída dos filhos de casa era totalmente vinculada ao casamento. Uma passagem natural de um estado de criança dependente a adulto tomado de responsabilidades. Imagino que essa exigência era no mínimo assustadora tanto para o dono do ninho quanto para aquele passarinho que num susto tinha que aprender a voar para não se estatelar no chão. 

Não sou dessa geração, sou da geração da transição, onde o jovem teve voz e no grito ganhou  espaço para manifestar suas inquietações, desejos e necessidades, derrubou tabus, questionou o casamento, as relações mantidas em nome de um ideal social, colocou em xeque o autoritarismo dos mais velhos e da sociedade. 

Mas, como nós que brigamos tanto para derrubar o poder de nossos pais e da sociedade, lidamos com nossa prole quando nos tornamos pais e vimos diante de nós a necessidade de ocupar aquele papel que tanto criticamos e abominamos?

Não saberia dizer de todos, mas posso dizer que muitos de nós demos com os burros n'água. Oferecemos uma liberdade em relação ao desejo de nossos pequenos que eles não tinham a menor condição de administrar. 

Penso comigo agora, como pudemos perguntar para nossos filhos de quatro, cinco anos o que eles queriam comer, vestir ou fazer?. Eu, mesmo sendo psicanalista e sabendo que a primeira infância é um lugar complexo e obscuro, onde o sujeito ainda se encontra as voltas com a descoberta do que fazer com seu corpo, com seus impulsos, fiz isso. Como muitos de nós permitimos que nossos filhos tomassem seu quarto como propriedade particular para suas experiencias sexuais? 

Movidos pelo nosso narcisismo consideramos alucinadamente que nossa prole, por ser nossa prole, teria absorvido, (só se fosse por osmose) toda experiencia que adquirimos com os embates que vivemos no passado e vivemos todos os dias, para enfrentar o caminho tortuoso de sermos nós mesmos. 

Os protegemos  em nosso ninho e de repente ao dirigirmos nosso olhar para aquele ninho vemos um passarinho com asas fortes e poderosas, com garras que parecem de águias, com canto que ao sair de sua garganta encanta, muito mais potente que nós, mas acomodado transbordantemente no ninho sem saber que pode conquistar o mundo num simples bater de asas. 

Assim nem percebemos que ao  dar todo espaço de expressão e realização para nossos filhos, o protegemos de sofrer, e como ser alguém sem sofrer? Como viver a dor e a delícia de ser você mesmo apoiado no colinho quentinho  de "mamãe e papai"? 

Um abraço serve para acolher, dar segurança e manifestar amor, mas se não chegar o momento de soltar os braços, como seguir em frente?




O NINHO QUE TRANSBORDA

O NINHO QUE TRANSBORDA 

Houve um tempo em que a saída dos filhos de casa era totalmente vinculada ao casamento. Uma passagem natural de um estado de criança dependente a adulto tomado de responsabilidades. Imagino que essa exigência era no mínimo assustadora tanto para o dono do ninho quanto para aquele passarinho que num susto tinha que aprender a voar para não se estatelar no chão. 

Não sou dessa geração, sou da geração da transição, onde o jovem teve voz e no grito ganhou  espaço para manifestar suas inquietações, desejos e necessidades, derrubou tabus, questionou o casamento, as relações mantidas em nome de um ideal social, colocou em xeque o autoritarismo dos mais velhos e da sociedade. 

Mas, como nós que brigamos tanto para derrubar o poder de nossos pais e da sociedade, lidamos com nossa prole quando nos tornamos pais e vimos diante de nós a necessidade de ocupar aquele papel que tanto criticamos e abominamos?

Não saberia dizer de todos, mas posso dizer que muitos de nós demos com os burros n'água. Oferecemos uma liberdade em relação ao desejo de nossos pequenos que eles não tinham a menor condição de administrar. 

Penso comigo agora, como pudemos perguntar para nossos filhos de quatro, cinco anos o que eles queriam comer, vestir ou fazer?. Eu, mesmo sendo psicanalista e sabendo que a primeira infância é um lugar complexo e obscuro, onde o sujeito ainda se encontra as voltas com a descoberta do que fazer com seu corpo, com seus impulsos, fiz isso. Como muitos de nós permitimos que nossos filhos tomassem seu quarto como propriedade particular para suas experiencias sexuais? 

Movidos pelo nosso narcisismo consideramos alucinadamente que nossa prole, por ser nossa prole, teria absorvido, (só se fosse por osmose) toda experiencia que adquirimos com os embates que vivemos no passado e vivemos todos os dias, para enfrentar o caminho tortuoso de sermos nós mesmos. 

Os protegemos  em nosso ninho e de repente ao dirigirmos nosso olhar para aquele ninho vemos um passarinho com asas fortes e poderosas, com garras que parecem de águias, com canto que ao sair de sua garganta encanta, muito mais potente que nós, mas acomodado transbordantemente no ninho sem saber que pode conquistar o mundo num simples bater de asas. 

Assim nem percebemos que ao  dar todo espaço de expressão e realização para nossos filhos, o protegemos de sofrer, e como ser alguém sem sofrer? Como viver a dor e a delícia de ser você mesmo apoiado no colinho quentinho  de "mamãe e papai"? 

Um abraço serve para acolher, dar segurança e manifestar amor, mas se não chegar o momento de soltar os braços, como seguir em frente?