Um pedacinho do meu livro, "Voternidade - ser avó, ser avô, um doce desafio", para comemorar!
"...Foi no meu trabalho como analista
que aprendi a valorizar o que parece bobo através da força de duas regras
fundamentais da psicanálise, descritas por Sigmund Freud: a atenção flutuante e
a associação livre.
Segundo
ele, o inconsciente, tanto do analista como do paciente, precisa de um ambiente
isento de pressões para se manifestar. Em linhas gerais, ele postula que as
revelações mais preciosas em um encontro analítico surgem sem que as
procuremos, quando permitimos que elas se manifestem.
Não
estou aqui defendendo que nós, avós, nos tornemos terapêuticos para nossos
netos ou vice-versa, mas, ao contrário, estou chamando atenção para o modo como
essa relação despretensiosa é privilegiada por carregar em seu bojo a
possibilidade de um encontro transformador para ambos, exatamente por estar
paradoxalmente isenta da responsabilidade de cumprir qualquer função.
Momentos
preciosos com aparência de tolos poderão surgir desta experiência capaz de
revelar segredos imensuráveis da vida, ou ser somente uma pausa deliciosa como
algodão doce, que não tem a menor pretensão de alimentar, mas enche os olhos,
adoça a boca e lambuza o rosto e os dedos.
Só
mesmo quem tem a sabedoria adquirida no perde-ganha da vida pode reconhecer a
sutil grandeza que o aparentemente simples comporta."