*Resumo da apresentação no Congresso Internacional transdisciplinar da Infância e Adolescência do Instituto Langage do livro de minha autoria: DESAMPARO NA INFANCIA - uma visão psicanalítica
Poderia falar de pelo menos três vértices:
A primeira é o atendimento
psicanalítico na infância como prevenção da delinquência juvenil, quando este
seria o caminho natural de sua realidade, assunto difícil tendo em vista que
não é propósito da psicanálise adaptar o sujeito a realidade externa. Difícil
quando é essa mesma realidade externa que perturbada pelo comportamento da
criança nos procura para colocar ordem no caos instalado. Poderíamos chamar
esse primeiro vértice do lugar do demandante, do portador da angústia.
A segunda é o nosso ou melhor
de quem recebe a angústia e inquieta-se
em torno dela em busca de compreensão e possível resposta. A princípio está
tudo certo, somos profissionais e fomos chamados a executar nosso trabalho. Mas,
exatamente por sermos profissionais, não podemos nos enganar, sabemos que esse
encontro, esse pedido de aquiete esse menino, não o deixe ser um transgressor,
tocará inevitavelmente e singularmente em cada um dos profissionais envolvidos.
A terceira e mais importante, a
meus olhos, é o vértice da criança. Portanto foi o eleito para que me aprofunde hoje.
Foram três trabalhos
realizados pelo Instituto de Olho No Futuro.
Intervenção na história da
criança carente
Suporte
Anjo
As crianças do primeiro local,
moram em favelas na periferia de São Paulo, a maioria (80%) não convivem com o
pai e a mãe é arrimo de família. Levantam muito cedo para junto com seus
irmãos, acompanharem a mãe em uma condução lotada até a escola ou o centro
comunitário da ACM, que seguirá para seu trabalho, maioria como doméstica, nas
imediações.
No Centro Comunitário ou na
escola encontram uma realidade totalmente diferente daquela onde moram, muito
melhor, mas são “estrangeiros” nesse bairro e sentem nas mensagens subliminares
do dia a dia. Apesar da escola ser Estadual está localizada em local de pessoas
com poder aquisitivo maior, um choque passar por todas aquelas casas, escolas e
crianças dentro do carro de seus pais enquanto elas caminham exaustas puxadas
pela sua mãe, afinal não existem linhas de ônibus que passem perto da escola. Dentro
da sala de aula outro drama, não conseguem e não querem acompanhar a matéria,
estão cansados e muito pouco interessados em aprender, esse caminho é árido
difícil e incerto, difícil de sonhar, mais fácil pensar em uma saída mais
rápida como ser jogador de futebol ou modelo. Isso eles viram na TV, de onde
vieram os craques e modelos descobertos ao acaso.
Depois da escola uma perua os
leva até a ACM, um clube, local de pessoas de classe média e média alta. Na
frente existe uma entrada com as catracas para os sócios, o transporte passe
por ela e os leva para os fundos, onde fica o centro comunitário mantido com a
parceira da prefeitura de São Paulo com a ACM.
Recebem alimentação, reforço
escolar e utilizam o “clube” em horários especiais para eles nas piscinas e
quadras, mas também podem
inscreverem-se em aulas junto com os sócios.
É então que aparece a queixa e
angústia da instituição. Como eles podem não estar agradecidos, Por que não
aproveitam do que lhe é oferecido, pulam de curso em curso, não se implicam em
nada, estão cada vez mais agressivos.
Nossa resposta: vamos
perguntar a eles e a seus pais.
Descobrimos nos pais o mesmo
descontentamento da escola e da instituição em relação a seus filhos.
Descobrimos o quanto esses pais colocavam estes locais como detentores do saber
em detrimento da própria valorização de sua função paterna. Delegavam por
sentirem-se incompetentes e quando não funcionava não decepcionavam-se com a
instituição mas com os seus filhos.
Um trabalho psicanalítico foi
proposto: grupo de pais, atendimento às crianças e aos monitores e responsáveis
pelo Centro Comunitário.
É claro que não conseguimos
mudar a realidade externa com nossas
constatações e grupos, afinal ela é reflexo de nossa sociedade, mas ao darmos
voz para a criança e seus pais legitimamos suas queixas ao mesmo tempo em que
desmontamos o modelo antes reafirmado pelos seus pais: “Esse menino não tem
jeito!” agora era com eles!.
As crianças do segundo trabalho, “Suporte”, estavam abrigadas pelo
poder público em lares sociais. Vou discorrer apenas sobre o primeiro. Esse
abrigo, oferece todos os recursos concretos necessários para a criança crescer
e desenvolver-se, grande espaço, camas individuais, quartos separados por
idade, alimentação balanceada, passeios e recreação com voluntários no fim de
semana e férias, monitores que conduzem-nas nas escolas da proximidade. Um verdadeiro paraíso para crianças que na
maioria das vezes moravam em situações tidas como de risco não muito diferente
do nossos garotos do nosso trabalho anterior, mas devemos considerar que houve
uma quebra catastrófica, de repente foram interrompidos em suas histórias e
afastados dela sem saber ao certo por que e sem a menor condição de escolha.
No entanto o pedido de ajuda novamente não é
deles mas da instituição que está indignada com a falta de reconhecimento e
gratidão a princípio de um dos garotos de 10 anos, o mesmo tempo que a
instituição existe, abrigado desde bebê que apresenta comportamentos
destrutivos dentro e fora do abrigo.
Quando chegamos o garoto já
havia sido expulso daquele abrigo com a ameaça de ser internado na Febem. Mas
ele havia apontado a falha nos alicerces daquela instituição e o pedido foi
mantido.
Nos dispusemos a ouvir, a
instituição, a criança os funcionários.
A Diretoria e a assistente
social, relatam o quanto eles são fechados, parece que vivem em outro mundo,
não parecem merecedores de tanto recurso.
Os outros funcionários assim
como as crianças, não expressam muita coisa.
Levantamos o quanto as crianças
não tinham espaço para expressarem sua infelicidade pela quebra do vínculo
familiar que subtraiu dela capítulos que só poderiam ser reparados se
reconhecidos e elaborados. Sabíamos que atender àquelas crianças era trazer um
mundo desarrumado que inevitavelmente recairia em seus cuidadores. Propomos
organizar um grupo de todas as pessoas que trabalhavam no abrigo, desde a
diretoria até o motorista, em paralelo ao atendimento do grupo de
crianças.
Os encontros com as crianças
ocorreram e como imaginamos trouxeram comportamentos indesejáveis para todos,
mas infelizmente não pudemos realizar o grupo do pessoal do abrigo, por
limitações da dinâmica que poderíamos discutir em outro momento, porque quero
continuar privilegiando o vértice da criança.
Ana Alvarez em artigo que
discute brevemente a questão do atendimento a crianças que sofreram trauma,
fala sobre o risco do trauma do trauma. Sem poder oferecer condições de
acolhimento do abrigo, lugar ao qual pertenciam então, penso que provocamos o
trauma do trauma ao dar-lhes espaço para falar de seu desamparo e todos os
sentimentos que provocavam sem respaldo dos responsáveis pela sua
sobrevivência, viramos vilões e fomos afastados.
O terceiro trabalho, Anjo, não
foi menos dramático. Aconteceu em paralelo ao anterior em um abrigo mais
flexível e estávamos otimistas com o resultado possível que se desenhava. Foi
um grupo de jovens voluntários de uma ong implicada com os passeios, presentes
e visitas a crianças de abrigos, nos procurou com a seguinte dor: “Eles
simplesmente destroem os presentes caros que conseguimos para eles, em suas
cartinhas para o papai Noel pedem coisas como uma casa, uma mãe, um
computador”.
Ouvimos vinte crianças do abrigo, todas diziam
que os voluntários só vinham nas datas festivas, mas já estavam acostumadas,
mas se não viessem também estava tudo bem.
Se viessem ótimo até porque ganhavam muitas coisas.
Concluímos que estas crianças
não faziam vínculos como forma de evitar a dor do afastamento, um jeito de
sobreviver ao desamparo.
Fomos mais radicais e já que
eles estavam tão dispostos a ajudar tínhamos uma proposta. Um projeto piloto
chamado Anjo.
Utilizamos testes projetivos,
e escolhemos os voluntários também através de testes projetivos e entrevistas.
Em seguida cruzamos os dados e montamos duplas. O voluntário se comprometeria a
ser a referência desta criança em todas as situações menos as econômicas, alias
os presentes foram retirados da relação. Para sustentar o peso desse lugar o
voluntário faria acompanhamento quinzenal com uma terapeuta para auxiliá-lo.
Nos primeiros seis meses
apesar de muitos ajustes as coisas caminharam, mas aos poucos os voluntários
foram mudando suas vidas de uma forma surpreendente, a princípio parecia
coincidência, mas aos poucos todos deixaram o projeto por mudanças na vida
pessoal, como gravidez, casamento, decisão de deixar o país, ou a mais óbvia, “descobri
que preciso de análise e na análise descobri que a criança desamparada que
quero ajudar está dentro de mim”.
Como no trabalho do “Suporte”
não pudemos cumprir com o que acenamos para essas crianças, apontamos para o
desamparo delas e acertamos no nosso desamparo diante delas.
Infelizmente é preciso que
recorramos árduo e dolorido caminho para reconhecermos o óbvio. O nosso
primeiro trabalho deu certo. Olhando de
trás para frente podemos observar que aqueles pais, com dificuldades de
valorizar seu papel na vida psíquica do seu filho eram candidatos a provocarem
uma situação de perda do vínculo e autoridade sobre eles, afinal diante de
tanta sensação de incompetência quem sabe é a escola a instituição, etc. Quero
acreditar que ao colocarmos luz sobre a relação deles com seus filhos ampliamos
as suas possibilidades de escolha.
Quem viu Estamira pode
compreender a riqueza criativa em meio ao que parece desprezível e descartável
quando a filha dela diz que preferia ter podido estar com ela independente de
qualquer coisa.
