Uma escada estreita e curva, conduz a uma sala ampla
com varanda, os vidros fechados cobertos por cortinas longas. Um corredor
comprido guarda a direita quartos repletos de história reverberante. Ao final a
grande cozinha, com mesa retangular e muitas cadeiras, revela que ali muitos já
se saciaram, do muito que aquele fogão no canto embaixo do vitro, produziu.
No quintal, saindo da cozinha, mais histórias
enigmáticas tomam o ar. Uma antessala. O que haveria pensado ou sonhado quem a
idealizou? Ao atravessá-la mais um amplo espaço, apenas alguns eletrodomésticos
antigos em um pequeno canto, coberto por telhas e o restante estende-se por
muitos metros de espaço vazio, ao relento cercado por um muro baixinho, e novamente
uma escada estreita, mas desta vez ela conduz a uma visão, de tirar o folego, da
paisagem que cerca a propriedade em 360 graus. Uma espécie de cobertura, com uma
churrasqueira novinha abandonada, denúncia de que muito do que se sonhou não
pode ser vivido naquele espaço, diferente da impressão dos outros lugares da
casa.
Quem poderia escrever os próximos capítulos e como
o faria?
Uma mulher que em seu aspecto arcado demonstra
carregar o peso dos anos passados naquele lugar, é a última testemunha dos
sonhos vividos, e dos não vividos ali, que mais parece um fruto mumificado,
digno de um estudo arqueológico.
Mas, essa
mulher tenta manter-se viva, em meio a tanto apelo do silêncio e da morte que
ecoam das paredes, dos corredores e dos móveis e utensílios. Paradoxal é
perceber, claramente, que ao mesmo tempo que ela se considera parte daquelas
paredes e, portanto, daquele passado que não chega, do morto que não vai
embora, resiste bravamente a morrer, ao mesmo tempo em que não consegue deixa-lo
para trás e seguir vivendo. Uma espécie de fidelidade que chega a parecer
religiosa, às coisas amontadas e mantidas da mesma forma por tantos anos,
revela a presença dos mortos que não podem ser deixados. Como se essa mulher
estivesse mantida viva amalgamada a morte. Como não ter crises de ansiedade e
angústia? Como controlar a pressão que na verdade anuncia que ela está viva e
pulsante?
Prisioneira de um moribundo presente que como um
zumbi não pode se tornar passado, assim como a mãe que não pode permitir que o
filho cresça, para não perder a sua criança amada, agarrada a ilusão de
eternidade carrega seu bebê ilusório em seu colo que ocupado, nada mais poderá
receber.
Essa cena me remete diretamente ás experiências
difíceis, mas privilegiadas que meu ofício
oferece. Ao adentrar nos
corredores das moradas psíquicas de meus pacientes, por vezes sou conduzida a
corredores escuros que me levam a um mundo de zumbis, personagens moribundos
alimentados pela vida de sujeitos que por diversos motivos não conseguem
despedir-se, tanto de momentos desconfortáveis quanto prazerosos, mantendo-os
como morto vivo alimentados pela energia de vida que deveria fluir, represada e
estancada nessas marcas.
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A clínica me coloca
diante de inúmeras histórias, todas únicas, mas ao mesmo tempo testemunhas do
difícil empenho que a vida nos impõe. Quando somos a-traídos pelo ciclo em espiral de desamparo, encontro, prazer, perda, dor desprazer e novamente, desamparo ela revela a urgência de
manter a esperança e abrir a porta para a vida diante do apelo da mesmice e do silencio da paz da morte.
