terça-feira, 18 de outubro de 2016

PRISIONEIROS DO PASSADO



Uma escada estreita e curva, conduz a uma sala ampla com varanda, os vidros fechados cobertos por cortinas longas. Um corredor comprido guarda a direita quartos repletos de história reverberante. Ao final a grande cozinha, com mesa retangular e muitas cadeiras, revela que ali muitos já se saciaram, do muito que aquele fogão no canto embaixo do vitro, produziu.
No quintal, saindo da cozinha, mais histórias enigmáticas tomam o ar. Uma antessala. O que haveria pensado ou sonhado quem a idealizou? Ao atravessá-la mais um amplo espaço, apenas alguns eletrodomésticos antigos em um pequeno canto, coberto por telhas e o restante estende-se por muitos metros de espaço vazio, ao relento cercado por um muro baixinho, e novamente uma escada estreita, mas desta vez ela conduz a uma visão, de tirar o folego, da paisagem que cerca a propriedade em 360 graus. Uma espécie de cobertura, com uma churrasqueira novinha abandonada, denúncia de que muito do que se sonhou não pode ser vivido naquele espaço, diferente da impressão dos outros lugares da casa.
Quem poderia escrever os próximos capítulos e como o faria?
Uma mulher que em seu aspecto arcado demonstra carregar o peso dos anos passados naquele lugar, é a última testemunha dos sonhos vividos, e dos não vividos ali, que mais parece um fruto mumificado, digno de um estudo arqueológico.
 Mas, essa mulher tenta manter-se viva, em meio a tanto apelo do silêncio e da morte que ecoam das paredes, dos corredores e dos móveis e utensílios. Paradoxal é perceber, claramente, que ao mesmo tempo que ela se considera parte daquelas paredes e, portanto, daquele passado que não chega, do morto que não vai embora, resiste bravamente a morrer, ao mesmo tempo em que não consegue deixa-lo para trás e seguir vivendo. Uma espécie de fidelidade que chega a parecer religiosa, às coisas amontadas e mantidas da mesma forma por tantos anos, revela a presença dos mortos que não podem ser deixados. Como se essa mulher estivesse mantida viva amalgamada a morte. Como não ter crises de ansiedade e angústia? Como controlar a pressão que na verdade anuncia que ela está viva e pulsante?

Prisioneira de um moribundo presente que como um zumbi não pode se tornar passado, assim como a mãe que não pode permitir que o filho cresça, para não perder a sua criança amada, agarrada a ilusão de eternidade carrega seu bebê ilusório em seu colo que ocupado, nada mais poderá receber.
Essa cena me remete diretamente ás experiências difíceis, mas privilegiadas que meu ofício   oferece.  Ao adentrar nos corredores das moradas psíquicas de meus pacientes, por vezes sou conduzida a corredores escuros que me levam a um mundo de zumbis, personagens moribundos alimentados pela vida de sujeitos que por diversos motivos não conseguem despedir-se, tanto de momentos desconfortáveis quanto prazerosos, mantendo-os como morto vivo alimentados pela energia de vida que deveria fluir, represada e estancada nessas marcas.

A clínica me coloca diante de inúmeras histórias, todas únicas, mas ao mesmo tempo testemunhas do difícil empenho que a vida nos impõe. Quando somos a-traídos pelo  ciclo em espiral de desamparo, encontro, prazer, perda, dor desprazer e novamente, desamparo ela revela a urgência de manter a esperança  e abrir a porta para a vida diante do apelo da mesmice e do silencio da paz da morte. 

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