terça-feira, 23 de agosto de 2016

A MENTIRA


Como uma espécie de droga, ela às vezes é necessária, e se administrada com cautela pode curar um coração machucado e sem esperança. Assim, ao dizer para criança pequena, que mamães não morrem, administramos uma pequena gota de mentira, que permitirá que ela se sinta segura para seguir adiante, dando tempo, para que através das experiências de sua vida, atinja maturidade suficiente, para compreender, que todos um dia morremos, inclusive as mamães.
No entanto, a mentira é uma droga perigosa e poderosa, que se mal administrada provoca vício irremediável, extremamente destruidor para quem a administra, e principalmente para todos que estão ao redor.
Torna-se mais agravante, se as pessoas ao redor acreditam e confiam no amor e cuidado do mentiroso, pois o estrago atingirá as suas entranhas, e causará danos incuráveis.
Mas, o mentiroso é atingido da mesma forma.  A diferença é que ele vive sob efeito da droga da mentira, que utiliza de forma compulsiva, o que o mantém distante de qualquer notícia verdadeira. Ele passa a viver, a respirar, as suas histórias e não pode cuidar de si mesmo, pois está a quilômetros de distância de suas próprias necessidades, potencialidades, limites e desejos, na verdade tem uma pessoa negligenciada dentro dele, que ele não permite que apareça para evitar a angústia e a dor de existir.
O resultado, depois de um tempo com um mentiroso, é o de uma bomba, nos sentimos totalmente destruídos, mas a bomba estourou e ao estourar revelou a verdade e aquele sujeito confiável e por vezes amado, desapareceu! 
Sabemos das dores e estragos que ela causou, sabemos de nós mesmos, mas percebemos que aquele que parecia tão querido e amado, nunca existiu, explodiu e ao explodir vemos que nada havia além de ilusões.
Somos tomados de uma sensação de vazio a princípio, mas o tempo vai revelar o quanto precisamos destas ilusões e como uma criança não estávamos preparados para saber da verdade, precisávamos daquela mentira.
Mas, assim como precisávamos daquela mentira no passado, chega o momento em que a verdade é o único remédio capaz de nos tirar de um mundo de fantasias e nos trazer a realidade da situação em que estamos metidos até o pescoço.
Nada fácil, assim como a notícia de que a morte existe para todos, mas um paradoxo, só ela poderá nos permitir cuidar de nossas feridas, e nos manter vivos. Se não sabemos dela, as nossas dores anestesiadas pelas mentiras, assim como ignorada o mentiroso compulsivo, não nos cuidaremos e, portanto, não nos pegaremos no colo, para que com dor reconheçamos nosso estado de desamparo e abandono.
Momento difícil, mas com o tempo nos fará ver como um dia foi importante acreditar em papai Noel, poder acreditar no inacreditável e incrível, nos deu condições de voar em nossa imaginação e conhecer mundos que nos abasteceram para lidar com a realidade.

Depois dessa viagem, assim como depois de um tratamento com uma droga poderosa como um antibiótico, teremos forças para seguir adiante no desafio de estar vivo e acordado diante das dificuldades de cada dia, com a certeza de que jamais seremos os mesmos!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Coragem



Há muitos e muitos anos em um mundo muito longe daqui, morava uma menina. Ela não sabia ao certo como havia chegado lá, nem tampouco onde estariam as outras pessoas, o que ela sabia é que ela estava muito longe...

No primeiro dia em que acordou, sem nenhuma memória de onde tinha vindo muito menos de quem era, olhou a sua volta e encontrou o nada!

Por alguns dias encolheu-se em um canto qualquer e silenciosamente esperou que algo acontecesse, mas o nada reinava!

Precisava urgentemente fazer alguma coisa para afastar o nada,  as armas que tinha eram apenas as que moravam dentro dela protegidas do ataque do nada: a Fome, a Sede, o Desamparo a Solidão e o Medo.

         Junto delas e por causa delas, começou a sua viagem.
 
No caminho, ao mesmo tempo em que a Fome, a Sede o Desamparo e a Solidão ajudassem a encontrar saídas, o Medo era quem estava no comando.

 A Fome a ajudou a encontrar uma beterraba dentro da terra, mas o medo alertou sobre seu aspecto e seu gosto adocicado e ela diz:  hac que nojo, levando-a a cuspir.

A Sede a ajudou a encontrar um lago pequeno, mas o medo gritou dentro dela: a água está turva melhor não tomar, essa coisa suja vai te matar!

 O Desamparo encontrou uma arvore oca para passar a noite, mas o Medo disse que o lugar era pequeno demais e ela o deixou para trás.

A Solidão encontrou um ser estranho, feio e sem graça que ameaçou aproximar-se, mas o Medo alertou-a do perigo que corria e ela afastou-se rapidamente.

Seguiu caminhando e quanto mais o tempo passava mais a beterraba o lago e a árvore oca e o ser estranho tornavam-se importantes para ela, sonhava em reencontra-los, mas já haviam ficado para trás e descobriu então que naquele mundo não havia jeito de voltar, quando olhava para trás o caminho percorrido sumia como mágica.

Foi escurecendo e ela viu diante de si a noite chegar e ela era negra e assustadora, mas mais assustador ainda era não haver ninguém por perto para lhe fazer companhia.

 Foi quando algo com grandes asas saiu de dentro dela e disse: eu sou a Coragem, agarre-se a mim.

Desta vez ela não jogou fora o que encontrou e ao alçar voo nos ombros da coragem. Encontrou no caminho a Esperança, uma figura simpática e sorridente...

A partir de então uma infinidade de coisas, a menina a Coragem e a Esperança, viveram juntas e o medo não pode mais comandar!

 Conheceram outros lugares, alguns eram estranhos outros mais simpáticos e com aspecto conhecido.

Acompanhada da Coragem e da Esperança, ela conheceu e foi conhecida por muitos universos, onde encontrou comida, agua e seres das mais diversas espécies.

Certo dia ao acordar percebeu que a Fome, a Sede, o Medo, o Desamparo e a Solidão haviam ficado para trás naquele caminho sem volta e deu até certa saudade deles, mas alegrou-se ao olhar do seu lado e ver as suas amigas de viagem, a Coragem e a Esperança.

O que ficou para trás foi o passado, lugar que não dá para voltar, no caminho que é o presente encontrou a coragem para com ela voar no aqui e agora rumo ao futuro, que a gente não conhece e por isso precisa muito da companhia da Esperança para nele acreditar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

AMOR

Afinal o que é o amor?
Entrega incondicional?
Um mar de dor?
Vivência passional?

Tantas tentativas de entender
o que não é da ordem da razão.
Nos faz sofrer
Nos alegra e afasta a solidão.

Queremos por razão nesse louco sentir
Queremos tê-lo na nossa mão
Mas não dá para mentir
Ao explica-lo ele já escapou pelo vão!

Amar é experiência humana
Só para quem tem coragem

Só para quem tem alma insana!

Coisas do coração


Impossível não se ver enroscado nas coisas do coração.  Podemos nos proteger é claro, mas na própria forma de se defender do envolvimento, que inevitavelmente trará dor, nos revelamos de forma escandalosa.

A mulher e o homem forte, que pareciam ter controle sobre a própria vida, de repente desaparecem e no lugar deles, surgem uma menina e um menino, totalmente perdidos com os sentimentos confusos e atordoantes que brotaram sem aviso ou autorização naquele coração. 

Fantasmas adormecidos há muitos anos surgem e trazem a tona as questões das primeiras dores de amor. Ao retornarem  roubam a cena, com todas as cores do mundo infantil, passional, ambivalente, ambíguo e, portanto, extremamente desconcertante.

Queremos ser amados, queremos amar, mas não queremos  pagar o preço de tal desejo.  Uma saída honrosa é jamais permitir que o outro ultrapasse a nossa linha de segurança. Para tanto criamos barreiras, nos blindamos e ironicamente reclamamos da falta de satisfação na vida do vazio de nossos dias. No entanto, por mais justificativas que encontremos, em algum lugar sabemos do quanto estamos nos protegendo da dor de amar.

Nosso primeiro amor foi o materno. Nele encontramos a matriz de nossa existência. Estamos todos fadados a escrever nossos próximos capítulos a partir dele. Assim, uma falha nesse encontro, um mal-entendido ou a dupla mensagem, da mesma forma que o amor e investimento afetivo intenso, ou uma possessão, serão os fantasmas com os quais teremos que conviver.

Pobre de nós seres humanos, desejamos tanto reencontrar o amor perdido, que não nos damos conta, que ao vivermos nossa história de amor seremos assombrados pelos fantasmas, que inevitavelmente nos impendem de amar aquele que está diante de nós.