Parasita, um filme provocante e brilhante.
Em alguns momentos risos nervosos na platéia, em outros risos de satisfação.
Assim é a conturbada relação entre o bicho homem e o humano, dividido entre a dor da falta diante do limite a que estamos todos sujeitos, e as saídas que pervertem na tentativa de triunfar sobre o outro, negando nossa triste condição.
O roteiro leva a uma reflexão sobre a lógica do capitalismo. Seria certo utilizar da inteligência para arrumar um jeitinho, onde vale tudo, para tirar de quem supomos ter? Seria certo submeter quem não tem para afirmar que se tem?
O capitalismo promove emprego e diferença social e ao fazê-lo não despertaria um ataque invejoso de um lado e triunfante de outro, provocativo e destrutivo como na lógica da neurose fálica: nós só não temos porque eles tem, ou se tenho é porque sou mais esperto e melhor que você!
Instala-se uma guerra, apoiada na fantasia de que podemos escapar de nossa condição de sujeitos limitados.
Como todo guerra, totalmente insana.
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
domingo, 10 de novembro de 2019
Humano Insano
Somos todos
Sujeitos em falta
Somos tolos
A fantasia nos salva
Sonhamos com alguém
Que nos tire a inquietação
Sofremos com alguém
Que nos expõe à insatisfação
O que não damos conta
O que nos assombra
O que nos revela
O que nos desmantela
É a ameaça
Da queda da fantasia
Tanto de ser salvo
Quanto de ser alvo
Assim seguimos
Construindo heróis
Salvadores da pátria
Assim seguimos
Construindo algozes
Destruidores da pátria
Do livro: Psique em versos - Poesia de analista
Somos todos
Sujeitos em falta
Somos tolos
A fantasia nos salva
Sonhamos com alguém
Que nos tire a inquietação
Sofremos com alguém
Que nos expõe à insatisfação
O que não damos conta
O que nos assombra
O que nos revela
O que nos desmantela
É a ameaça
Da queda da fantasia
Tanto de ser salvo
Quanto de ser alvo
Assim seguimos
Construindo heróis
Salvadores da pátria
Assim seguimos
Construindo algozes
Destruidores da pátria
Do livro: Psique em versos - Poesia de analista
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Anjo Azul
Existem pessoas, que parecem ter caído do céu na terra antes do tempo, para sacudir o mundo e acordar suas verdades amordaçadas.
Assim foi Marlene Dietrich, que me foi apresentada por esse portal incrível que é o teatro. Uma mulher questionando seu papel no início do século XX. Suas pernas, tornaram-se um símbolo sexual na época, pernas que a levaram para o mundo. Em tempos de valores rígidos onde o orgasmo feminino nem sequer era reconhecido, ela questiona, se impõe pelo seu desejo, sofre se perde e se encontra para se perder novamente.
Diante do grande impasse humano, ela quebra barreiras sociais e culturais, e principalmente políticas, ama seu país, a Alemanha, mas abomina a guerra e o nazismo, se torna cidadã americana, o que para um homem já seria algo inusitado, imagine para uma mulher famosa da época.
Perde viver seus amores, desde com a filha até com o amor da sua vida, para ser fiel a si mesma, a seu grande desejo de liberdade.
Uma trajetória incrível e louvável em tempos difíceis e rígidos. Mas, me despertou uma questão:
O quanto esse desejo de liberdade fala do temor dos vínculos tão próprio dos nossos tempos? Se envolver com alguém exige entrega, o que causa temor da perda, tanto de seus contornos, quanto do amado.
Como se envolver e não se perder no outro, ser fiel a si mesmo, considerando a existência e o desejo do outro?
Como suportar se envolver, na inevitável corda bamba do risco de perder o que dia a dia vai lhe ficando cada vez mais caro?
Assim foi Marlene Dietrich, que me foi apresentada por esse portal incrível que é o teatro. Uma mulher questionando seu papel no início do século XX. Suas pernas, tornaram-se um símbolo sexual na época, pernas que a levaram para o mundo. Em tempos de valores rígidos onde o orgasmo feminino nem sequer era reconhecido, ela questiona, se impõe pelo seu desejo, sofre se perde e se encontra para se perder novamente.
Diante do grande impasse humano, ela quebra barreiras sociais e culturais, e principalmente políticas, ama seu país, a Alemanha, mas abomina a guerra e o nazismo, se torna cidadã americana, o que para um homem já seria algo inusitado, imagine para uma mulher famosa da época.
Perde viver seus amores, desde com a filha até com o amor da sua vida, para ser fiel a si mesma, a seu grande desejo de liberdade.
Uma trajetória incrível e louvável em tempos difíceis e rígidos. Mas, me despertou uma questão:
O quanto esse desejo de liberdade fala do temor dos vínculos tão próprio dos nossos tempos? Se envolver com alguém exige entrega, o que causa temor da perda, tanto de seus contornos, quanto do amado.
Como se envolver e não se perder no outro, ser fiel a si mesmo, considerando a existência e o desejo do outro?
Como suportar se envolver, na inevitável corda bamba do risco de perder o que dia a dia vai lhe ficando cada vez mais caro?
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Doze. Homens e uma sentença
Doze homens e uma sentença, reestréia no Teatro Aliança Francesa
Escrita nos anos cinquenta, um tanto distante, principalmente considerando as inovações tecnológicas, o tema é muito atul, e não deixará de ser.
Por mais que tenhamos desenvolvido técnicas de apurar cientificamente os fatos, nossa natureza sempre será pautada na dúvida, sempre haverá uma pergunta, quando se trata das questões humanas, será que vimos a verdade dos fatos, ou apenas a refutamos com as nossas verdades?
Humano, divino humano, nosso mundo é visto através da lente construida durante nossas vidas, de sensações, traumas e desejos, realizados, frustrados ou falidos.
Ao final da brilhante atuação desse grupo de doze homens, reafirmo a mais célebre frase de todos os tempos: só sei que nada sei.
Constatada essa única e milenar certeza, reconheço o quanto de ignorancia pode existir nas convicções.
De novo um saber antigo: quem tem uma convicção tem uma prisão. Acrescentaria humildemente, quem tem uma convicção nada sabe do outro, e muito menos de si.
Escrita nos anos cinquenta, um tanto distante, principalmente considerando as inovações tecnológicas, o tema é muito atul, e não deixará de ser.
Por mais que tenhamos desenvolvido técnicas de apurar cientificamente os fatos, nossa natureza sempre será pautada na dúvida, sempre haverá uma pergunta, quando se trata das questões humanas, será que vimos a verdade dos fatos, ou apenas a refutamos com as nossas verdades?
Humano, divino humano, nosso mundo é visto através da lente construida durante nossas vidas, de sensações, traumas e desejos, realizados, frustrados ou falidos.
Ao final da brilhante atuação desse grupo de doze homens, reafirmo a mais célebre frase de todos os tempos: só sei que nada sei.
Constatada essa única e milenar certeza, reconheço o quanto de ignorancia pode existir nas convicções.
De novo um saber antigo: quem tem uma convicção tem uma prisão. Acrescentaria humildemente, quem tem uma convicção nada sabe do outro, e muito menos de si.
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
Filme Border
Assisti o filme Border, uma produção sueca, dirigido por Ali Abbasi. Uma viagem instigante do diretor nos conduz a mundos estranhos e portanto perturba-dores. Tudo que não faz parte do nosso circuito, causa mesmo essa sensação de não saber nem sequer o que estamos sentindo, numa abordagem lacaniana, um atravessamento do real.
Passado esse primeiro momento, as ideias vão pipocando e aos poucos o imaginário vai nos salvando da perda de chão. Mas, depois de uma noite de sono perturbado pelas pontas soltas, algo de muito importante me surgiu.
A protagonista, Tina, se reconhece desde sempre como tendo uma síndrome cromossômica, responsável pela deformação de sua imagem. Ela tem aspecto físico de homus sapiens, e uma sensibilidade olfativa peculiar, sente o cheio de sentimentos alheios, uma composição interessante entre uma sensibilidade primitiva e uma percepção humanizada sutil.
Leva sua vida entre um trabalho onde essa habilidade é reconhecida e aproveitada, tem um relacionamento desafetado com um homem com quem mora, e um pai que visita afetivamente em uma casa de repouso, único momento, que vislumbramos afeto na protagonista.
Quando inesperadamente é sacudida em suas bases pelo encontro, de um homem com os mesmos aspectos físicos que ela. O cheiro dele a perturba de longe, visivelmente, ela foi despertada da sonolência que vivia dentro daquele corpo e ambiente.
Aos poucos tudo vai se transformando, ou melhor ela vai ganhando vida, até o ápice onde, aquele que tanto a atrai lhe diz que ela é um troll como ele.
Dois sentimentos a acompanham lado a lado a partir dai.
Um de descoberta e apropriação do próprio corpo através da aceitação e interesse amoroso daquele que reconhecia nela uma mulher desejante.
Nesse ponto, penso na teoria da Piera Aulagnier que postula que a mãe antecipa a existência de um filho. Na trama, a fala dele desconstrói quem ela é, antecipando o emergir da mulher contida, lhe dando a possibilidade de expandir o que sentia de forma desordenada, mas descortinadora de si mesma.
Nesse ponto, penso na teoria da Piera Aulagnier que postula que a mãe antecipa a existência de um filho. Na trama, a fala dele desconstrói quem ela é, antecipando o emergir da mulher contida, lhe dando a possibilidade de expandir o que sentia de forma desordenada, mas descortinadora de si mesma.
O outro, de conflito com aquele que a nomeou a princípio, um choque difícil, mas que todos que vivemos a passagem da adolescência podemos reconhecer. A indignação pela imposição dos pais ao modelo do pautado no desejo do que sejamos, surge de forma violenta e fundamental para que nos apropriemos de nós mesmos, e possamos falar em nosso próprio nome.
A condição de troll, e a relação de cumplicidade afetiva, vai ampliando encantadoramente seu espaço no mundo, o amor libidinal desperta a potência e o prazer em seu corpo que ganha vida.
Um amor e encontro que a conduz novamente a proposta que ela seja como ele.
Ela então pode se reconhecer na alteridade, não é como o pai um humano e não é como esse que a despertou e nomeou, mesmo sendo uma troll.
A separação se faz necessária para que possa preservar seus contornos, enriquecida e potencializada pela beleza do envolvimento.
Ela então pode se reconhecer na alteridade, não é como o pai um humano e não é como esse que a despertou e nomeou, mesmo sendo uma troll.
A separação se faz necessária para que possa preservar seus contornos, enriquecida e potencializada pela beleza do envolvimento.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
Depressão
O tema depressão está em alta. Não seria o sintoma de uma sociedade que propõe a anestesia dos afetos como solução? O drama da existência humana é um desafio desde todos os tempos. A busca do sucesso a qualquer custo, a imagem perfeita procurada tanto no corpo como na vida e principalmente, nas redes sociais, impõe ao sujeito contemporâneo um modelo de vida distante da sua verdade, ou seja o afasta da dor e da delícia de ser o que é, como diz a música.
O ataque ao feminino
Assisti dois filmes nos últimos dias que me fizeram pensar
sobre a condição feminina. O primeiro, Filhas do sol, revela a forma particular
que as mulheres enfrentam a guerra, as adversidades, ao mesmo tempo as
atrocidades a que está sujeita em relação a seu corpo. O afeto entre elas
misturado com a dor e a revolta, leva o expectador a sentir a força das
relações, nas situações de ameaça, como o ingrediente mais poderoso e vital
entre nós humanos. Em contrapartida a presença masculina é cruel e revela a
submissão sexual como um ato de poder. Parece que violentar a mulher ou mesmo a
menina do inimigo tem um gozo sádico descomunal, algo brutal distante até do
comportamento animal.
Podemos refletir que na guerra se perde a noção de
humanidade, que os parâmetros são outros, pois diríamos que estão todos
envolvidos com princípios desconhecidos, onde matar ou morrer é a questão.
Mas, quando assisti o
segundo filme, Clair Obscur, percebi que a violência sexual contra a mulher é
algo muito maior, está embutido nas relações afetivas mais "normais"
tanto quanto nas relações de poder culturais. Nesse filme duas protagonistas,
de mundos totalmente diferentes, custam a perceber sua condição de
"abusada”.
Aos poucos, as sensações de indignação despertadas, em um
filme longe das guerras, se aproximam das que senti no primeiro filme.
O que haveria de tão atraente e poderoso na condição
feminina, para provocar tamanho gozo sádico no outro?
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
As Vezes
As vezes me sinto uma
menina
O corpo desabrochando
e prenhe de vida
Encantada com a
imensidão a vista
As vezes me sinto uma
mocinha
Os desejos no corpo
florescendo, toda bonita
Com a invasão do amor
encantada
As vezes me sinto uma
senhora
O corpo amadurecendo,
toda segura
Com minhas conquistas
encantada
As vezes me sinto uma
idosa
O corpo já pouco
importa
A sabedoria vive a minha
volta
As vezes estou toda
misturada
Sou a menina que as
outras acelera
Sou as outras que a
menina ensina
Tem momentos que a
menina e a idosa
se juntam e deixam de
lado a senhora
deixam de lado a
mocinha
Acontece então a
magia
Com a menina e idosa
fundida
Me sinto sábia e
prenhe de vida
Mas, se há tempestade
Sinto a força de
todas
Unidas formam um colo
quente
A menina que anima
A mocinha que encanta
A senhora que cuida
A idosa que aconselha
Nos caminhos da vida
Quando sou invadida
De alegria ou
angustia
São todas sempre bem
vindas
Poesia publicada no livro "Inspiração no Divã - o encontro com fantasmas adormecidos" lançado em outubro de 2018
Singularidade e amor
Considerando
que os casamentos saíram da condição de arranjados, pois havia interesse em que
a família fosse preservada e protegida, ser um moço ou moça de boa família era
fundamental para ser indicado a casar, considerando os dotes de cada um. A
lógica seguida não era do amor ou da afinidade, mas sim dos interesses
familiares.
Tudo
mudou a partir do momento em que os limites familiares foram rompidos. Antes o desejo não estava pautado pelo
sujeito, mas sim pelo seu entorno. Um sapateiro tinha filhos homens para serem
sapateiros, para levarem adiante o legado familiar.
A
mulher tinha como função a procriação, seus sentimentos e desejos ela deveria
guardar para si. Diferente do homem que poderia buscar uma mulher para realizar
o que não podia ser feito com a mãe de seus filhos, caso a esposa tivesse
interesse amoroso ou sexual por outro parceiro, era duramente condenada.
Não
era diferente se tivesse outro interesse, que o de ser mãe, se quisesse fazer
outra coisa além dessa função. Temos resquícios desse tempo até os dias de
hoje, onde a mulher se desdobra para dar conta de todos os papéis impostos socialmente
e tentar ir atrás de seus desejos supostamente liberados nos novos tempos.
A
partir do momento em que o laço tradicional foi rompido, onde um filho poderia
transpor os limites estabelecidos pela história familiar e romper com o
determinado tudo mudou. Mas, considero que isso não aconteceu pela força do
desejo do jovem, mas sim pela necessidade cultural e social, a industrialização
assim como o desenvolvimento científico e tecnológico começa a recrutar esses
jovens assim como o foram nas guerras. Hoje são soldados de um novo tempo.
O
sapateiro, já não é necessário, o importante é investir no consumo, em um novo
produto. A industrialização trouxe esse novo apelo, consumir mais abre novas
frentes de trabalho, que faz a máquina rodar, ganhando mais, consumo mais. Tudo
para que o progresso chegasse. A pertença através do ofício familiar, foi
rompida, dando lugar a necessidade de novos conhecimentos, novos parâmetros de
sucesso, referencias para além das familiares.
Muitas
consequências, entre elas a perda do sentido da vida. Antes sabia-se, mesmo que
sendo algo ditatorial, de onde se veio e para onde se deveria caminhar, a
identidade apesar de imposta já era posta, não causava angustia, mesmo que
trouxesse certa apatia pela condição de submissão que limitava e minava sua
criatividade.
Uma
abertura que lançou o jovem num mundo desconhecido, inclusive interior. As
drogas tomam força nesse momento, pois anestesiam as angústias e dúvidas, sobre
seu destino, ou mesmo sobre o sujeito do desejo que insiste em aparecer.
Mas,
também permitiu que muitos fossem valentes para frente de ataque e mesmo sem
saber porque ou por o que estavam lutando, tinham um objetivo vencer, um
propósito, fazer parte do novo chamado de guerra. Estava lançado a um mundo
competitivo, onde a motivação eram as conquistas que ampliavam os ganhos
corporativos. Esse mundo corporativo que convoca a deixar de lado a própria
história, para galgar postos, mostrar competências, desafiar seus limites,
mostrar sua força, não há lugar para afeto nessa luta, ele afetaria o
rendimento, logo o resultado seria comprometido.
Mas,
a crise sempre chega, ainda bem. E terá um momento em que esse jovem amadurecerá
e se não foi enredado pelo legado familiar que tenta eternizar um tempo
passado, nem foi golfado pelo propósito capitalista, ou seduzido pelas
conquistas ditadas pelo consumo, vai se perguntar: onde estou? Quem sou? Onde
está o garoto(a) que sonhava em ser...? É assim que quero mesmo viver? O que
realmente desejo?
continua...
trecho do capítulo do livro "Amor em tempo de internet" a ser lançado em outubro de 2019
Nos braços de um psicopata
Uma mulher atravessando um momento de ruptura, tanto
dos laços de um casamento falido há anos, quanto de suas apostas na segurança e
apoio, que nesse mesmo casamento lhe serviam de suporte egoico.
Romper ...
foi sempre um problema para ela. Como
uma “boa” histérica, rompimentos levavam a re-significação dos conteúdos
infantis edípicos. Uma mãe dominadora, um pai com dificuldades de ocupar seu
lugar dentro do casal, mais duas irmãs para competir, e se não bastasse três
irmãos, muito investidos em sua masculinidade pelo casal.
Quais as chances dessa menina, espremida entre
tantas demandas, manifestar seus desejos? Muito poucas. Em algum momento, uma
migalha lhe sobrava como retribuição pela sua quietude e silêncio, por não ser
mais uma demandante na família. Opa... isso passou a ser sua grande diferença. Paradoxal, mas sua alteridade pôde ser construída no silenciar de suas demandas
e desejos. Ela era a quietinha, a que não dava trabalho, a que se ocupava de
minimizar os conflitos.
Ao longo da infância acumulou em um canto escuro de
seu ser seus desejos, inquietudes, frustrações e furores. Como o bebê sábio
descrito por Winnicott, sabia que a família não daria conta de mais uma criança
viva e pulsante. Aquietava-se, interrompia-se, condenava-se pelas manifestações
de vida, que saiam pelas bordas.
As
lembranças de investimento narcísico, sempre estiveram relacionadas ao seu
silêncio, não poderia abrir mão dessa rara fonte de alimento psíquico.
Observações do pai como: sua irmã é muito nervosa preciso estar com ela, você é
mais bonita e calma não precisa que eu esteja com você. Que coisa difícil ser
investida no não investimento......
Ela cresceu como pôde e encontrou esse homem que
pouco ou nada lhe pedia em termos de vínculo, que se satisfazia em uma relação
de fachada, que lhe dava pouco e lhe pedia pouco. Uma repetição da cena
familiar edípica, o silêncio era partilhado no lugar da demanda e do desejo.
Depois de anos no divã, ela começa a demandar esse
homem, passa a se queixa a pulsar. A princípio projetando toda sua esquiva e
covardia nele, e atacando a partir de um lugar mais protegido e investido.
Depois percebeu como aquela parceria escondia a ambos. Descobriu sua covardia e
mais, que eles, a sua covardia e o silêncio, não a protegiam ao contrário a
expunham a situações mortíferas.
É essa mulher que está no primeiro parágrafo deste
texto, as voltas com uma decisão, não vai mais se esconder. Rompendo o silêncio
denuncia a pobreza da relação em que vivem e o desejo por uma vida onde possa
manifestar-se, sair do armário....
Difícil, foram necessárias três separações em um
mesmo casamento. Foi somente na terceira que ela encontra a saída definitiva
para sua questão de vida.
Conhece um homem disposto a investi-la
narcisicamente, incrivelmente disponível a acompanha-la na saída assustadora do
armário. Não havia espaço para o medo ou para pensar de que ordem era esse
interesse e o quanto custaria. Não importava ela estava em mar aberto, o barco
havia afundado, no horizonte somente muita agua, nenhuma terra firme a não ser
o armário. Estava convicta de que qualquer coisa que se oferecesse como
suporte agarraria com todas as suas
forças.
Mas vamos convir que com tamanha demanda somente um
homem com uma estrutura psicopata teria condições de compreender e acolher
tanta demanda de existência. Estranho? Mas vamos pensar.... O psicopata detecta
na sua vítima as suas necessidades e desejos e se empenha em atendê-las.
Pensemos em
Dom Juan, ele coloca a mulher no lugar do falo e a endeusa envolvendo-a em seu
manto acolhedor que mais parece um cobertor de bebê. Usa sim uma venda nos
olhos, mas assim como suas intenções ela não é importante para a mulher, porque
o que ele mais garante no momento da conquista é que suas intenções estão todas
em suspenso pois está totalmente embevecido por ela.
O olhar que atravessa a máscara é penetrante e
confiante e envolve-a e entorpece-a. Ela
se entrega deliberadamente tomada pelo desejo a tanto reprimido de amar e ser
amada incondicionalmente.
Um jogo perigoso mas vital para ambos. Ele por
precisar vencer o desafio de investir aquela mulher tão pouco investida, tão
pouco crente em si mesma, tão assustada. Ele precisa convence-la que ela é a
coisa mais importante em sua vida, que é o ar que ele respira, que sem ela
morreria, para poder dar seu bote.
Astutamente detecta sua grande questão: ela não se
acha digna de investimento amoroso, ela considera que precisa “pagar” com seu
investimento, sofrimento e silêncio o amor do outro. Ele dá duro nesta questão e consegue
arrastá-la para dentro dele, mas mal sabe ela que ele jamais entregou-se.
Nesse momento estabelecem um pacto inconsciente,
ambos colocam uma venda entre eles para não verem a simulação da entrega
incondicional daquele homem como manipulação daquela mulher. Ela sabe, mas....
Interessante como uma relação desta pode sim ser
interessante para esta mulher. Assim como o bebê que a princípio se considera o
centro do mundo por não ter ainda condições de lidar com os seus limites e
faltas, essa mulher também precisa desse momento de investimento narcísico que
este homem em suas intenções escusas acaba por lhe oferecer.
Assim, ela
aos poucos vai se tornando mais segura, ele garante uma ilha de amor ao afastar
a todos com o discurso que eles não a merecem e que a está defendendo e
colocando-a a salvo deles.
Sabemos que o psicopata faz isso com sua presa para
ter controle sobre ela, mas nesse caso apesar disso ocorrer, ele presta-lhe sem
saber um grande e importante serviço. Preenche o vazio deixado em seu mundo
infantil, afasta-a das relações que a convidavam para dentro do armário e
oferece-lhe e autoriza-a a receber e alimentar-se de todo afeto e amor
disponível no mundo que ela sempre conheceu, mas nunca se sentia digna de
deseja-lo.
Os limites
tão estreitos do ego desta mulher são alastrados e ela pode enfim abrir seus
braços e descobrir que pode abraçar o mundo se assim o desejar e mais ela se
descobre desejando muito, descobre um mundo interno rico e colorido e um mundo
externo encantador. Encontra nos braços do amado um receptáculo de toda sua
energia contida, que ele entusiasmado com tão entrega, transforma em poder de
construção e investimento para que ela continue em seus braços.
Ela fortalece-se cresce aprende mais sobre suas
conquistas e descobre tantos outros caminhos para realizar seus desejos e
preencher suas necessidades no mundo. Com esse olhar expandido toma coragem de
tirar o véu da dupla a revelia de seu par. Já não precisa mais dos braços do
amado para dar e receber o que deseja de sua vida. Assim toma certa distância
que a diferencia dele e um susto!
Encontra um homem falido, sem condições de se
apropriar de sua vida, um vampiro, que na calada da noite necessita
alimentar-se do sangue de outrem para sobreviver. Não possui nenhuma autonomia
e domínio sobre si mesmo é um prisioneiro de suas próprias manobras.
Esse momento é para ela semelhante ao do elefante,
Dumbo, da história infantil quando descobre que a peninha que carregava não era
a responsável pela sua capacidade de voar, mas sim suas grandes e antes
rejeitadas orelhas.
Assim, sem a venda descobre as traições,
manipulações, sangue frio e maldade daquele homem. Decepciona-se, chora, sofre
muito, está novamente diante de uma ruptura, mas agora está pronta para ela.
Não se trata mais de um barco afundando e a
deixando em apuros, mas sim de um barco que precisa afundar, para ela seguir em frente, apropriada de tudo que aquela relação lhe ofereceu, podendo então emergir com a força de suas próprias asas alçando seu voo particular!
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