segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O lado positivo das emoções negativas

O lado positivo das emoções negativas

Inveja, raiva, sede de vingança, egoísmo... Entenda melhor esses sentimentos e veja como tirar deles lições e ações úteis para sua vida

Publicado em 08/11/2012
Reportagem: Tatiana Pinheiro/ Edição: MdeMulher
Aprenda a enxergar o lado bom das suas emoções negativas
Foto: Getty Images

Você sabia que as emoções negativas não são fatalmente nocivas para nossa vida? "Sentimentos ruins são inevitáveis. E senti-los é importante para manter o equilíbrio", diz a psicanalista Sonia Pires, de São Paulo. O psiquiatra Paulo Gaudencio, também de São Paulo, autor de livros como Mudar e Vencer (Editora Gente), vai além: "Todo sentimento é bom. O resultado que ele produz é que pode ser ruim".
A seguir, conheça mais a fundo algumas dasemoções mais rechaçadas pela sociedade, aprenda a enxergar o lado bom de vivenciá-las e descubra ainda como se beneficiar delas. "Alguns desses sentimentos, como a raiva e a sede de vingança, são defesas psíquicas primitivas, manifestadas já pelos bebês e por crianças pequenas", diz o psicanalista Fábio Belo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. "Nós, adultos, somos capazes de amadurecê-las e elaborá-las."
1. INVEJA
Todo mundo sente, embora a tendência seja negar. "Se você acusar uma pessoa de ser invejosa, ela ficará furiosa", ressalta Gaudencio. No entanto, quando tentamos ignorar sua existência, acabamos atacando com palavras e atitudes agressivas, quase sempre sem cabimento, a pessoa que desperta a inveja. No fundo, desejamos "destruir" quem está apontando algo que acreditamos ser incapazes de conseguir também. O primeiro passo para se beneficiar dessa emoção negativa, portanto, é livrar-se de preconceitos e encará-la. "Sentir inveja de forma consciente, ou seja, assumida, pode levá-la a descobrir conteúdos secretos inimagináveis", afirma a psicanalista Sonia. O segundo passo é desviar o foco do outro e direcionar para si mesma. Até porque será preciso identificar com exatidão o alvo da cobiça. De acordo com os experts, crescer os olhos para o carrão da vizinha, a promoção da colega de trabalho, a viagem de férias à Índia da irmã ou o marido da amiga ainda apaixonado depois de anos de casamento não significa, necessariamente, que se quer dirigir um veículo igualzinho, estar no mesmo cargo, conhecer Nova Délhi ou conquistar aquele homem específico. "Na verdade, a gente inveja as capacidades ou habilidades que permitem ao outro ter mais, ser melhor ou mais amado", explica Gaudencio. Quando descobrir que dom é esse que lhe falta, se abrirá a possibilidade de desenvolvê-lo.
2. GANÂNCIA
O ser humano é insatisfeito por natureza. "Esse sentimento nos acompanha desde os primeiros momentos da nossa vida e estamos em uma busca constante de algo que nem sabemos o que é", observa Sonia. Ou seja: é natural (e desejável) ter sonhos a realizar e metas a cumprir - e renovar o cardápio a cada realização. A ambição é a força motriz interna que nos leva a alcançar o que desejamos. Já a ganância, diz a especialista, é a ambição compulsiva. Para o ganancioso, o que importa é ganhar sempre, ser melhor do que os outros, ainda que o objeto da conquista nem seja importante para a felicidade dele. É uma questão de medida. Para não errar na dose, tenha objetivos claros. Quem sabe o que quer não desperdiça energia com o que não interessa e troca, naturalmente, a ganância cega pela ambição necessária para "chegar lá". Se uma executiva sabe que seu alvo é ser indicada para a próxima vaga no escritório da empresa em Paris, mas está só no nível básico do francês, vai colocar todas as fichas no aperfeiçoamento da língua. Não ocupará seu tempo fuçando e atrapalhando a vida dos demais virtuais candidatos. De qualquer forma, a dica é não perder a chance de usar um episódio de ganância para conhecer o que, de fato, mobiliza você e batalhar por isso. "Deixar de lutar pelo que pode dar mais sentido a sua vida é tão nocivo quanto se entregar a uma busca compulsiva por resultados", afirma Sonia.
3. SOBERBA
De novo, tudo é uma questão de dosagem. "É na relação com os outros que a gente aprende sobre as próprias dificuldades e capacidades. Mas é também ao me relacionar que posso acabar me deixando à mercê do que todos esperam e pensam de mim", analisa Sonia. E preocupar-se tanto e o tempo todo com o julgamento alheio, tentando continuamente corresponder a expectativas externas, não é uma maneira saudável e esperta de viver. Isso cria ansiedade, mina a autoconfiança, até paralisa. A soberba é exatamente o oposto: ser "cheia de si", não se importar em nada com o que as pessoas pensam e dizem, se achar melhor do que todo mundo. Equivale a um sistema de blindagem psíquica, que pode ser de grande valia em certas situações. Imagine uma pessoa começando em um emprego novo, em um ambiente ultracompetitivo, que tem de provar sua competência e sua eficiência sem muita ajuda dos colegas e nenhuma orientação do chefe. Orgulhar-se (ainda que exageradamente) de seus talentos, acreditar piamente no próprio taco e até assumir uma postura meio arrogante são atitudes que ajudarão a desempenhar seu papel e mostrar a que veio. Só não vale manter-se apegada à soberba para sempre. Primeiro, porque afastará os colegas, criará inimizades e rivalidades, dificultará qualquer trabalho em equipe. Mais: "Se essa atitude orgulhosa demais se cristalizar, a pessoa nunca deixará transparecer seus limites e suas dificuldades e, provavelmente, ficará sobrecarregada, estressada e insatisfeita", defende a psicanalista.
4. RAIVA
É feio sentir raiva. Isso você já deve ter ouvido por aí, mas a verdade é que ela tem sua utilidade, segundo os especialistas. "É uma defesa, como a dor, um alerta do corpo que nos faz tomar providências. Se não a tivéssemos, morreríamos à míngua", compara a psicanalista Elsa Oliveira Dias, diretora do Centro Winnicott de São Paulo. "A raiva também é um alerta, e esse é um aspecto positivo dela: sua função é indicar que algo a está oprimindo e agredindo, para que você ative seu mecanismo de proteção." A diferença entre se beneficiar ou se prejudicar com esse sinal é a resposta que se dá a ele. De acordo com o psiquiatra Gaudencio, a agressividade é o combustível para a ação, e quem consegue usá-la dessa forma só tem a ganhar. Para ilustrar sua teoria, ele costuma recorrer à imagem de um barco que perdeu o motor e está à deriva em um rio, sendo levado pela correnteza rumo ao abismo de uma cachoeira. Há três pessoas dentro. Uma é passiva; se senta no chão conformada e se deixa levar. A outra é agressiva; assume o leme e se esforça para mudar a direção do barco. A terceira, que ele chama de malcriada, fica em pé, xinga e esbraveja, mas não age. Quem tem mais chance de solucionar o problema? O segredo, então, é não se deixar enlouquecer pelo ódio, mas aproveitar o impulso para fazer algo efetivo por você. Pode ser um plano de ação para melhorar aquele ponto que despertou sua ira. Na prática, uma mulher que ficou furiosa porque foi chamada de gordinha durante uma discussão deve se valer do alerta da raiva para avaliar se aquilo realmente a incomoda e em que medida - conforme a resposta, a dica é se empenhar em perder o excesso e voltar a se sentir bonita e saudável. Mas às vezes a melhor atitude a tomar é apenas conversar com quem pisou no seu calo. "Quando não manifesto reação ao que me machuca ou ofende, não ofereço ao outro referências do que o ato dele me causa", diz Sonia.
5. SEDE DE VINGANÇA
Como já foi dito, apenas ficar ruminando o ódio, sem partir para a ação, não tem utilidade nenhuma. Pode resultar, por exemplo, em ressentimento. O verbo ressentir significa "tornar a sentir" - e viver novamente o que já não foi bom antes é, obviamente, prejudicial. "O ressentimento mina, aos poucos, belas amizades e relacionamentos de longa data", alerta a psicanalista Sonia. "No casamento, se uma das pessoas revive o passado toda hora e está sempre cobrando do parceiro coisas que não podem mais ser mudadas, a relação fica paralisada e se desgasta." Se elevada à última potência, a raiva também pode virar sede de vingança, uma obsessão que, por si só, não traz benefícios. "Entrar nesse movimento é passar a dedicar a vida ao outro - e justamente àquele que lhe fez mal", analisa Elsa. Portanto, se seu desejo de fazer justiça é intenso demais para simplesmente deixá-lo para lá, a saída é buscar uma forma positiva de revidar. Um bom conselho é redirecionar o alvo para si mesma. Exemplo: na base da trapaça e da bajulação ao chefe, uma colega conseguiu uma promoção que tinha tudo para ser sua. Muita gente ficou furiosa; você, mais ainda. Qual vingança pode ser mais eficaz do que pesquisar táticas para incrementar a qualidade do seu trabalho (talvez até cursar uma especialização) e se dedicar mais do que nunca a suas tarefas, não deixando dúvidas de que é a melhor candidata a subir na próxima chance que surgir na empresa? Esse tipo de atitude, sim, irá restaurar sua autoconfiança e autoestima feridas.
6. EGOÍSMO
"Em geral, quem chama a gente de egoísta é outro egoísta, que está infeliz porque não estamos dando atenção a ele", ressalta o psicanalista Luiz Alberto Py, autor de Saber Amar (Rocco) e Mistérios da Alma (Best Seller), entre outros livros. É o instinto de sobrevivência que manda cada um de nós cuidar de si em primeiro lugar. A exceção são os filhos. "O problema é que o egoísmo passou a ser malvisto pela sociedade, culturalmente recriminado", completa Py. O psicanalista lembra que, não por acaso, nos aviões é dito expressamente que, se houver despressurização e as máscaras de oxigênio caírem, você deve colocar primeiro em si mesma para depois ajudar sua criança ou qualquer pessoa ao lado. "Se não fosse o egoísmo nesse caso, morreriam os dois", diz ele. Ou seja, conforme a situação, uma dose de egocentrismo é não apenas saudável como necessária. E nisso vários especialistas concordam. Em outras ocasiões, esse sentimento não é vital, mas bem-vindo. A mãe que, de vez em quando, deixa de desfrutar um tempinho livre com o filho para ir à academia ou ao cabeleireiro não pode ser recriminada por se cuidar. Muito menos deve ser censurada aquela que, decidida a ascender na carreira, vira e mexe alonga o expediente em sacrifício do jantar com a família. Mas o sinal vermelho acende para quem exagera e só consegue olhar para o próprio umbigo. "Ignorar a existência do outro, acreditando que ninguém mais interessa, é uma defesa, uma forma de negar a inerente dependência que todos nós temos", avisa Gaudencio. "Quem se mantém nessa posição deixa de aprender, pois é na troca que crescemos." Para Sonia, por trás de um ego inflado estão escondidas fragilidades que devem ser tratadas. "Vale o mesmo para quem é altruísta demais e se ocupa o tempo todo dos outros, abandonando seus desejos, interesses e suas necessidades." O equilíbrio ajuda a desfrutar o melhor dos dois mundos.

SEXUALIDADE NOS JOVENS



Os rituais de acasalamento no animal garantem a preservação da espécie. O macho mais forte e corajoso será o procriador mais apropriado.  
A sexualidade é parte do ritual de passagem para o mundo dos adultos. Em algumas tribos indígenas, por exemplo, todos se envolvem na passagem, o ritual é bem definido, com tarefas do garoto, reclusão das meninas, dança e reza de toda a tribo. Um processo bem definido que dá referência e suporte para inserção que definirá claramente o papel que desempenhará no mundo adulto a sexualidade é apenas parte do contexto que trata-se do futuro da comunidade. Em uma tribo brasileira por exemplo, o noivo assumirá a responsabilidade de sustentar toda a família da noiva, o patriarca passa seu lugar de provedor a ele.
Hoje o jovem tem dificuldades de encontrar um suporte social para sua passagem. Agrupam-se como podem, definem padrões, modas, comportamentos, gírias, na tentativa de encontrar sua diferenciação, tanto do mundo infantil quanto do adulto dos pais.  No entanto estão apavorados. Faltam-lhe referencias sociais definidas, como do ritual de passagem que lhes sirva de ponte entre o garoto da infância e o adulto que a sociedade espera que ele seja.
 Na nossa sociedade a medida para saber se o jovem pode ascender a condição de adulto é a possibilidade de ter independência emocional e financeira, o que tem demorado muito nas últimas décadas. A sexualidade não pode esperar tanto assim.
Tomados pelas exigências de um corpo invadido pelos hormônios sexuais de um lado e pela pressão das exigências anunciadas pelo mundo adulto sem referências definidas de outro, “você já não é mais uma criancinha” para isso ou ainda “é muito cedo para você fazer ou escolher isso” ele poderá fechar-se ou rebelar-se, ambas reações consideradas normais nessa fase.
Vamos falar um pouco das fases percorridas pelo animal homem até tornar-se adulto.
A sexualidade não aparece de repente ela faz parte de um processo de amadurecimento iniciado na primeira mamada, quando a mãe ao oferecer o seio lhe apresenta a possibilidade de sentir prazer na boca. Esse encontro é o despertar do corpo capaz de desejar na criança.   Vive um idílio de completude com essa mãe que considera parte sua. Aos poucos com a possibilidade de locomover-se e com a exigência de que controle os esfíncteres tem a notícia que  o mundo não lhe pertence, aparecem os ataques de raiva e exigência de retorno a condição anterior. Tenta controlar como pode, temos a fase anal. Por volta dos três anos descobrem o prazer de relacionar-se e com ele as possibilidades de manifestar suas vontades e potência, as rivalidades levam ao prazer da competição, vamos ver quem vai ganhar! Na verdade o que está em jogo é a triangularidade edípica, onde o menino admira e compete com o pai pela mãe e a menina admira e compete com a mãe e deseja o pai. Essa é a fase fálica que estende-se até a entrada da latência aos 6-7anos, um longo período de silêncio importante até o despertar da sexualidade que ficou adormecida.
A adolescência trará todo conflito vivido na infância, mas agora com a força dos hormônios e do lugar de um sujeito capaz de “brigar” com os pais “heróis” poderosos da infância que o frustraram. A adolescência termina quando esses pais deixam de ter a importância vital que tinham na infância, tanto material quanto emocionalmente.
Como podemos perceber a nossa sexualidade é extremamente complexa.

A ausência de rituais que dê referências balizadoras também atinge os pais (não há dança, reza, passagem garantida pelo grupo que apazigue).

1 - Um novo momento para eles também. Inevitavelmente sofrerão com a perda do lugar de “heróis”. São esses pais amados e ainda idealizados que sofrerão o ataque inevitável daqueles que os tinham como heróis.
 A mãe que um dia fora a bela rainha para a menina, se tornará a bruxa má da linda princesa que sofre com os ataques invejosos daquela que quer impedir que ascenda ao lugar junto ao príncipe.
O menino vive na figura do pai a perseguição do capitão gancho com quem luta para mantém e proteger os meninos perdidos na terra do nunca.

2 - Muitas vezes vão se deparar com resinificação da sua própria adolescência, as consequências serão inevitáveis. Não conseguirão dar conta de manter-se no lugar do adulto que limita os ataques sem inibi-los.

Então a angústia de como agir, como transpor esse embate para poder proteger o filho dos riscos a que está exposto, afinal ele está tomado pelos hormônios e por todo conjunto de afetos da relação com os pais da infância e não há ritual que os proteja e encaminhe.

1 - O jovem vai precisar de espaço para se colocar enquanto um sujeito que vai questionar o funcionamento do casal.
A referência do como os pais viveram e vivem as questões amorosas e sexuais serão a princípio o modelo que terá. O amor e a rivalidade infantil agora com a força de um corpo adolescente potente assustam e trazem ambivalência.

2 - Precisa de um pai e uma mãe que não abandone a sua condição de adulto.
Um pai que tenta ser “descolado” provoca desconforto diante dos amigos do filho ao mesmo tempo que o deixa sem com quem brigar.

3 - A menina com corpo de mulher precisa que a mãe suporte ser desbancada do lugar de mãe idealizada da infância da mesma forma que o menino precisa de espaço para poder manifestar sua força e potência diante do pai.

Informar, ensinar, educação sexual?
Nos dias de hoje não faltam informações sobre a sexualidade, seja na escola, no clube, nas redes sociais, na televisão. Então o mito de que os deslizes da adolescência como a gravidez precoce, o fantasma da Aids ou das drogas eram fruto da falta de informação, de que haveria certa “inocência” entre os jovens que os colocava em situações de risco.
Sendo assim, o que pensar, por exemplo, de uma garota que engravida inesperadamente ou mesmo do garoto que a engravidou?
O garoto vê nos envolvimentos sexuais uma possibilidade de manifestar sua potência. Sente-se mal naquele corpo que lhe é um peso desajeitado, o tamanho do pênis passa a ser uma questão assim como o tamanho da coleção de meninas conquistadas.  
A competição entre os garotos sobre a virilidade e capacidade de relacionar-se sexualmente faz parte de uma busca de auto afirmação que esconde a insegurança e dúvidas em relação a sua capacidade de exercer o papel de homem e o medo de se apaixonar e deixar definitivamente o mundo infantil.
Não é no discurso do pai, como se imagina, no momento do “agora vamos conversar sobre sexo”, que o garoto encontrará espaço para lidar com o fantasma do fracasso de sua investida como “macho”.
O que vai contar são as atitudes desse pai diante da sua própria condição masculina do como transmite em atos as formas como lidou e lida com seus próprios fantasmas, em relação a vida amorosa e sexual.
Esse garoto precisa encontrar nessa relação um “capitão” não como o capitão gancho, que é solitário e infeliz e inveja a capacidade de voar (“fantasiar”) do garoto, mas um capitão que tem prazer com sua própria vida e potência principalmente porque já navegou muito e sabe do prazer de ancorar numa relação amorosa, e exatamente por isso pode suportar ver esse garoto rebelar-se para tornar-se um homem melhor que ele. 
Para tanto a mãe ao ver seu garoto com corpo que caminha para a puberdade, precisará abrir mão do seu garotinho, para autorizá-lo a buscar o carinho de outra mulher. Nada fácil levando em conta que a capacidade de sedução de uma mãe sobre o filho é incontestável.
Engravidar uma garota será portanto ao mesmo tempo um ato de rebeldia e de saída para o conflito com os pais. Nesse momento, tornar-se pai tão precocemente será um jeito de pular etapas importantes, talvez porque elas estavam intransponíveis.
A menina diferente do menino, muito cedo reconhece seus atributos sexuais. Para ela atrair a atenção dos garotos faz parte do jogo de sedução para mantê-la na posição de forte competidora da mãe, seu corpo pede mais que o corpo de um homem, pede a admiração de todos, meninos e meninas.
Impossível para uma mãe que tem seus atributos femininos abalados ter que se deparar com essa provocação de sua capacidade diante daquele corpo jovem e sedutor. 
Serão as suas vivências satisfatórias amorosas e sexuais que poderão lhe dar suporte nesse momento, para que permita que a filha se aproxime mesmo que através da provocação e rebeldia.
O pai por outro lado perderá o poder sobre a filha, outros machos da espécie estão por perto. Como manter os limites necessários que são cuidados imprescindíveis para a adolescente, sem abusar da autoridade aprisionando a garota, assim como uma princesa na torre? pode acreditar que ela arrumará um jeito para que seu príncipe a resgate, a gravidez seria uma saída destas.
Abrir mão da sua garotinha para outro homem, será um divisor de aguas em sua vida. A dura experiência de reconhecer como ato de amor pela filha, deixa-la viver sua condição de mulher desejante, trará a possibilidade de revisar o como vivi e vem vivendo sua condição de homem desejante com sua mulher.
Temos então de um lado um garoto e uma garota tomados pela força dos hormônios, mas sem a menor condição de administrá-los, ao mesmo tempo em que precisa encontrar uma forma de satisfaze-los não encontrará saídas fáceis para seu conflito.
De outro temos pais sobrecarregados e muitas vezes culpabilizados, O importante não é a harmonia.

 Na adolescência, todos na família estarão vivendo um momento de crise.



Reflexões

1 - A sexualidade faz parte do amadurecimento psíquico, as perguntas virão em todas as idades, as respostas devem se limitar ao que foi perguntado, com clareza e se possível incluindo-se nas respostas. Como: Eu também na sua idade tinha estas dúvidas ou coisa assim.

2 - 
O grupo é uma forma de encontrar seus iguais, nas dúvidas nas tristezas inevitáveis da idade. Mas pode também ser uma fuga do contato com os problemas quando não existir espaço para a crise na família. Neste caso tomar a coragem de falar do desencontro que estão vivendo dentro de casa e do quanto estão sofrendo pode ser uma saída. Outra forma é encontrar espaço para conversar sobre os amigos deles, o jovem as vezes tem necessidade de ficar fora para manter sua diferenciação dos pais.

3 - A autoridade só se dá pelo respeito. Respeito ao momento, ao silêncio. Perceber que algo vai mal no jovem em relação a sua vida sexual, não é o suficiente para interroga-lo. Será preciso que os pais se abram primeiro em relação a suas próprias preocupações em relação ao momento, referindo-se a sua própria adolescência ou história.

4 - 
As regras devem ser poucas, coerentes e fixas. Elas são fundamentais para dar segurança ao jovem. Por exemplo, trazer a namorada ou namorado para 
dormir em casa. É preciso pensar muito sobre essa autorização. Levar em conta que estão em momento de experimentação.
Claro que os pais preferem que os filhos estejam em casa, seria mais seguro, mas as consequências têm que serem refletidas, os limites não devem servir para facilitar a vida dos pais, mas sim para cuidar e proteger o filho.
Penso que com a facilidade de trazer para dentro de seu quarto o parceiro sexual, infantiliza a relação sexual, colocando-a como um brinquedo a mais que se levou para o quarto do filho.
As consequências serão o prolongamento da adolescência, afinal pra que sair de casa?






quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A clínica psicológica em tempos de fast food



Vamos voltar um pouco no tempo. Quando Charcot, no século XIX, interessou-se pela clínica da histeria, descobriu que algo naqueles sintomas escapava ao saber médico da época. Apesar de toda controvérsia que causou, exatamente por denunciar um “não saber”, inaugurou os conhecimentos acerca da psique humana que Sigmund Freud desenvolveu com genialidade. Muitos outros teóricos vieram desde então, alguns refutando outros acatando, mas todos tentando desvendar os enigmas que envolvem a trajetória do homem animal ao homem sujeito da cultura.
Uma nova profissão: tratar dos sofrimentos psíquicos. Freud em sua experiência de ensaio e erro chegou até o desenvolvimento da técnica psicanalítica. A psicanálise independente da teoria abordada tem como base a transferência.
A psicologia por outro lado, enquanto prática voltada para a clínica, desenvolveu muitas outras abordagens com aportes diferentes e portanto com técnicas com objetivos e princípios particulares.
Tanto a psicanálise quanto a psicologia clínica tem como objeto de trabalho e estudo a psique humana e carrega em seu bojo os limites dos enigmas inerentes a ela. Assim, compreender um determinado sintoma, jamais será compreender o sujeito ou mesmos todos os sujeitos acometidos por ele. Diferente da medicina, onde a doença pode ser catalogada e medicada, os sintomas psíquicos mesmo que catalogados, jamais podem ser tratados de forma uniforme. Uma visita a uma clínica psiquiátrica será suficiente para constatar que a própria “loucura” é uma forma singular de existência.
Século XXI, novos tempos, depois de sermos submetidos a uma avalanche de conhecimentos tecnológicos no século anterior, um misto de sensação de domínio do tempo e portanto da nossa condição de sujeito limitado e condenado a finitude, nos invadiu. Os profissionais como psicólogos e psicanalistas tem agora a função de adequar esse psiquismo submetido e mergulhado nos conflitos próprios da sua natureza, a nova condição humana: a unificação pela rápida “cura” e conquista do que é belo, perfeito e funcional.
Os profissionais mais experientes compreendem esse processo e trabalham em sua clínica, essa busca como um sintoma a ser entendido como uma nova defesa do afastamento da dor de ser humano.
O trabalho do terapeuta, diferente do médico, não é administrar remédios. Não é aconselhar, educar, indicar, ou oferecer saídas práticas para o sujeito, mas oferecer sua escuta e técnica para que ele encontre seu próprio caminho dentro da sua história. Compreender um sintoma não é suficiente para o sujeito abandoná-lo ou “resolve-lo”, mas abre espaço para novas configurações que inevitavelmente levarão a compreensão dele como parte de um todo. Cada abordagem teórica tem seus instrumentos nela fundamentados para tratar do sofrimento humano diante das dores psíquicas.
No entanto, quando os planos de saúde passam a oferecer atendimento psicológico com a força de uma lei, abrem espaço para o uso perverso desta função.
De um lado temos o psicólogo que ao receber um número significativo de pacientes, trabalha em linha de produção, respondendo a demanda do convênio, algo muito mais confortável que percorrer os caminhos sinuosos da psique humana que exige estudo, supervisão e constante contato com as próprias questões.
Cumpre com as sessões estabelecidas, totalmente na contramão do estabelecimento do vínculo terapêutico, mantém o convênio entre eles como anteparo.  Com a fachada de que estaria respeitando suas regras, esconde-se do contato com os limites de sua formação teórica e técnica, inevitáveis a qualquer profissional da área, quando do contato com a demanda de um novo paciente.
No entanto, para ele, não se trata de um novo paciente, tendo em vista que o paciente é do “convênio” ele é sempre conhecido enquanto tal. As questões acerca do singular e, portanto assustador daquela relação não pode acontecer nesta forma tão “fast” e generalizada de contato.
Do outro lado o paciente protegido pela guia de encaminhamento, que chega em posição de quem tem a determinação de um “Outro” para que o terapeuta cumpra sua função: manter a saúde mental em dia.   Nessa posição não pode dirigir ao psicólogo a sua angustia, mas suas defesas em relação a ela. Como são poucas sessões, quem seria tão “insano” a ponto de vincular-se? Uma situação ambígua, pois ao mesmo tempo que o protege do vínculo o deixa desamparado e sem resposta para a angústia que mantém guardada em segredo.
Então poderíamos dizer que estamos no mundo da fantasia. A lei da agência Nacional de Saúde, com aval do Conselho Federal de Psicologia, faz de conta que protege os direitos dos pacientes, o convênio faz de conta que cumpre, o psicólogo faz de conta que trata protegendo-se do seu não saber dizendo: “fazemos o que podemos” e os pacientes “passam” pelo psicólogo.  Alguns tendo ainda mais reforçadas suas defesas, outros mais prejudicados têm suas defesas abaladas e seguem ainda mais desestruturados, outros mais defendidos mantêm-se descrentes nesse tipo de trabalho dizendo “isso não serve para nada”.