sexta-feira, 13 de março de 2026

DESAMPARO NA INFÂNCIA*

 

                            

*Resumo da apresentação no Congresso Internacional transdisciplinar da Infância e Adolescência do Instituto Langage do livro de minha autoria: DESAMPARO NA INFANCIA - uma visão psicanalítica

Poderia falar de pelo menos três vértices:

A primeira é o atendimento psicanalítico na infância como prevenção da delinquência juvenil, quando este seria o caminho natural de sua realidade, assunto difícil tendo em vista que não é propósito da psicanálise adaptar o sujeito a realidade externa. Difícil quando é essa mesma realidade externa que perturbada pelo comportamento da criança nos procura para colocar ordem no caos instalado. Poderíamos chamar esse primeiro vértice do lugar do demandante, do portador da angústia.

 

A segunda é o nosso ou melhor de quem recebe a angústia e   inquieta-se em torno dela em busca de compreensão e possível resposta. A princípio está tudo certo, somos profissionais e fomos chamados a executar nosso trabalho. Mas, exatamente por sermos profissionais, não podemos nos enganar, sabemos que esse encontro, esse pedido de aquiete esse menino, não o deixe ser um transgressor, tocará inevitavelmente e singularmente em cada um dos profissionais envolvidos.

 

A terceira e mais importante, a meus olhos, é o vértice da criança. Portanto foi o eleito para que me aprofunde hoje.

Foram três trabalhos realizados pelo Instituto de Olho No Futuro.

Intervenção na história da criança carente

Suporte

Anjo

 

As crianças do primeiro local, moram em favelas na periferia de São Paulo, a maioria (80%) não convivem com o pai e a mãe é arrimo de família. Levantam muito cedo para junto com seus irmãos, acompanharem a mãe em uma condução lotada até a escola ou o centro comunitário da ACM, que seguirá para seu trabalho, maioria como doméstica, nas imediações.

No Centro Comunitário ou na escola encontram uma realidade totalmente diferente daquela onde moram, muito melhor, mas são “estrangeiros” nesse bairro e sentem nas mensagens subliminares do dia a dia. Apesar da escola ser Estadual está localizada em local de pessoas com poder aquisitivo maior, um choque passar por todas aquelas casas, escolas e crianças dentro do carro de seus pais enquanto elas caminham exaustas puxadas pela sua mãe, afinal não existem linhas de ônibus que passem perto da escola. Dentro da sala de aula outro drama, não conseguem e não querem acompanhar a matéria, estão cansados e muito pouco interessados em aprender, esse caminho é árido difícil e incerto, difícil de sonhar, mais fácil pensar em uma saída mais rápida como ser jogador de futebol ou modelo. Isso eles viram na TV, de onde vieram os craques e modelos descobertos ao acaso.

Depois da escola uma perua os leva até a ACM, um clube, local de pessoas de classe média e média alta. Na frente existe uma entrada com as catracas para os sócios, o transporte passe por ela e os leva para os fundos, onde fica o centro comunitário mantido com a parceira da prefeitura de São Paulo com a ACM.

Recebem alimentação, reforço escolar e utilizam o “clube” em horários especiais para eles nas piscinas e quadras, mas também podem   inscreverem-se em aulas junto com os sócios.

É então que aparece a queixa e angústia da instituição. Como eles podem não estar agradecidos, Por que não aproveitam do que lhe é oferecido, pulam de curso em curso, não se implicam em nada, estão cada vez mais agressivos.

Nossa resposta: vamos perguntar a eles e a seus pais. 

Descobrimos nos pais o mesmo descontentamento da escola e da instituição em relação a seus filhos. Descobrimos o quanto esses pais colocavam estes locais como detentores do saber em detrimento da própria valorização de sua função paterna. Delegavam por sentirem-se incompetentes e quando não funcionava não decepcionavam-se com a instituição mas com os seus filhos.

Um trabalho psicanalítico foi proposto: grupo de pais, atendimento às crianças e aos monitores e responsáveis pelo Centro Comunitário.

É claro que não conseguimos mudar a realidade   externa com nossas constatações e grupos, afinal ela é reflexo de nossa sociedade, mas ao darmos voz para a criança e seus pais legitimamos suas queixas ao mesmo tempo em que desmontamos o modelo antes reafirmado pelos seus pais: “Esse menino não tem jeito!” agora era com eles!.

As crianças do segundo   trabalho, “Suporte”, estavam abrigadas pelo poder público em lares sociais. Vou discorrer apenas sobre o primeiro. Esse abrigo, oferece todos os recursos concretos necessários para a criança crescer e desenvolver-se, grande espaço, camas individuais, quartos separados por idade, alimentação balanceada, passeios e recreação com voluntários no fim de semana e férias, monitores que conduzem-nas nas escolas da proximidade.  Um verdadeiro paraíso para crianças que na maioria das vezes moravam em situações tidas como de risco não muito diferente do nossos garotos do nosso trabalho anterior, mas devemos considerar que houve uma quebra catastrófica, de repente foram interrompidos em suas histórias e afastados dela sem saber ao certo por que e sem a menor condição de escolha.

 No entanto o pedido de ajuda novamente não é deles mas da instituição que está indignada com a falta de reconhecimento e gratidão a princípio de um dos garotos de 10 anos, o mesmo tempo que a instituição existe, abrigado desde bebê que apresenta comportamentos destrutivos dentro e fora do abrigo.

Quando chegamos o garoto já havia sido expulso daquele abrigo com a ameaça de ser internado na Febem. Mas ele havia apontado a falha nos alicerces daquela instituição e o pedido foi mantido.

Nos dispusemos a ouvir, a instituição, a criança os funcionários.

A Diretoria e a assistente social, relatam o quanto eles são fechados, parece que vivem em outro mundo, não parecem merecedores de tanto recurso.

Os outros funcionários assim como as crianças, não expressam muita coisa.

Levantamos o quanto as crianças não tinham espaço para expressarem sua infelicidade pela quebra do vínculo familiar que subtraiu dela capítulos que só poderiam ser reparados se reconhecidos e elaborados. Sabíamos que atender àquelas crianças era trazer um mundo desarrumado que inevitavelmente recairia em seus cuidadores. Propomos organizar um grupo de todas as pessoas que trabalhavam no abrigo, desde a diretoria até o motorista, em paralelo ao atendimento do grupo de crianças. 

Os encontros com as crianças ocorreram e como imaginamos trouxeram comportamentos indesejáveis para todos, mas infelizmente não pudemos realizar o grupo do pessoal do abrigo, por limitações da dinâmica que poderíamos discutir em outro momento, porque quero continuar privilegiando o vértice da criança. 

Ana Alvarez em artigo que discute brevemente a questão do atendimento a crianças que sofreram trauma, fala sobre o risco do trauma do trauma. Sem poder oferecer condições de acolhimento do abrigo, lugar ao qual pertenciam então, penso que provocamos o trauma do trauma ao dar-lhes espaço para falar de seu desamparo e todos os sentimentos que provocavam sem respaldo dos responsáveis pela sua sobrevivência, viramos vilões e fomos afastados.

O terceiro trabalho, Anjo, não foi menos dramático. Aconteceu em paralelo ao anterior em um abrigo mais flexível e estávamos otimistas com o resultado possível que se desenhava. Foi um grupo de jovens voluntários de uma ong implicada com os passeios, presentes e visitas a crianças de abrigos, nos procurou com a seguinte dor: “Eles simplesmente destroem os presentes caros que conseguimos para eles, em suas cartinhas para o papai Noel pedem coisas como uma casa, uma mãe, um computador”.

 Ouvimos vinte crianças do abrigo, todas diziam que os voluntários só vinham nas datas festivas, mas já estavam acostumadas, mas se não viessem também estava tudo bem.  Se viessem ótimo até porque ganhavam muitas coisas.

Concluímos que estas crianças não faziam vínculos como forma de evitar a dor do afastamento, um jeito de sobreviver ao desamparo.

Fomos mais radicais e já que eles estavam tão dispostos a ajudar tínhamos uma proposta. Um projeto piloto chamado Anjo.

Utilizamos testes projetivos, e escolhemos os voluntários também através de testes projetivos e entrevistas. Em seguida cruzamos os dados e montamos duplas. O voluntário se comprometeria a ser a referência desta criança em todas as situações menos as econômicas, alias os presentes foram retirados da relação. Para sustentar o peso desse lugar o voluntário faria acompanhamento quinzenal com uma terapeuta para auxiliá-lo.

Nos primeiros seis meses apesar de muitos ajustes as coisas caminharam, mas aos poucos os voluntários foram mudando suas vidas de uma forma surpreendente, a princípio parecia coincidência, mas aos poucos todos deixaram o projeto por mudanças na vida pessoal, como gravidez, casamento, decisão de deixar o país, ou a mais óbvia, “descobri que preciso de análise e na análise descobri que a criança desamparada que quero ajudar está dentro de mim”.

Como no trabalho do “Suporte” não pudemos cumprir com o que acenamos para essas crianças, apontamos para o desamparo delas e acertamos no nosso desamparo diante delas.

Infelizmente é preciso que recorramos árduo e dolorido caminho para reconhecermos o óbvio. O nosso primeiro trabalho deu certo.  Olhando de trás para frente podemos observar que aqueles pais, com dificuldades de valorizar seu papel na vida psíquica do seu filho eram candidatos a provocarem uma situação de perda do vínculo e autoridade sobre eles, afinal diante de tanta sensação de incompetência quem sabe é a escola a instituição, etc. Quero acreditar que ao colocarmos luz sobre a relação deles com seus filhos ampliamos as suas possibilidades de escolha.

Quem viu Estamira pode compreender a riqueza criativa em meio ao que parece desprezível e descartável quando a filha dela diz que preferia ter podido estar com ela independente de qualquer coisa.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Em 2026 vamos repaginar, retomar, resignificar o percurso desse blog, abrindo para reflexões e interações, oxigenando com as experiencias clínicas e a arte, ambas sempre valiosa  para a psicanalise.  

BEM VINDOS AO PRIMEIRO DEGRAU


REPETIR, REPETIR, REPETIR ....

Nossa maior luta diária, é com os fantasmas que habitam nosso interior. Não se trata de estar tomado de algo maligno do qual deveríamos nos livrar, mas da força das marcas indeléveis deixadas como pegadas, em nós mesmos, que são muito mais presentes do que gostaríamos ou precisaríamos para viver em harmonia com esse mundão do lado de fora. Na verdade, a realidade externa nos coloca a todo momento em contato com o real, real esse que atravessa nossas entranhas e causa estranhamento e consequentemente, acorda e sacode esses nossos fantasmas.

Um filme antigo, “O feitiço do tempo”, ilustra o quanto a tarefa de fazer diferente, enfrentar a tentação diária de repetir seguindo as preciosas pegadas deixadas em nós, desde nossa primeira infância, exige determinação e uma grande dose de humildade e resignação. Vou explicar melhor.

 Diante das demandas da vida, sejam elas de ordem afetiva ou material, temos gravado em nós respostas defensivas que transformam o novo em velho e sagrado conhecido, para atender ao chamado mortal, de que nada mude, afastando o pulsar da vida, que é transformação e portanto, exige e impulsiona para mudança. 

Assim, uma situação nova e desconhecida ganha a roupagem do que já foi vivido, e a resposta a ser dada é a repetição, do já vivido. Em nome da estabilidade do já conhecido, desperdiçamos nossos dias, presos e amordaçados no passado.

Mas, quando se trata de psiquismo, não existe saída fácil. Essas mesmas marcas, que nos mantém presos ao passado, são tão importantes e fundamentais como o alicerce de uma construção.  Assim, poderíamos dizer que o grande desafio humano é aceitar a sua singularidade e limite diante de sua história, sem perder a oportunidade de utilizar cada novo dia para repaginar as marcas deixadas pelo passado. 

 

 




quinta-feira, 4 de setembro de 2025

TEORIA DA TÉCNICA PSICANALITICA E O LUGAR DO ANALISTA

  

                Por estar apoiado nos três pilares tão conhecidos (análise pessoal, estudo teórico e supervisão clínica) tornar-se um analista é um processo particular, contínuo e interminável, visto que assim como a análise, trata-se de estar em constante contato com o não saber tão próprio do inconsciente.

          Adentrar nos saberes da técnica psicanalítica é, portanto, aproximar-se do que constitui a moldura do encontro analítico somado as ferramentas de manejo clínico.

A técnica, longe de oferecer um passo a passo orientador do fazer do analista, é o chão do encontro analítico, assim como a terra é para a planta, quanto mais o analista estiver abastecido de recursos pessoais construídos em análise e suporte através da e de sua prática supervisionada, maiores serão os frutos colhidos na relação analista – analisando.

 

Objetivo: A teoria da técnica psicanalítica está apoiada na importância da compreensão de que o encontro analítico apesar de acontecer de forma única, responde a formas de funcionamento psíquico, sendo, portanto, esse encontro peça fundamental da aproximação da verdade do sujeito.

O manejo na sessão analítica ao mesmo tempo é ferramenta e fonte de descobertas sobre o sujeito e sobre a própria teoria psicanalítica. Sem a compreensão da dimensão de seu impacto o analista atuará no escuro.

Já a intervenção analítica é responsável por produzir movimentação no processo do analisando tanto quanto do analista. O limite de sua atuação e do futuro desse encontro, dependerá do quanto ambos aceitam o desafio.

 

Programa

1- Método

- Psicanálise Silvestre (Freud 1910)

- Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (Freud 1911)

- Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (Freud 1912)

- Sobre o início do tratamento (Freud 1913)

- Capital e Libido (As 4 + 1 condições de análise – Quinet cap IV)

- Recordar, repetir, elaborar (Freud 1914)

- A dinâmica da transferência (Freud 1912)

- Além do princípio do prazer (Freud 1920)

- Análise terminável e interminável (Freud 1937)

- Construções em Análise (Freud 1937)

Obras Completas S. Freud

Quinet - As 4+1 condições de Análise

 

2- Objetivo na análise

Paixão pela origem

A ética freudiana

O desejo do outro

 Freud e o desejo do analista – Serge Cottet-1


3 - A prática da transferência e contra transferência nas estruturas psíquicas 

Psicose 

Perversão

Neurose Histérica

Neurose de Angustia 

Neurose Obsessiva 

Borderline


Ilustração com estudo de casos e filmes. 


Início

Aula inaugural dia 25 de setembro de 2025

início 16 de outubro de 2025

- On-line, as quatro quintas feiras do mês das 11h às 12h

- acesso a aulas gravadas

 

Investimento

250,00 mensais

 

 Sonia Pires Psicóloga, psicanalista membro do curso formação em psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, e Psicanálise Francesa pelo Instituto Langage, supervisora, escritora, atende em consultório desde 1980 em psicanálise desde 1989. Coordena grupos de estudos em psicanálise, tendo interesse particular na prática e formação do psicanalista em seu ofício. Nos últimos anos também tem se dedicado à poesia. Autora dos livros: Desamparo na Infância (2013), Psicanálise e Planos de Saúde (2014), Voternidade, ser avó, ser avô um doce desafio (2015), O Jeito de Amar de Cada um (2017), Inspiração no Analista (2019) - Amor na Rede – O jeito de Amar de Cada um em tempos de Internet (2020) - Broto (2021) e Coautora do livro, Impacto da Má Notícia Médica Na Família (2016).

Site: http://www.soniapirespsicanalista.com - e-mail: soniapires@uol.com.br 

Whatzapp 997683816

 

 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

CURSO ON-LINE - OS CAMINHOS DA LIBIDO


A psicanálise enquanto um saber do qual não se sabe, ao contrário, necessariamente segue a máxima socrática só sei que nada sei, por ser no lugar da falta e do vazio que se constrói o processo analítico, precisa se abster dos modismos próprios das gerações e principalmente do conhecimento advindo do senso comum.

Atualmente vivemos um momento de “levantar bandeira” das diversas formas de se nomear as escolhas de parceiros sexuais. Não seria necessariamente a forma de amar, mas sim das questões relativas ao desejo sexual. Ser bissexual, homossexual, transsexual, etc, parece ser uma forma de definir quem é o sujeito, mas a psicanálise parte do princípio de que o sujeito é produto de um longo e sutil processo, impossível de ser classificado, logo não haveria necessidade de se entrar nessa seara.

 No entanto, para responder a esse momento dessa forma, é preciso que o analista tenha conhecimento e compreensão dos caminhos da libido aos olhos da psicanálise. Esse curso se propõe a oferecer espaço de estudo e envolvimento com os textos que abordam as questões fundantes do sujeito através do seu percurso que envolve basicamente, identificação e escolha de objeto.

 

PROGRAMA

Freud:

- Três ensaios sobre a sexualidade 

- Cinco conferências sobre Psicanálise 

- Leonardo Da Vinci 

- Um tipo especial de escolha de objeto feito pelos homens

- Sobre o Narcisismo 

- Uma criança está apanhando 

- A psicogênese de um caso de homossexualidade feminina 

- A organização genital infantil 

- O problema econômico do masoquismo 

- A dissolução do complexo de Édipo 

- Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos

- Sexualidade feminina 

 

Piera Aulagnier

- A violência da interpretação 

- Os destinos do prazer 

 

Sonia Pires Psicóloga, psicanalista membro do curso formação em psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, e Psicanálise Francesa pelo Instituto Langage, supervisora, escritora, atende em consultório desde 1980 em psicanálise desde 1989. Coordena grupos de estudos em psicanálise, tendo interesse particular na prática e formação do psicanalista em seu ofício. Nos últimos anos também tem se dedicado à poesia. Autora dos livros: Desamparo na Infância (2013), Psicanálise e Planos de Saúde (2014), Voternidade, ser avó, ser avô um doce desafio (2015), O Jeito de Amar de Cada um (2017), Inspiração no Analista (2019) - Amor na Rede – O jeito de Amar de Cada um em tempos de Internet (2020) - Broto (2021) e Coautora do livro, Impacto da Má Notícia Médica Na Família (2016).

Site: http://www.soniapirespsicanalista.com - e-mail: soniapires@uol.com.br 

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CURSO ON-LINE - CONSTITUÇÃO E ESTRUTURA PSÍQUICA

 

Freud, a princípio instigado pela histeria, uma doença com sintomas físicos em um corpo saudável, buscava a cura e tropeçou nos mistérios da mente, revelando a nossa submissão a um mundo que jamais nos apropriaremos totalmente. Assim, revela que a psicanálise enquanto área de conhecimento, se propõe a compreender o que escapa a todo instante, o psiquismo, um saber que não se sabe.

Os conceitos freudianos acerca do como nos constituímos e estruturamos psiquicamente, permeiam toda sua obra, oferecendo o que chamamos de olhar psicanalítico, a partir do qual, tanto os teóricos seus contemporâneos quanto os que o sucederam, se baseiam e ampliam e constroem o arcabouço psicanalítico.

 

Objetivo: Compreender os caminhos percorridos pela teoria psicanalítica em seus primórdios, tendo como fio condutor o como o sujeito se constitui e estrutura, instigando o interesse e o surgimento de novos saberes.

Carga horário: 60 aulas de uma hora.


PROGRAMA

A - Constituição psíquica

1 – A histeria e a teoria do trauma (Charcot, Breuer)

2 – O inconsciente (interpretação dos Sonhos)

3 – Narcisismo (Introdução ao Narcisismo)

4 – Escolha de Objeto (Luto e Melancolia)

5 – Sexualidade infantil (três ensaios da sexualidade)

6 – Pulsões (Além do princípio do prazer, Pulsão e seus destinos, Os instintos e suas vicissitudes, inibição sintoma e angústia)

7 – Complexo de Édipo, castração, superego (Totem e Tabu. O declínio do complexo de Édipo, Neurose e Psicose)

8 – Aparelho psíquico (O ego e o Id)

9 – Sofrimento psíquico - Condição humana (mal-estar da civilização, futuro de uma ilusão)

 

B – ESTRUTURA PSÍQUICA

1 – PSICOSE (Schreber)

2 – Neurose Histérica (Caso Dora)

3 – Neurose de Angústia (pequeno Hans)

4 – Neurose Obsessiva (homem dos ratos)

5 – Perversão (Fetichismo, masoquismo)


Sonia Pires Psicóloga, psicanalista membro do curso formação em psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, e Psicanálise Francesa pelo Instituto Langage, supervisora, escritora, atende em consultório desde 1980 em psicanálise desde 1989. Coordena grupos de estudos em psicanálise, tendo interesse particular na prática e formação do psicanalista em seu ofício. Nos últimos anos também tem se dedicado à poesia. Autora dos livros: Desamparo na Infância (2013), Psicanálise e Planos de Saúde (2014), Voternidade, ser avó, ser avô um doce desafio (2015), O Jeito de Amar de Cada um (2017), Inspiração no Analista (2019) - Amor na Rede – O jeito de Amar de Cada um em tempos de Internet (2020) - Broto (2021) e Coautora do livro, Impacto da Má Notícia Médica Na Família (2016).

Site: http://www.soniapirespsicanalista.com - e-mail: soniapires@uol.com.br 

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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Meias

 

Já se sentiu avulso na vida? 

Pareço estar em um balaio de meias, aos poucos todas a volta, vão se juntando e encontrando o par, e fica tudo certo, não importa se estão feias, velhas ou furadas, a condição de ter par faz delas, vamos dizer, felizes, úteis, com propósito. Já as que, “sobram”, podem ser lindas, novas, perfeitas, mas perdem a serventia, até o plural usual, “meias” fica estranho para se referir a elas. Ser par, é que faz delas meias, coisa esquisita. 

Será que já não é hora da revolução das meias? 

Poderíamos pra começar chama-las no singular. Elas são singulares, ficou melhor, mas, aí seria meia e não um inteiro singular. 

Talvez a revolução das meias passe por deixar de ter seu valor marcado pela serventia. Talvez a analogia com as meias fale mais da nossa necessidade de ocupar o lugar de necessário ou necessitado.

Pensando assim, me distancio das meias e passo a pensar que essa sensação de ser avulso na vida seja porque não conseguimos nos imaginar felizes, satisfeitos se não estivermos satisfazendo o desejo de alguém, mesmo que brigando por liberdade e independência, não sabemos direito onde colocar nosso desejo legitimo, aliás muitas vezes não sabemos nem como identifica-los. Se não tenho um par que me define, quem sou? 

Então saímos de cabeça baixa, feito meia sem par, em busca do par que nos complete e dê sentido na vida, deixando de lado a busca do que verdadeiramente seriam nossos contornos, angustias e desejos. Vamos lá calçar alguém, sem sabermos direito o que seria isso, ou a que preço. 

Quer saber, depois dessa conversa, não estou mais com vontade de ser meia, quero mesmo é ser inteira, topando a sensação incomoda de ser avulso, vamos ver onde vai dar! 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Psicanálise, atendimento psicológico e planos de saúde

 

Vamos voltar um pouco no tempo. Quando Charcot, no século XIX, interessou-se pela clínica da histeria, descobriu que algo naqueles sintomas escapava ao saber médico da época. Apesar de toda controvérsia que causou, exatamente por denunciar um “não saber”, inaugurou os conhecimentos acerca da psique humana que Sigmund Freud desenvolveu com genialidade. Muitos outros teóricos vieram desde então, alguns refutando outros acatando, mas todos tentando desvendar os enigmas que envolvem a trajetória do homem animal ao homem sujeito da cultura.

Uma nova profissão: tratar dos sofrimentos psíquicos. Freud em sua experiência de ensaio e erro chegou até o desenvolvimento da técnica psicanalítica. A psicanálise independente da teoria abordada tem como base a transferência.

A psicologia por outro lado, enquanto prática voltada para a clínica, desenvolveu muitas outras abordagens com aportes diferentes e portanto com técnicas com objetivos e princípios particulares.

Tanto a psicanálise quanto a psicologia clínica tem como objeto de trabalho e estudo a psique humana e carrega em seu bojo os limites dos enigmas inerentes a ela. Assim, compreender um determinado sintoma, jamais será compreender o sujeito ou mesmos todos os sujeitos acometidos por ele. Diferente da medicina, onde a doença pode ser catalogada e medicada, os sintomas psíquicos mesmo que catalogados, jamais podem ser tratados de forma uniforme. Uma visita a uma clínica psiquiátrica será suficiente para constatar que a própria “loucura” é uma forma singular de existência.

Século XXI, novos tempos, depois de sermos submetidos a uma avalanche de conhecimentos tecnológicos no século anterior, um misto de sensação de domínio do tempo e portanto da nossa condição de sujeito limitado e condenado a finitude, nos invadiu. Os profissionais como psicólogos e psicanalistas tem agora a função de adequar esse psiquismo submetido e mergulhado nos conflitos próprios da sua natureza, a nova condição humana: a unificação pela rápida “cura” e conquista do que é belo, perfeito e funcional.

Os profissionais mais experientes compreendem esse processo e trabalham em sua clínica, essa busca como um sintoma a ser entendido como uma nova defesa do afastamento da dor de ser humano.

O trabalho do terapeuta, diferente do médico, não é administrar remédios. Não é aconselhar, educar, indicar, ou oferecer saídas práticas para o sujeito, mas oferecer sua escuta e técnica para que ele encontre seu próprio caminho dentro da sua história. Compreender um sintoma não é suficiente para o sujeito abandoná-lo ou “resolve-lo”, mas abre espaço para novas configurações que inevitavelmente levarão a compreensão dele como parte de um todo. Cada abordagem teórica tem seus instrumentos nela fundamentados para tratar do sofrimento humano diante das dores psíquicas.

No entanto, quando os planos de saúde passam a oferecer atendimento psicológico com a força de uma lei, abrem espaço para o uso perverso desta função.

De um lado temos o psicólogo que ao receber um número significativo de pacientes, trabalha em linha de produção, respondendo a demanda do convênio, algo muito mais confortável que percorrer os caminhos sinuosos da psique humana que exige estudo, supervisão e constante contato com as próprias questões.

Cumpre com as sessões estabelecidas, totalmente na contramão do estabelecimento do vínculo terapêutico, mantém o convênio entre eles como anteparo.  Com a fachada de que estaria respeitando suas regras, esconde-se do contato com os limites de sua formação teórica e técnica, inevitáveis a qualquer profissional da área, quando do contato com a demanda de um novo paciente.

No entanto, para ele, não se trata de um novo paciente, tendo em vista que o paciente é do “convênio” ele é sempre conhecido enquanto tal. As questões acerca do singular e, portanto assustador daquela relação não pode acontecer nesta forma tão “fast” e generalizada de contato.

Do outro lado o paciente protegido pela guia de encaminhamento, que chega em posição de quem tem a determinação de um “Outro” para que o terapeuta cumpra sua função: manter a saúde mental em dia.   Nessa posição não pode dirigir ao psicólogo a sua angustia, mas suas defesas em relação a ela. Com  poucas sessões com duração as vezes de quinze minutos,  quem seria  “insano” a ponto de vincular-se? Uma situação ambígua, pois ao mesmo tempo que o protege do vínculo o deixa desamparado e sem resposta para a angústia que mantém guardada em segredo.

Então poderíamos dizer que estamos no mundo da fantasia. A lei da agência Nacional de Saúde, com aval do Conselho Federal de Psicologia, faz de conta que protege os direitos dos pacientes, o convênio faz de conta que cumpre, o psicólogo faz de conta que trata protegendo-se do seu não saber dizendo: “fazemos o que podemos” e os pacientes “passam” pelo psicólogo.  Alguns tendo ainda mais reforçadas suas defesas, outros mais prejudicados têm suas defesas abaladas e seguem ainda mais desestruturados, outros mais defendidos mantêm-se descrentes nesse tipo de trabalho dizendo “isso não serve para nada”.