segunda-feira, 21 de março de 2016

Envelhecer – ponto de chegada ou de partida?


Os primeiros cabelos brancos, assim como as primeiras rugas não são tão reveladores do processo de decadência a que nosso corpo está sujeito, quanto a primeira visita ao oculista para quem nunca precisou de óculos.
Passar a utilizar um apoio como os óculos, quando nunca precisamos, nos coloca inevitavelmente na condição de dependência que cada um a seu modo resistirá a admitir, mas a ameaça de finitude não parará por ai. As dores lombares e a necessidade de mais quietude assim como pequenos outros sinais como esquecimentos bobos, são também admissíveis e portanto relevados, mas quando os remédios de uso continuo chegam a notícia da finitude entrou pela porta da frente.
No entanto, essa ameaça esteve presente de forma implícita desde quando pudemos nos pensar enquanto sujeito. Encontramos meios de driblá-la durante toda a vida, elegemos problemas substitutos com os quais possamos ter a ilusão de que estamos no comando.
Nós seres humanos sofremos durante toda a vida com a triste certeza de que não existiremos para sempre assim como as pessoas que amamos. Essa verdade precisa ser escondida nos recônditos de nosso inconsciente para que possamos ter alguma esperança, para que ela não tinja de morte nossa existência. Mas é um saber que permeia nossa vida. Construímos causas com as quais possamos lidar, assim como sofrimentos carregados de libido que nos mantém crentes que quando nos livrarmos dele teremos o grande presente do “felizes para sempre”.
O mundo contemporâneo encontrou uma forma particular de manejar esta dura realidade. Hoje estamos divididos entre os que tem e os que não tem, os que podem e os que não podem, os bregas e os top, os bombados e os caídos, e assim por diante.  O difícil é perseguir esse modelo de poder, mas mais difícil ainda é estar em “baixa” e não se incomodar.
Elegemos um grupo que é colocado como modelo do ideal e na moda sempre pautado pelo fora do ideal e da moda.
Hoje está na moda ser jovem e bonito. Uma verdadeira batalha foi travada com ajuda do desenvolvimento tecnológico para evitar o mal do envelhecimento que é a contrapartida do que está na moda. Ser velho é feio é brega e desprezível, não está na moda.
Por outro lado, paradoxalmente, esta mesma tecnologia criou novos recursos para que mais pessoas cheguem até essa velhice tão desprezível.
Outro dia vi uma mulher muito feminina e charmosa dirigindo um ônibus, há algumas décadas atrás seria algo surpreendente e com certeza fora da curva. Hoje com direção hidráulica e outros recursos dirigir um ônibus não exige a força do macho da espécie e nós mulheres expandimos nossos horizontes no mundo do mercado de trabalho, nessa e em tantas outras áreas.
Por quanto tempo nós mulheres ocupamos o lugar das que não tinham, das limitadas, por termos uma constituição física diferente dos homens? Nossa feminilidade era vista como fragilidade e impotência, como parte do movimento fálico natural da nossa cultura, nós éramos as que não tinham.  
Não seriam os velhos hoje os que são colocados nesse lugar da fragilidade e impotência?  Aposentar-se antes era sinônimo de fim da vida, hoje muitos aproveitam esse momento para construir uma nova carreira, abraçar uma causa antiga, correr atrás dos desejos secretos, ou coisa assim.
Nosso olhar para a velhice é marcado pelo nosso olhar para finitude. Envelhecer é entrar em contato com o limite do tempo, é saber que isso tudo vai acabar para nós mortais. Quando jovens fazemos de conta que não seremos atingidos pela morte, que ela é uma realidade distante que atinge velhos e doentes, quando a idade vai chegando já não podemos mais usar desse subterfugio para nos enganar sobre nossa condição humana.
O velho representa para o novo o lado obscuro que precisa ser mantido no outro. Representa limite, doença, morte, é desvalorizado e por que não dizer rejeitado e excluído. Em nossa cidade quem passou dos sessenta começa a ter algumas regalias, que parecem um cuidado que inclui, mas não seriam elas também um sinal de exclusão? Não seria uma generalização dizer que todos os que passam dos sessenta não tem condição de pagar um ônibus ou ficar em uma fila?
 Nas civilizações orientais a sabedoria dos anciões é procurada e almejada por aqueles que ainda não viveram o bastante para alcança-la. A sabedoria é o presente que conquistamos através dos segundos, minutos, horas, dias meses, anos, décadas, que foram tomados de vivências que nos sacudiram, alegraram, decepcionaram, entristeceram,  envergonharam e algumas vezes nos orgulharam. 
O envelhecimento é uma condição natural de todos através dos doloridos sinais anunciadores da lenta e paulatina e inevitável partida. O efeito de tal evento no psiquismo é dos mais variados.
Passamos a vida perseguindo objetivos, sonhos, mas também os boicotando afastando-os, negando-os uma luta fruto das formas como lidamos com nossas limitações. São as famosas tramas inconscientes que nos colocam constantemente diante destas duas forças, a que quer avançar e a que quer parar, mais que isso recuar, a que torna o envelhecer um ponto de chegada ou de partida.
O tempo é o senhor de nossas vidas e como tal em algum momento acaba por nos revelar que mesmo definindo nossa passagem por aqui, sempre nos deu e dará escolha, pois a batuta sempre esteve em nossa mão. Contraditório, mas real, ao mesmo tempo em que a morte é inevitável a vida sempre é uma escolha diária independente de quantos anos já tenhamos percorrido.