quinta-feira, 23 de abril de 2020


DIVÃ ONLINE

Sou psicóloga e o meu conselho de classe já havia autorizado, há algum tempo, o atendimento psicológico através dos meios digitais. No entanto, como psicanalista, sempre questionei o quanto essa nova forma de atendimento, poderia realmente funcionar, o quanto seria possível avaliar a transferência e a contratransferência em uma relação onde o corpo está fora da relação. Vou explicar melhor.
Quando temos um horário presencial, marcado com nosso analista, nos preparamos fisicamente, nem percebemos, mas escolhemos a roupa, os sapatos, os adereços, por vezes até o perfume. Nossa presença física faz parte nesse momento, do que imaginariamente queremos provocar em nosso analista. Por outro lado, o analista ao sair de casa, mesmo que tenha consultório em sua residência, prepara-se para se apresentar de forma confiável e neutra, ocupa-se, portanto, de como sua imagem será acolhida pelo paciente. Além disso nos deslocarmos física e psiquicamente até o local onde nos encontraremos, com nosso analista, assim como nossos pacientes. Nesse percurso, ambos vão se preparando para ocupar um lugar único, especial, o da transferência do paciente e contratransferência do analista.
Minha resistência em utilizar o meio virtual, para análise, estava pautada na valorização do momento do encontro presencial como parte fundamental do processo analítico, mas uma experiência pontual começou a balançar minhas certezas.
Há dois anos, estava em viagem no exterior e uma paciente gestante me procura por WhatsApp, dizendo que havia tido o bebê e que não conseguia parar de chorar, que tinha sentimentos de rejeição por ele que a estavam deixando desesperada. De pronto lembrei do seu processo analítico e percebi que era crucial uma intervenção naquele momento, tendo em vista que o rumo de sua análise e de sua vida e do bebê estavam em risco. Marcamos um horário por telefone e fizemos uma das melhores sessões que já havíamos feito. Com isso na bagagem, retornei aos meus atendimentos presenciais.
Continuei considerando muito valioso o processo analítico presencial, a ponto de considerar aquela experiência uma exceção, dizia a meus supervisionandos que o que era possível era uma psicoterapia, uma orientação, mas não uma análise.
Não adianta, quando algo quer se mostrar, vai insistir, retornar até que você enfim, renuncie a suas certezas e o encare de frente.  A pandemia que assola o mundo, sacudiu a prática analítica, pautada no encontro presencial que exerço há mais de trinta anos, me arremessando inadvertidamente a esse mundo online que tanto me deixa ressabiada.
Pensei em resistir, mas meu compromisso com os processos analíticos que acompanhava em um momento de tantas incertezas e mudanças radicais de vida, me colocaram diante da dura tarefa de enfrentar o inevitável desafio.
Como quase todos os meus pacientes usam o divã, preferi o atendimento pelo telefone, entendendo que a psicanálise é a cura pela palavra. O vídeo traria para meu paciente a experiência de ficar diante de mim como nunca havia estado, seriam mudanças demais para nossa relação analítica. No nosso acordo eles teriam que cuidar do que cuido no consultório, o setting, tornou-se deles o compromisso de encontrar um lugar onde pudesse minimamente reproduzir o ambiente do consultório. Deitar-se como no divã, cuidar da neutralidade do ambiente.
Fui sincera com todos eles, estaríamos fazendo uma tentativa.  Na primeira semana fiquei exausta, penso que me esforcei para quebrar minhas certezas e fazer o que sabia fazer, colocar minha escuta analítica acima de tudo. Como uma criança em seus primeiros passos, tateando e tentando encontrar lugar seguro para colocar o próximo pé, o próximo passo. O silêncio analítico quando se está no telefone, foi o primeiro passo. Manter-me disponível, quando o paciente perguntava: Caiu? eu dizia, fique tranquilo estou aqui, mesmo se tivéssemos uma interrupção de sinal.  Estar presente, uma função analítica primordial. Aprendi que a atenção flutuante dependia dessa minha presença, mas mais que isso, da certeza de que meu paciente estava ali, que estávamos “conectados”.
Hoje, depois de um pouco mais de um mês atendendo exclusivamente online, refeita do choque da transição brusca, devo dizer, onde houver demanda e escuta analítica, haverá analise.