terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Escrever ... uma verdadeira higiene...

De onde vem a capacidade criativa de nós seres humanos tão subjugados a imensidão de forças intimidadoras, tanto internas quanto externas?
O mundo, tanto o interno quanto externo, onde vivemos, nos imprime um estilo de vida por vezes perversor de nossos próprios e caros desejos e princípios.
Uma simples saída de casa, em um dia qualquer da semana, nos conduz a uma infinidade de sinais que apontam para assustadoras contradições.  Estranhamente nos advertem, por exemplo, que a gentileza atrapalha.
A paciência é rara entre os viventes na cidade grande. A pressa atropela os momentos de possível encontro entre mortais, exigindo rapidez e precisão de movimentos.
 As forças intimidadoras advindas do mundo interno, também não nos são menos difíceis de serem administradas. O complexo processo de nos tornarmos humanos mantém aprisionado grande parte de nossa energia psíquica, hoje sabemos que a angustia e ansiedade são inerentes a condição humana.
Um paradoxo velho conhecido: nas dificuldades e grandes tormentos, a capacidade criativa se manifesta como grande recurso de sobrevivência e esperança, como aposta na vida.  Na eminência de sucumbir, duas respostas são possíveis a de Thanatos (pulsão de morte) e a de Eros (pulsão de vida). Quando Eros surge, a criatividade aparece como recurso de saída e continuidade da vida. Como diz a música “Uma bomba sobre o Japão fez nascer um Japão de paz...”
O analista entrega grande parte de sua vida na escuta a um outro empenhado em abdicar de suas próprias questões, julgamentos e até mesmo crenças. Poderíamos dizer que essa entrega, esse empréstimo, vai na contramão da manifestação criativa do sujeito. No entanto, acontece exatamente o contrário.  
Ao mantermos em suspenso nossa condição de sujeito desejante, para abrir espaço para a associação livre e consequente ação da “função analítica”, de certa forma entramos em contato, sem perceber, com um mundo desconhecido, por vezes caótico, nesta intersecção que impulsiona e exige uma saída criativa.
J.D.Nasio em “A criança magnífica da psicanálise” diz que o psicanalista escreve por higiene.
Depois de trinta e seis anos ouvindo, ano após ano tantas histórias incríveis e únicas em meu divã, constato que todas elas foram capazes de me fazer rever essa minha escolha atualizando-a a cada dia.
Ao reconhecer que a necessidade de cuidar de minhas questões, em análise e das questões de meus pacientes em supervisão e estudo, não são suficientes para aliviar a carga afetiva inerente à relação analítica, então eu escrevo!
Escrever, nesse caso, é criar, é materializar a partir do inominável o que jamais seria capaz de ser descrito.
Essas reflexões e contos, registradas aqui, e nos meus livros e artigos, não são histórias que ouvi dos meus pacientes no meu divã, são histórias que criei para dar palavra para os personagens fictícios paridos a partir do encontro dos meus conteúdos mais secretos com a minha prática analítica.
São histórias que carregam e fazem circular emoções e sentimentos experimentados ao longo de uma vida, vivencias verídicas ou não, aconchegadas em algum lugar secreto do meu ser que encontram na criação de um personagem a possibilidade de ganhar o mundo.
Uma verdadeira “higiene”....


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016


Resultado de imagem para renas de natal

PAPAI NOEL EXISTE 

                Bom dia Dona Joana? Como tem passado? Como vão as crianças?
                Ah Dona Lurdes as coisas não andam nada boas aqui em casa, sempre estamos as voltas com a falta de dinheiro. Sabe como é vida de pobre, nossa alegria é a chegada do maior presente do mundo, nossos filhos, mas por ironia do destino eles passam a ser a maior causa de insônia e dor de cabeça, como dar conta de tudo que eles precisam?
                É mesmo Dona Joana, mas vejo que a senhora está grávida de novo, é o sétimo, não é?
                É sim, mais um para nos trazer alegria e preocupações, é a vida, Dona Lurdes, é a vida! Quando eu era mocinha, sonhava com uma família, mas não imaginava o que isso significaria.
                De repente um bebê chora e reclama a mãe, Joana pede à filha mais velha Marta para que veja o que está acontecendo com o caçula da casa. Mãe, diz ela, ele acordou, acho que está com fome. 
                - Então vá preparar a mamadeira dele – grita Joana.
                São dias árduos para Marta, desde pequena viveu em meio as dificuldades e conflitos dos pais que se estendiam a ela e seus irmãos. Quando o cobertor é pequeno cada um se ocupa mais ferozmente de manter-se aquecido, vale tudo, atacar, culpar e humilhar, as dificuldades financeiras são tantas que invadem as relações afetivas.
                Na falta aparece o lado ruim das pessoas, pensa Marta, concluindo que na abundância viveriam apenas o lado bom de todos. Na televisão todos parecem tão felizes com o que consomem, deve ser essa a fórmula da felicidade, filosofa Marta do alto de seus nove anos.
                Como primogênita tem certa autoridade sobre os irmãos o que significa desfrutar de algumas regalias com os pais, afinal divide as responsabilidades com eles, mas não pode relaxar, brincar…mas pode sonhar.... Aliás fantasiar é seu refúgio secreto, onde as coisas boas acontecem... Mas Marta tem apenas um único sonho: encontrar um tesouro no quintal da casa onde moram e enfim trazer algum equilíbrio e conseqüente felicidade para todos.
                Depois de mais um ano difícil com o nascimento de mais um irmão e aumento de todos os conflitos e afazeres domésticos que sobrecarregam Marta, é chegada a véspera de Natal. Desde o começo do mês de dezembro seus irmãos, começaram a fazer os pedidos para o Papai Noel. Marta, sorri internamente pensando no quanto eles são tolos e ela esperta.
                - Será que não percebem ou não querem perceber que essa história é para enganar as crianças?   Ah se você não for bonzinho, ou não tirar boas notas não vai ganhar presente do Papai Noel. Ruminava ela com sarcasmo e certa prepotência.
                Marta já não fazia cartinhas desse tipo há muito tempo, considerava-se acima de todos, muito mais evoluída e adulta que os babacas dos seus irmãos. Todos acordaram felizes e esperançosos de receber os presentes, diferente dela que tinha uma informação preciosa que a protegia da frustração; sabia que o ano tinha sido muito difícil e que os pais não dariam, novamente o que pediram. Senta-se diante da Televisão e encanta-se com tantas ofertas de felicidade. O telefone toca, a mãe grita para que ela atenda.
                – Alô quem fala? Do outro lado da linha ouve um oh oh oh eu sou o Papai Noel, quem está falando é a Marta? Sou eu mesma, como você sabe o meu nome? Vou desligar, que trote bobo você está passando, nem criancinha de cinco anos acreditaria que o papai Noel ligaria para ela na véspera de natal... essas crianças pequenas acham que ele está ocupado preparando os presentes para entregar a noite.  
                - Mas estou mesmo preparando os presentes e percebi que esse ano novamente você não fez sua cartinha para mim... retruca alegremente a voz do outro lado.
                - Me poupe, seja lá quem você for, tenho mais o que fazer do que dar ouvidos a quem quer me fazer de idiota, vou desligar. Retruca Marta irritada.
                - Não desligue, me conta porque você não acredita mais em mim? Apela a voz no telefone.
                - Pare com isso.  Gritou ela, desligando o telefone e voltando a ver a Televisão. Respira aliviada por ter resolvido o assunto sozinha quando um homem barbudo como o papai Noel aparece na tela e pergunta: - Por que você desligou o telefone? Assustada Marta, cobre o rosto. Ele continua a falar, - Meninas como você Marta não conhecem a magia da infância, Ela estava com o controle remoto na mão e rapidamente desligou a TV.
                  – Ufa... que loucura, acha que não estou batendo bem da cabeça, sussurrou ela. Levantou-se do sofá e quando estava indo para a cozinha ouviu a campainha de sua casa tocar. A mãe grita lá do quarto para que ela atenda a porta. Olha pelo olho mágico e lá está o mesmo homem da TV. Meu Deus, pensa ela, eu enlouqueci mesmo e desesperada pede para ele ir embora. Ele diz: não se assuste eu faço parte de um dos sonhos que você insiste em não sonhar. – Como assim? Pergunta Marta.
                Ele responde agora aliviado por ter a oportunidade de falar com Marta e calmamente lhe explica.  Todos nós somos dotados de uma capacidade de fantasiar, sonhar, algumas vezes nos perdemos nesses devaneios, mas eles são poderosas fontes de vida. Tenho percebido que você não sabe sonhar, não utiliza desse mundo maravilhoso que tem aí dentro e acaba sendo essa menina chata e pedante que é.
                Tomada de furor Marta grita, dizendo que ele não sabe de nada que ele nem existe. Ele retruca: - e você existe? Olha para você, vive como uma máquina, cumpre tarefas, assiste televisão, se impõe para seus irmãos e colegas, não sabe brincar nem sonhar, isso é existir? E ainda por cima não me dá a menor chance de torná-la mais doce.
                - Ah você se acha espertinho, claro que sonho e se você realmente me conhecesse saberia disso.
                - Do que você está falando??? Daquela besteira de encontrar tesouro e resolver o problema de todos? Ah Marta, me desculpe, mas você é uma menina muito ignorante neste assunto. Isso não é sonhar isso é tentar resolver o problema de todos como você sempre acha que tem que fazer.
                De repente Marta se dá conta que não sabe do que ele está dizendo, aliás que não sabe mesmo nada de si mesma. Esteve tão ocupada pelos gritos e pedidos de todos que nem percebeu que estava se deixando de lado, ele tinha razão, isso era existir? Mas ela não se entregaria tão fácil assim aos argumentos daquele velho desconhecido. Questiona-o então: Olha você, digamos que seja o papai Noel, o que você faz não é muito diferente do que eu. Vive o tempo todo preparando presentinhos para iludir as criancinhas de que a vida é bela, isso é existir? Você não passa de um velho que quer aparecer para se reafirmar porque na verdade não existe.
                Então é assim que você trata seus sonhos e esperanças? Pergunta com voz entristecida, o senhor do outro lado da porta, destitui-os de valor como faz com todo mundo que demonstra sentimento?
                 Quando uma criança, como teus irmãos e amigos, sonha com o Natal não é o presente que importa, mas o poder acreditar que alguém pode ouvir seus desejos, mais que isso é considerar que os próprios desejos são importantes. O Natal não é apenas a chegada do Papai Noel, na verdade ele simboliza a esperança como um presente que vem dos céus como a estrela de David, nos indicando que viver vale a pena se pudermos acreditar e valorizar o que os outros sentem e o que sentimos, por mais difícil que seja.
                Marta, eu sou construído a partir dos desejos e esperanças das crianças que como você tem um longo e penoso caminho pela frente, afinal viver não é fácil para ninguém. Assim como minhas renas, vocês crianças, crescidas ou não, me conduzem no trenó mágico da imaginação, os presentes podem não chegar, mas a esperança e crença na vida estarão sempre presentes se a porta do coração de cada uma de vocês estiver aberta.
                 Abra a porta Marta e permita que eu e você enfim possamos existir, assim viver será mais que uma tarefa, será sempre um presente mágico vindo dos céus.
    

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SUSTO



Nós humanos precisamos nos sentir seguros, afinal a vida oferece tantos perigos...

De dentro, produtos dos fantasmas ameaçadores criados por nós...

De fora, vindo dos céus, impostos pelas inevitáveis circunstancias da vida a que todos estamos sujeitos...

Perigos reais,  ou imaginários, não importa, todos são vividos ou temidos, e apavoram tanto que mal podem ser tocados...

Para tanto tumulto, tormento e barulho assustador, avassalador, é preciso se prevenir, se proteger, criar artifícios reais ou imaginários que limitem os riscos, e que nos dê a sensação de segurança, estabilidade e constância. Tipo o “tudo bem não foi nada” da mãe quando a criança chora depois de um tombo.


O efeito colateral dessa manobra, é que essa formula, não dá a menor noção de que monstros enfrentamos, afinal mal podemos suportar deixá-lo em nós para dimensionar o tamanho do perigo. Como a mãe que não olha os joelhos do garoto, sacode rapidamente com tapinhas por cima das calças evita-se ver o machucado, mas ele continua sangrando.

Quando estamos diante de nossas angústias e temores, quase sempre, reveladores de nossos limites e de nossa finitude, também damos alguns tapinhas. Compramos, comemos planejamos alguma coisa.  Nos esquivamos, dizendo que não é nada, mas por dentro sentimos o risco e em algum lugar, sabemos que levantamos muralhas, alicerces, redomas protetoras, para não sermos atingidos pelo que inevitavelmente já nos atingiu. 

O sucesso a comemoração, nem sempre são pelo bem conquistado, mas por ter conseguido se esquivar da certeza da dor inevitável que a vida nos impõe. 

Outra manobra as vezes parece um paradoxo. Ao mesmo tempo que pulsamos e insistimos em sobreviver à morte, flertamos com ela, nos colocamos em situações de risco, numa tentativa louca de romper o limite da vida, para assim ter a sensação de controle sobre o incontrolável fluxo da vida.


Quando diante da morte de um bebê que acabou de nascer, da morte de uma jovem mãe, ou de um time inteiro de jogadores, nos perguntamos como a vida pode terminar para  quem teria tantos capítulos a escrever?

Notícias como essas, acordam nossos fantasmas, que zelosamente mantemos protegidos, pois retiram o cobertor que encobre a nossa ignorância angustiante diante da morte, nos levado a sentir na pele, ao mesmo tempo, a fragilidade e a importância de cada minuto do nosso pulsar. 


sábado, 12 de novembro de 2016

O JEITO DE AMAR DE CADA UM

Encontra-se em e-book meu novo livro:

"O jeito de amar de cada um"

O lançamento do livro físico será em 2017. 





Sinopse 

Amar.... Sentimento implacável e inexplicável, um paradoxo da condição humana.  Com o coração vazio temos os pés no chão, mas sofremos com o vazio e insignificância da vida, nos sentimos sós.  Quando estamos amando vivemos na corda bamba, a insegurança e ansiedade são o preço a ser pago por deixar que um outro entre em nossas vidas de forma arrebatadora.
 
Esta obra se debruça sobre a questão do amor com os olhos da psicanálise com o apoio das expressões da arte e da poesia que recheiam os filmes e musicas.

A razão nada sabe do amor, afinal ele é um sentimento, a linguagem é outra. Um dialeto que nos encanta desde as nossas primeiras experiências amorosas. Serão exatamente elas, as historias do romance familiar, que pautarão de forma inconsciente nossos encontros amorosos durante toda nossa vida. Cada novo amor é um convite para resignificar, dar novos significados, à forma como amamos e vivemos.


Assim, amar tanto pode ser terapêutico quanto doentio, tanto pode destruir quanto potencializar a quem bebe de suas águas, mas ninguém passa por ele impune.


www.biblioteca24horas.com.br

terça-feira, 18 de outubro de 2016

PRISIONEIROS DO PASSADO



Uma escada estreita e curva, conduz a uma sala ampla com varanda, os vidros fechados cobertos por cortinas longas. Um corredor comprido guarda a direita quartos repletos de história reverberante. Ao final a grande cozinha, com mesa retangular e muitas cadeiras, revela que ali muitos já se saciaram, do muito que aquele fogão no canto embaixo do vitro, produziu.
No quintal, saindo da cozinha, mais histórias enigmáticas tomam o ar. Uma antessala. O que haveria pensado ou sonhado quem a idealizou? Ao atravessá-la mais um amplo espaço, apenas alguns eletrodomésticos antigos em um pequeno canto, coberto por telhas e o restante estende-se por muitos metros de espaço vazio, ao relento cercado por um muro baixinho, e novamente uma escada estreita, mas desta vez ela conduz a uma visão, de tirar o folego, da paisagem que cerca a propriedade em 360 graus. Uma espécie de cobertura, com uma churrasqueira novinha abandonada, denúncia de que muito do que se sonhou não pode ser vivido naquele espaço, diferente da impressão dos outros lugares da casa.
Quem poderia escrever os próximos capítulos e como o faria?
Uma mulher que em seu aspecto arcado demonstra carregar o peso dos anos passados naquele lugar, é a última testemunha dos sonhos vividos, e dos não vividos ali, que mais parece um fruto mumificado, digno de um estudo arqueológico.
 Mas, essa mulher tenta manter-se viva, em meio a tanto apelo do silêncio e da morte que ecoam das paredes, dos corredores e dos móveis e utensílios. Paradoxal é perceber, claramente, que ao mesmo tempo que ela se considera parte daquelas paredes e, portanto, daquele passado que não chega, do morto que não vai embora, resiste bravamente a morrer, ao mesmo tempo em que não consegue deixa-lo para trás e seguir vivendo. Uma espécie de fidelidade que chega a parecer religiosa, às coisas amontadas e mantidas da mesma forma por tantos anos, revela a presença dos mortos que não podem ser deixados. Como se essa mulher estivesse mantida viva amalgamada a morte. Como não ter crises de ansiedade e angústia? Como controlar a pressão que na verdade anuncia que ela está viva e pulsante?

Prisioneira de um moribundo presente que como um zumbi não pode se tornar passado, assim como a mãe que não pode permitir que o filho cresça, para não perder a sua criança amada, agarrada a ilusão de eternidade carrega seu bebê ilusório em seu colo que ocupado, nada mais poderá receber.
Essa cena me remete diretamente ás experiências difíceis, mas privilegiadas que meu ofício   oferece.  Ao adentrar nos corredores das moradas psíquicas de meus pacientes, por vezes sou conduzida a corredores escuros que me levam a um mundo de zumbis, personagens moribundos alimentados pela vida de sujeitos que por diversos motivos não conseguem despedir-se, tanto de momentos desconfortáveis quanto prazerosos, mantendo-os como morto vivo alimentados pela energia de vida que deveria fluir, represada e estancada nessas marcas.

A clínica me coloca diante de inúmeras histórias, todas únicas, mas ao mesmo tempo testemunhas do difícil empenho que a vida nos impõe. Quando somos a-traídos pelo  ciclo em espiral de desamparo, encontro, prazer, perda, dor desprazer e novamente, desamparo ela revela a urgência de manter a esperança  e abrir a porta para a vida diante do apelo da mesmice e do silencio da paz da morte. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DESAMPARO NA INFÂNCIA


Quando temos contato com a delinquência na juventude, logo nos apressamos em associa-la as dificuldades sócio econômicas dos países de terceiro mundo como o Brasil. Relacionamos as dificuldades de estrutura básica, como a educação e alimentação, como um dos fatores determinantes da desordem que estes jovens vivem e provocam no meio.  Há algumas décadas, perdi essa visão equivocada.

Quando me propus a intervir “quichotianamente” em uma instituição que acolhia crianças carentes e supostamente futuros delinquentes, entrei em contato com a equação do local que era e é bem-intencionada e simples.
Esta instituição, considera que a pobreza e o meio em que essas crianças crescem são os determinantes do que ela se tornará. Logo, oferecer a elas outras oportunidades, como auxilio nas dificuldades educacionais, atividades esportivas, cultura, alimentação e lazer, as afastariam da utilização da agressividade, dirigida tanto ao meio quanto a si mesma.

Como psicanalista, fui convidada a colocar alguma luz, no porque esta equação não estava funcionando. A instituição sofria, com o ataque e a desvalorização do que oferecia, às crianças que atendiam. Os monitores, esforçavam-se em conscientiza-las, mas elas retornavam com atitudes que revelavam certo triunfo sobre todos, logo ataque no lugar do aproveitamento, que levaria consequentemente a gratidão e amadurecimento.

Algum tempo em contato com essas crianças e seus pais revelaram que o movimento de ataque das crianças, tinham razões pertinentes.  Atacavam o que revelava sua fragilidade e falta, mas não exatamente de comida, educação, esporte, cultura e lazer, mas sim de investimento e suporte emocional fundamentais para o desenvolvimento de uma estrutura psíquica capaz de suportar a dores próprias de todo ser humano de estar no mundo.

O contato com os pais, revelou o quanto pouco esperavam de seus filhos, logo pouco investiam neles, tendo em vista que eram seus produtos, assim sentiam, que nada valiam como eles. Uma herança arraigada e maldita, difícil de ser interrompida, pois dependia fundamentalmente da mudança de rumo, do que provavelmente foi transmitido através das gerações. Mas, como oferecer uma oportunidade de mudança de rumo, uma possibilidade de escolha para criança que chega nessa estrutura?

Essa era a nossa proposta. Foram anos de intervenção psicológica com pais e crianças, com auxílio da instituição, com reconhecimento da UNESCO, alguns resultados foram atingidos, o que provou a eficácia do trabalho.

 A intervenção com instituições que abrigam crianças e adolescentes que sofreram a perda do vínculo familiar, apontou que o nosso sucesso neste caso, era devido a presença dos pais ou responsáveis, tanto na vida da criança quanto na intervenção que oferecíamos. Assim, pude concluir que a manutenção da relação com os pais é fundamental, mesmo sendo conflitiva. A mudança de rumo, poderia ocorrer, contanto que os pais estivessem empenhados, em envolver-se no desafio de compreender e mudar a relação afetiva com seus filhos.

         Não ocorreu o mesmo nos abrigos, onde a criança, por motivos judiciais, era afastada da família. Tentamos oferecer por muitos anos intervenção na dinâmica através de atendimentos e avaliações psicológicas e como refleti em meu livro “Desamparo na Infância”:

         ...Descobri, no contato com aquelas e com outras, que, quando os pais são afastados da criança, algo se quebra como cristal, de forma definitiva. Podem-se fazer alguns arranjos, mas confiança para valer nunca mais.

         Recentemente assisti o filme “De Cabeça erguida” e toda experiência que vivi retornou em minha mente. A história se passa em um país de primeiro mundo a França, onde a assistência ao menor é muito investida e organizada.

Logo na primeira cena encontramos uma juíza que tenta conversar com a mãe do garoto, o protagonista do filme. Uma mãe extremamente comprometida, um pai com pouca força e uma estrutura externa empenhada em oferecer alguma escolha para aquela criança durante seu desenvolvimento até a adolescência. Percebe-se durante todo filme a luta do garoto para sobreviver aos efeitos destrutivos de sua mãe em sua vida, uma mulher visivelmente com sérios problemas vinculares. Durante todo filme, ao mesmo tempo em que se mostra rejeitadora, (como na cena inicial), descompensa-se quando o filho precisa de seu vínculo emocional e de seu cuidado e proteção. No entanto isso não era o mais grave, mas sim ela ser totalmente refratária a qualquer tipo de intervenção.

Uma certa desilusão me abateu. Apesar de minha visão, em relação a intervenções na infância, com caráter preventivo da delinquência juvenil, não ser muito otimista atualmente, sempre acreditei que um trabalho de responsabilidade do estado, organizado e realmente interessado na criança e sua família, como esse oferecido pela França, poderia preencher as lacunas deixadas por uma relação de base desestruturante. Esse filme me fez pensar, que se trata de um problema muito mais delicado e complexo e de difícil solução. Todo suporte imaginável, como financeiro, educacional, social, psicológico e educacional de nada servem se os pais e responsáveis não tem condições mínimas de reconhecimento, elaboração e mudança pessoal.
         

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A MENTIRA


Como uma espécie de droga, ela às vezes é necessária, e se administrada com cautela pode curar um coração machucado e sem esperança. Assim, ao dizer para criança pequena, que mamães não morrem, administramos uma pequena gota de mentira, que permitirá que ela se sinta segura para seguir adiante, dando tempo, para que através das experiências de sua vida, atinja maturidade suficiente, para compreender, que todos um dia morremos, inclusive as mamães.
No entanto, a mentira é uma droga perigosa e poderosa, que se mal administrada provoca vício irremediável, extremamente destruidor para quem a administra, e principalmente para todos que estão ao redor.
Torna-se mais agravante, se as pessoas ao redor acreditam e confiam no amor e cuidado do mentiroso, pois o estrago atingirá as suas entranhas, e causará danos incuráveis.
Mas, o mentiroso é atingido da mesma forma.  A diferença é que ele vive sob efeito da droga da mentira, que utiliza de forma compulsiva, o que o mantém distante de qualquer notícia verdadeira. Ele passa a viver, a respirar, as suas histórias e não pode cuidar de si mesmo, pois está a quilômetros de distância de suas próprias necessidades, potencialidades, limites e desejos, na verdade tem uma pessoa negligenciada dentro dele, que ele não permite que apareça para evitar a angústia e a dor de existir.
O resultado, depois de um tempo com um mentiroso, é o de uma bomba, nos sentimos totalmente destruídos, mas a bomba estourou e ao estourar revelou a verdade e aquele sujeito confiável e por vezes amado, desapareceu! 
Sabemos das dores e estragos que ela causou, sabemos de nós mesmos, mas percebemos que aquele que parecia tão querido e amado, nunca existiu, explodiu e ao explodir vemos que nada havia além de ilusões.
Somos tomados de uma sensação de vazio a princípio, mas o tempo vai revelar o quanto precisamos destas ilusões e como uma criança não estávamos preparados para saber da verdade, precisávamos daquela mentira.
Mas, assim como precisávamos daquela mentira no passado, chega o momento em que a verdade é o único remédio capaz de nos tirar de um mundo de fantasias e nos trazer a realidade da situação em que estamos metidos até o pescoço.
Nada fácil, assim como a notícia de que a morte existe para todos, mas um paradoxo, só ela poderá nos permitir cuidar de nossas feridas, e nos manter vivos. Se não sabemos dela, as nossas dores anestesiadas pelas mentiras, assim como ignorada o mentiroso compulsivo, não nos cuidaremos e, portanto, não nos pegaremos no colo, para que com dor reconheçamos nosso estado de desamparo e abandono.
Momento difícil, mas com o tempo nos fará ver como um dia foi importante acreditar em papai Noel, poder acreditar no inacreditável e incrível, nos deu condições de voar em nossa imaginação e conhecer mundos que nos abasteceram para lidar com a realidade.

Depois dessa viagem, assim como depois de um tratamento com uma droga poderosa como um antibiótico, teremos forças para seguir adiante no desafio de estar vivo e acordado diante das dificuldades de cada dia, com a certeza de que jamais seremos os mesmos!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Coragem



Há muitos e muitos anos em um mundo muito longe daqui, morava uma menina. Ela não sabia ao certo como havia chegado lá, nem tampouco onde estariam as outras pessoas, o que ela sabia é que ela estava muito longe...

No primeiro dia em que acordou, sem nenhuma memória de onde tinha vindo muito menos de quem era, olhou a sua volta e encontrou o nada!

Por alguns dias encolheu-se em um canto qualquer e silenciosamente esperou que algo acontecesse, mas o nada reinava!

Precisava urgentemente fazer alguma coisa para afastar o nada,  as armas que tinha eram apenas as que moravam dentro dela protegidas do ataque do nada: a Fome, a Sede, o Desamparo a Solidão e o Medo.

         Junto delas e por causa delas, começou a sua viagem.
 
No caminho, ao mesmo tempo em que a Fome, a Sede o Desamparo e a Solidão ajudassem a encontrar saídas, o Medo era quem estava no comando.

 A Fome a ajudou a encontrar uma beterraba dentro da terra, mas o medo alertou sobre seu aspecto e seu gosto adocicado e ela diz:  hac que nojo, levando-a a cuspir.

A Sede a ajudou a encontrar um lago pequeno, mas o medo gritou dentro dela: a água está turva melhor não tomar, essa coisa suja vai te matar!

 O Desamparo encontrou uma arvore oca para passar a noite, mas o Medo disse que o lugar era pequeno demais e ela o deixou para trás.

A Solidão encontrou um ser estranho, feio e sem graça que ameaçou aproximar-se, mas o Medo alertou-a do perigo que corria e ela afastou-se rapidamente.

Seguiu caminhando e quanto mais o tempo passava mais a beterraba o lago e a árvore oca e o ser estranho tornavam-se importantes para ela, sonhava em reencontra-los, mas já haviam ficado para trás e descobriu então que naquele mundo não havia jeito de voltar, quando olhava para trás o caminho percorrido sumia como mágica.

Foi escurecendo e ela viu diante de si a noite chegar e ela era negra e assustadora, mas mais assustador ainda era não haver ninguém por perto para lhe fazer companhia.

 Foi quando algo com grandes asas saiu de dentro dela e disse: eu sou a Coragem, agarre-se a mim.

Desta vez ela não jogou fora o que encontrou e ao alçar voo nos ombros da coragem. Encontrou no caminho a Esperança, uma figura simpática e sorridente...

A partir de então uma infinidade de coisas, a menina a Coragem e a Esperança, viveram juntas e o medo não pode mais comandar!

 Conheceram outros lugares, alguns eram estranhos outros mais simpáticos e com aspecto conhecido.

Acompanhada da Coragem e da Esperança, ela conheceu e foi conhecida por muitos universos, onde encontrou comida, agua e seres das mais diversas espécies.

Certo dia ao acordar percebeu que a Fome, a Sede, o Medo, o Desamparo e a Solidão haviam ficado para trás naquele caminho sem volta e deu até certa saudade deles, mas alegrou-se ao olhar do seu lado e ver as suas amigas de viagem, a Coragem e a Esperança.

O que ficou para trás foi o passado, lugar que não dá para voltar, no caminho que é o presente encontrou a coragem para com ela voar no aqui e agora rumo ao futuro, que a gente não conhece e por isso precisa muito da companhia da Esperança para nele acreditar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

AMOR

Afinal o que é o amor?
Entrega incondicional?
Um mar de dor?
Vivência passional?

Tantas tentativas de entender
o que não é da ordem da razão.
Nos faz sofrer
Nos alegra e afasta a solidão.

Queremos por razão nesse louco sentir
Queremos tê-lo na nossa mão
Mas não dá para mentir
Ao explica-lo ele já escapou pelo vão!

Amar é experiência humana
Só para quem tem coragem

Só para quem tem alma insana!

Coisas do coração


Impossível não se ver enroscado nas coisas do coração.  Podemos nos proteger é claro, mas na própria forma de se defender do envolvimento, que inevitavelmente trará dor, nos revelamos de forma escandalosa.

A mulher e o homem forte, que pareciam ter controle sobre a própria vida, de repente desaparecem e no lugar deles, surgem uma menina e um menino, totalmente perdidos com os sentimentos confusos e atordoantes que brotaram sem aviso ou autorização naquele coração. 

Fantasmas adormecidos há muitos anos surgem e trazem a tona as questões das primeiras dores de amor. Ao retornarem  roubam a cena, com todas as cores do mundo infantil, passional, ambivalente, ambíguo e, portanto, extremamente desconcertante.

Queremos ser amados, queremos amar, mas não queremos  pagar o preço de tal desejo.  Uma saída honrosa é jamais permitir que o outro ultrapasse a nossa linha de segurança. Para tanto criamos barreiras, nos blindamos e ironicamente reclamamos da falta de satisfação na vida do vazio de nossos dias. No entanto, por mais justificativas que encontremos, em algum lugar sabemos do quanto estamos nos protegendo da dor de amar.

Nosso primeiro amor foi o materno. Nele encontramos a matriz de nossa existência. Estamos todos fadados a escrever nossos próximos capítulos a partir dele. Assim, uma falha nesse encontro, um mal-entendido ou a dupla mensagem, da mesma forma que o amor e investimento afetivo intenso, ou uma possessão, serão os fantasmas com os quais teremos que conviver.

Pobre de nós seres humanos, desejamos tanto reencontrar o amor perdido, que não nos damos conta, que ao vivermos nossa história de amor seremos assombrados pelos fantasmas, que inevitavelmente nos impendem de amar aquele que está diante de nós.  



segunda-feira, 25 de julho de 2016

26 de JULHO - DIA DOS AVÓS


Um pedacinho do meu livro, "Voternidade - ser avó, ser avô, um doce desafio", para comemorar!


"...Foi no meu trabalho como analista que aprendi a valorizar o que parece bobo através da força de duas regras fundamentais da psicanálise, descritas por Sigmund Freud: a atenção flutuante e a associação livre.
            Segundo ele, o inconsciente, tanto do analista como do paciente, precisa de um ambiente isento de pressões para se manifestar. Em linhas gerais, ele postula que as revelações mais preciosas em um encontro analítico surgem sem que as procuremos, quando permitimos que elas se manifestem.
            Não estou aqui defendendo que nós, avós, nos tornemos terapêuticos para nossos netos ou vice-versa, mas, ao contrário, estou chamando atenção para o modo como essa relação despretensiosa é privilegiada por carregar em seu bojo a possibilidade de um encontro transformador para ambos, exatamente por estar paradoxalmente isenta da responsabilidade de cumprir qualquer função.
            Momentos preciosos com aparência de tolos poderão surgir desta experiência capaz de revelar segredos imensuráveis da vida, ou ser somente uma pausa deliciosa como algodão doce, que não tem a menor pretensão de alimentar, mas enche os olhos, adoça a boca e lambuza o rosto e os dedos.

            Só mesmo quem tem a sabedoria adquirida no perde-ganha da vida pode reconhecer a sutil grandeza que o aparentemente simples comporta."

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O NINHO QUE TRANSBORDA

O NINHO QUE TRANSBORDA 

Houve um tempo em que a saída dos filhos de casa era totalmente vinculada ao casamento. Uma passagem natural de um estado de criança dependente a adulto tomado de responsabilidades. Imagino que essa exigência era no mínimo assustadora tanto para o dono do ninho quanto para aquele passarinho que num susto tinha que aprender a voar para não se estatelar no chão. 

Não sou dessa geração, sou da geração da transição, onde o jovem teve voz e no grito ganhou  espaço para manifestar suas inquietações, desejos e necessidades, derrubou tabus, questionou o casamento, as relações mantidas em nome de um ideal social, colocou em xeque o autoritarismo dos mais velhos e da sociedade. 

Mas, como nós que brigamos tanto para derrubar o poder de nossos pais e da sociedade, lidamos com nossa prole quando nos tornamos pais e vimos diante de nós a necessidade de ocupar aquele papel que tanto criticamos e abominamos?

Não saberia dizer de todos, mas posso dizer que muitos de nós demos com os burros n'água. Oferecemos uma liberdade em relação ao desejo de nossos pequenos que eles não tinham a menor condição de administrar. 

Penso comigo agora, como pudemos perguntar para nossos filhos de quatro, cinco anos o que eles queriam comer, vestir ou fazer?. Eu, mesmo sendo psicanalista e sabendo que a primeira infância é um lugar complexo e obscuro, onde o sujeito ainda se encontra as voltas com a descoberta do que fazer com seu corpo, com seus impulsos, fiz isso. Como muitos de nós permitimos que nossos filhos tomassem seu quarto como propriedade particular para suas experiencias sexuais? 

Movidos pelo nosso narcisismo consideramos alucinadamente que nossa prole, por ser nossa prole, teria absorvido, (só se fosse por osmose) toda experiencia que adquirimos com os embates que vivemos no passado e vivemos todos os dias, para enfrentar o caminho tortuoso de sermos nós mesmos. 

Os protegemos  em nosso ninho e de repente ao dirigirmos nosso olhar para aquele ninho vemos um passarinho com asas fortes e poderosas, com garras que parecem de águias, com canto que ao sair de sua garganta encanta, muito mais potente que nós, mas acomodado transbordantemente no ninho sem saber que pode conquistar o mundo num simples bater de asas. 

Assim nem percebemos que ao  dar todo espaço de expressão e realização para nossos filhos, o protegemos de sofrer, e como ser alguém sem sofrer? Como viver a dor e a delícia de ser você mesmo apoiado no colinho quentinho  de "mamãe e papai"? 

Um abraço serve para acolher, dar segurança e manifestar amor, mas se não chegar o momento de soltar os braços, como seguir em frente?




O NINHO QUE TRANSBORDA

O NINHO QUE TRANSBORDA 

Houve um tempo em que a saída dos filhos de casa era totalmente vinculada ao casamento. Uma passagem natural de um estado de criança dependente a adulto tomado de responsabilidades. Imagino que essa exigência era no mínimo assustadora tanto para o dono do ninho quanto para aquele passarinho que num susto tinha que aprender a voar para não se estatelar no chão. 

Não sou dessa geração, sou da geração da transição, onde o jovem teve voz e no grito ganhou  espaço para manifestar suas inquietações, desejos e necessidades, derrubou tabus, questionou o casamento, as relações mantidas em nome de um ideal social, colocou em xeque o autoritarismo dos mais velhos e da sociedade. 

Mas, como nós que brigamos tanto para derrubar o poder de nossos pais e da sociedade, lidamos com nossa prole quando nos tornamos pais e vimos diante de nós a necessidade de ocupar aquele papel que tanto criticamos e abominamos?

Não saberia dizer de todos, mas posso dizer que muitos de nós demos com os burros n'água. Oferecemos uma liberdade em relação ao desejo de nossos pequenos que eles não tinham a menor condição de administrar. 

Penso comigo agora, como pudemos perguntar para nossos filhos de quatro, cinco anos o que eles queriam comer, vestir ou fazer?. Eu, mesmo sendo psicanalista e sabendo que a primeira infância é um lugar complexo e obscuro, onde o sujeito ainda se encontra as voltas com a descoberta do que fazer com seu corpo, com seus impulsos, fiz isso. Como muitos de nós permitimos que nossos filhos tomassem seu quarto como propriedade particular para suas experiencias sexuais? 

Movidos pelo nosso narcisismo consideramos alucinadamente que nossa prole, por ser nossa prole, teria absorvido, (só se fosse por osmose) toda experiencia que adquirimos com os embates que vivemos no passado e vivemos todos os dias, para enfrentar o caminho tortuoso de sermos nós mesmos. 

Os protegemos  em nosso ninho e de repente ao dirigirmos nosso olhar para aquele ninho vemos um passarinho com asas fortes e poderosas, com garras que parecem de águias, com canto que ao sair de sua garganta encanta, muito mais potente que nós, mas acomodado transbordantemente no ninho sem saber que pode conquistar o mundo num simples bater de asas. 

Assim nem percebemos que ao  dar todo espaço de expressão e realização para nossos filhos, o protegemos de sofrer, e como ser alguém sem sofrer? Como viver a dor e a delícia de ser você mesmo apoiado no colinho quentinho  de "mamãe e papai"? 

Um abraço serve para acolher, dar segurança e manifestar amor, mas se não chegar o momento de soltar os braços, como seguir em frente?




segunda-feira, 21 de março de 2016

Envelhecer – ponto de chegada ou de partida?


Os primeiros cabelos brancos, assim como as primeiras rugas não são tão reveladores do processo de decadência a que nosso corpo está sujeito, quanto a primeira visita ao oculista para quem nunca precisou de óculos.
Passar a utilizar um apoio como os óculos, quando nunca precisamos, nos coloca inevitavelmente na condição de dependência que cada um a seu modo resistirá a admitir, mas a ameaça de finitude não parará por ai. As dores lombares e a necessidade de mais quietude assim como pequenos outros sinais como esquecimentos bobos, são também admissíveis e portanto relevados, mas quando os remédios de uso continuo chegam a notícia da finitude entrou pela porta da frente.
No entanto, essa ameaça esteve presente de forma implícita desde quando pudemos nos pensar enquanto sujeito. Encontramos meios de driblá-la durante toda a vida, elegemos problemas substitutos com os quais possamos ter a ilusão de que estamos no comando.
Nós seres humanos sofremos durante toda a vida com a triste certeza de que não existiremos para sempre assim como as pessoas que amamos. Essa verdade precisa ser escondida nos recônditos de nosso inconsciente para que possamos ter alguma esperança, para que ela não tinja de morte nossa existência. Mas é um saber que permeia nossa vida. Construímos causas com as quais possamos lidar, assim como sofrimentos carregados de libido que nos mantém crentes que quando nos livrarmos dele teremos o grande presente do “felizes para sempre”.
O mundo contemporâneo encontrou uma forma particular de manejar esta dura realidade. Hoje estamos divididos entre os que tem e os que não tem, os que podem e os que não podem, os bregas e os top, os bombados e os caídos, e assim por diante.  O difícil é perseguir esse modelo de poder, mas mais difícil ainda é estar em “baixa” e não se incomodar.
Elegemos um grupo que é colocado como modelo do ideal e na moda sempre pautado pelo fora do ideal e da moda.
Hoje está na moda ser jovem e bonito. Uma verdadeira batalha foi travada com ajuda do desenvolvimento tecnológico para evitar o mal do envelhecimento que é a contrapartida do que está na moda. Ser velho é feio é brega e desprezível, não está na moda.
Por outro lado, paradoxalmente, esta mesma tecnologia criou novos recursos para que mais pessoas cheguem até essa velhice tão desprezível.
Outro dia vi uma mulher muito feminina e charmosa dirigindo um ônibus, há algumas décadas atrás seria algo surpreendente e com certeza fora da curva. Hoje com direção hidráulica e outros recursos dirigir um ônibus não exige a força do macho da espécie e nós mulheres expandimos nossos horizontes no mundo do mercado de trabalho, nessa e em tantas outras áreas.
Por quanto tempo nós mulheres ocupamos o lugar das que não tinham, das limitadas, por termos uma constituição física diferente dos homens? Nossa feminilidade era vista como fragilidade e impotência, como parte do movimento fálico natural da nossa cultura, nós éramos as que não tinham.  
Não seriam os velhos hoje os que são colocados nesse lugar da fragilidade e impotência?  Aposentar-se antes era sinônimo de fim da vida, hoje muitos aproveitam esse momento para construir uma nova carreira, abraçar uma causa antiga, correr atrás dos desejos secretos, ou coisa assim.
Nosso olhar para a velhice é marcado pelo nosso olhar para finitude. Envelhecer é entrar em contato com o limite do tempo, é saber que isso tudo vai acabar para nós mortais. Quando jovens fazemos de conta que não seremos atingidos pela morte, que ela é uma realidade distante que atinge velhos e doentes, quando a idade vai chegando já não podemos mais usar desse subterfugio para nos enganar sobre nossa condição humana.
O velho representa para o novo o lado obscuro que precisa ser mantido no outro. Representa limite, doença, morte, é desvalorizado e por que não dizer rejeitado e excluído. Em nossa cidade quem passou dos sessenta começa a ter algumas regalias, que parecem um cuidado que inclui, mas não seriam elas também um sinal de exclusão? Não seria uma generalização dizer que todos os que passam dos sessenta não tem condição de pagar um ônibus ou ficar em uma fila?
 Nas civilizações orientais a sabedoria dos anciões é procurada e almejada por aqueles que ainda não viveram o bastante para alcança-la. A sabedoria é o presente que conquistamos através dos segundos, minutos, horas, dias meses, anos, décadas, que foram tomados de vivências que nos sacudiram, alegraram, decepcionaram, entristeceram,  envergonharam e algumas vezes nos orgulharam. 
O envelhecimento é uma condição natural de todos através dos doloridos sinais anunciadores da lenta e paulatina e inevitável partida. O efeito de tal evento no psiquismo é dos mais variados.
Passamos a vida perseguindo objetivos, sonhos, mas também os boicotando afastando-os, negando-os uma luta fruto das formas como lidamos com nossas limitações. São as famosas tramas inconscientes que nos colocam constantemente diante destas duas forças, a que quer avançar e a que quer parar, mais que isso recuar, a que torna o envelhecer um ponto de chegada ou de partida.
O tempo é o senhor de nossas vidas e como tal em algum momento acaba por nos revelar que mesmo definindo nossa passagem por aqui, sempre nos deu e dará escolha, pois a batuta sempre esteve em nossa mão. Contraditório, mas real, ao mesmo tempo em que a morte é inevitável a vida sempre é uma escolha diária independente de quantos anos já tenhamos percorrido.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Solidão de Barriga Cheia




            Sensação estranha essa de imaginar que alguém está crescendo dentro de você. Todos a volta impactados, cada um a seu modo, com a criança que virá e com a mãe que vem chegando não sabem nem saberão jamais o que realmente está se passando dentro de você.

            Uma carga pesada recai sobre os seus ombros que até então, só sabiam o que era ser filha.  A ideia de ser mãe ainda está apoiada no seu desejo de filha de ter uma mãe na maioria das vezes diferente da que teve.  São as queixas das falhas de sua mãe que funcionam como contorno da mãe que está sendo gerada.

            Que missão difícil essa!

            Como saberá o que é melhor do que recebeu?  Se souber como conseguirá realizar algo que jamais aprendeu?

            Junto daquela barriga que cresce, cresce também a angústia de uma menina que aspira ser melhor que a mãe, mas sente-se sem recursos para tal...

            Cada vez que o bebê sinaliza estar vivo em seu ventre, uma sensação de conforto afasta a ameaça de que algo falhou em seu corpo... ele está bem, mas também aumenta a angústia, ele está chegando, estarei pronta?