quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A clínica psicológica em tempos de fast food



Vamos voltar um pouco no tempo. Quando Charcot, no século XIX, interessou-se pela clínica da histeria, descobriu que algo naqueles sintomas escapava ao saber médico da época. Apesar de toda controvérsia que causou, exatamente por denunciar um “não saber”, inaugurou os conhecimentos acerca da psique humana que Sigmund Freud desenvolveu com genialidade. Muitos outros teóricos vieram desde então, alguns refutando outros acatando, mas todos tentando desvendar os enigmas que envolvem a trajetória do homem animal ao homem sujeito da cultura.
Uma nova profissão: tratar dos sofrimentos psíquicos. Freud em sua experiência de ensaio e erro chegou até o desenvolvimento da técnica psicanalítica. A psicanálise independente da teoria abordada tem como base a transferência.
A psicologia por outro lado, enquanto prática voltada para a clínica, desenvolveu muitas outras abordagens com aportes diferentes e portanto com técnicas com objetivos e princípios particulares.
Tanto a psicanálise quanto a psicologia clínica tem como objeto de trabalho e estudo a psique humana e carrega em seu bojo os limites dos enigmas inerentes a ela. Assim, compreender um determinado sintoma, jamais será compreender o sujeito ou mesmos todos os sujeitos acometidos por ele. Diferente da medicina, onde a doença pode ser catalogada e medicada, os sintomas psíquicos mesmo que catalogados, jamais podem ser tratados de forma uniforme. Uma visita a uma clínica psiquiátrica será suficiente para constatar que a própria “loucura” é uma forma singular de existência.
Século XXI, novos tempos, depois de sermos submetidos a uma avalanche de conhecimentos tecnológicos no século anterior, um misto de sensação de domínio do tempo e portanto da nossa condição de sujeito limitado e condenado a finitude, nos invadiu. Os profissionais como psicólogos e psicanalistas tem agora a função de adequar esse psiquismo submetido e mergulhado nos conflitos próprios da sua natureza, a nova condição humana: a unificação pela rápida “cura” e conquista do que é belo, perfeito e funcional.
Os profissionais mais experientes compreendem esse processo e trabalham em sua clínica, essa busca como um sintoma a ser entendido como uma nova defesa do afastamento da dor de ser humano.
O trabalho do terapeuta, diferente do médico, não é administrar remédios. Não é aconselhar, educar, indicar, ou oferecer saídas práticas para o sujeito, mas oferecer sua escuta e técnica para que ele encontre seu próprio caminho dentro da sua história. Compreender um sintoma não é suficiente para o sujeito abandoná-lo ou “resolve-lo”, mas abre espaço para novas configurações que inevitavelmente levarão a compreensão dele como parte de um todo. Cada abordagem teórica tem seus instrumentos nela fundamentados para tratar do sofrimento humano diante das dores psíquicas.
No entanto, quando os planos de saúde passam a oferecer atendimento psicológico com a força de uma lei, abrem espaço para o uso perverso desta função.
De um lado temos o psicólogo que ao receber um número significativo de pacientes, trabalha em linha de produção, respondendo a demanda do convênio, algo muito mais confortável que percorrer os caminhos sinuosos da psique humana que exige estudo, supervisão e constante contato com as próprias questões.
Cumpre com as sessões estabelecidas, totalmente na contramão do estabelecimento do vínculo terapêutico, mantém o convênio entre eles como anteparo.  Com a fachada de que estaria respeitando suas regras, esconde-se do contato com os limites de sua formação teórica e técnica, inevitáveis a qualquer profissional da área, quando do contato com a demanda de um novo paciente.
No entanto, para ele, não se trata de um novo paciente, tendo em vista que o paciente é do “convênio” ele é sempre conhecido enquanto tal. As questões acerca do singular e, portanto assustador daquela relação não pode acontecer nesta forma tão “fast” e generalizada de contato.
Do outro lado o paciente protegido pela guia de encaminhamento, que chega em posição de quem tem a determinação de um “Outro” para que o terapeuta cumpra sua função: manter a saúde mental em dia.   Nessa posição não pode dirigir ao psicólogo a sua angustia, mas suas defesas em relação a ela. Como são poucas sessões, quem seria tão “insano” a ponto de vincular-se? Uma situação ambígua, pois ao mesmo tempo que o protege do vínculo o deixa desamparado e sem resposta para a angústia que mantém guardada em segredo.
Então poderíamos dizer que estamos no mundo da fantasia. A lei da agência Nacional de Saúde, com aval do Conselho Federal de Psicologia, faz de conta que protege os direitos dos pacientes, o convênio faz de conta que cumpre, o psicólogo faz de conta que trata protegendo-se do seu não saber dizendo: “fazemos o que podemos” e os pacientes “passam” pelo psicólogo.  Alguns tendo ainda mais reforçadas suas defesas, outros mais prejudicados têm suas defesas abaladas e seguem ainda mais desestruturados, outros mais defendidos mantêm-se descrentes nesse tipo de trabalho dizendo “isso não serve para nada”.