Vamos voltar um pouco no tempo.
Quando Charcot, no século XIX, interessou-se pela clínica da histeria,
descobriu que algo naqueles sintomas escapava ao saber médico da época. Apesar
de toda controvérsia que causou, exatamente por denunciar um “não saber”,
inaugurou os conhecimentos acerca da psique humana que Sigmund Freud
desenvolveu com genialidade. Muitos outros teóricos vieram desde então, alguns
refutando outros acatando, mas todos tentando desvendar os enigmas que envolvem
a trajetória do homem animal ao homem sujeito da cultura.
Uma nova profissão: tratar dos
sofrimentos psíquicos. Freud em sua experiência de ensaio e erro chegou até o
desenvolvimento da técnica psicanalítica. A psicanálise independente da teoria
abordada tem como base a transferência.
A psicologia por outro lado,
enquanto prática voltada para a clínica, desenvolveu muitas outras abordagens
com aportes diferentes e portanto com técnicas com objetivos e princípios
particulares.
Tanto a psicanálise quanto a
psicologia clínica tem como objeto de trabalho e estudo a psique humana e
carrega em seu bojo os limites dos enigmas inerentes a ela. Assim, compreender
um determinado sintoma, jamais será compreender o sujeito ou mesmos todos os
sujeitos acometidos por ele. Diferente da medicina, onde a doença pode ser
catalogada e medicada, os sintomas psíquicos mesmo que catalogados, jamais
podem ser tratados de forma uniforme. Uma visita a uma clínica psiquiátrica
será suficiente para constatar que a própria “loucura” é uma forma singular de
existência.
Século XXI, novos tempos, depois
de sermos submetidos a uma avalanche de conhecimentos tecnológicos no século
anterior, um misto de sensação de domínio do tempo e portanto da nossa condição
de sujeito limitado e condenado a finitude, nos invadiu. Os profissionais como
psicólogos e psicanalistas tem agora a função de adequar esse psiquismo
submetido e mergulhado nos conflitos próprios da sua natureza, a nova condição
humana: a unificação pela rápida “cura” e conquista do que é belo, perfeito e
funcional.
Os profissionais mais experientes
compreendem esse processo e trabalham em sua clínica, essa busca como um
sintoma a ser entendido como uma nova defesa do afastamento da dor de ser
humano.
O trabalho do terapeuta, diferente
do médico, não é administrar remédios. Não é aconselhar, educar, indicar, ou
oferecer saídas práticas para o sujeito, mas oferecer sua escuta e técnica para
que ele encontre seu próprio caminho dentro da sua história. Compreender um sintoma
não é suficiente para o sujeito abandoná-lo ou “resolve-lo”, mas abre espaço
para novas configurações que inevitavelmente levarão a compreensão dele como parte
de um todo. Cada abordagem teórica tem seus instrumentos nela fundamentados
para tratar do sofrimento humano diante das dores psíquicas.
No entanto, quando os planos de
saúde passam a oferecer atendimento psicológico com a força de uma lei, abrem
espaço para o uso perverso desta função.
De um lado temos o psicólogo que
ao receber um número significativo de pacientes, trabalha em linha de produção,
respondendo a demanda do convênio, algo muito mais confortável que percorrer os
caminhos sinuosos da psique humana que exige estudo, supervisão e constante
contato com as próprias questões.
Cumpre com as sessões
estabelecidas, totalmente na contramão do estabelecimento do vínculo
terapêutico, mantém o convênio entre eles como anteparo. Com a fachada de que estaria respeitando suas
regras, esconde-se do contato com os limites de sua formação teórica e técnica,
inevitáveis a qualquer profissional da área, quando do contato com a demanda de
um novo paciente.
No entanto, para ele, não se
trata de um novo paciente, tendo em vista que o paciente é do “convênio” ele é
sempre conhecido enquanto tal. As questões acerca do singular e, portanto assustador
daquela relação não pode acontecer nesta forma tão “fast” e generalizada de
contato.
Do outro lado o paciente
protegido pela guia de encaminhamento, que chega em posição de quem tem a
determinação de um “Outro” para que o terapeuta cumpra sua função: manter a
saúde mental em dia. Nessa posição não pode dirigir ao psicólogo a
sua angustia, mas suas defesas em relação a ela. Como são poucas sessões, quem
seria tão “insano” a ponto de vincular-se? Uma situação ambígua, pois ao mesmo
tempo que o protege do vínculo o deixa desamparado e sem resposta para a
angústia que mantém guardada em segredo.
Então poderíamos dizer que
estamos no mundo da fantasia. A lei da agência Nacional de Saúde, com aval do
Conselho Federal de Psicologia, faz de conta que protege os direitos dos
pacientes, o convênio faz de conta que cumpre, o psicólogo faz de conta que
trata protegendo-se do seu não saber dizendo: “fazemos o que podemos” e os
pacientes “passam” pelo psicólogo. Alguns
tendo ainda mais reforçadas suas defesas, outros mais prejudicados têm suas
defesas abaladas e seguem ainda mais desestruturados, outros mais defendidos
mantêm-se descrentes nesse tipo de trabalho dizendo “isso não serve para nada”.
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