segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SEXUALIDADE NOS JOVENS



Os rituais de acasalamento no animal garantem a preservação da espécie. O macho mais forte e corajoso será o procriador mais apropriado.  
A sexualidade é parte do ritual de passagem para o mundo dos adultos. Em algumas tribos indígenas, por exemplo, todos se envolvem na passagem, o ritual é bem definido, com tarefas do garoto, reclusão das meninas, dança e reza de toda a tribo. Um processo bem definido que dá referência e suporte para inserção que definirá claramente o papel que desempenhará no mundo adulto a sexualidade é apenas parte do contexto que trata-se do futuro da comunidade. Em uma tribo brasileira por exemplo, o noivo assumirá a responsabilidade de sustentar toda a família da noiva, o patriarca passa seu lugar de provedor a ele.
Hoje o jovem tem dificuldades de encontrar um suporte social para sua passagem. Agrupam-se como podem, definem padrões, modas, comportamentos, gírias, na tentativa de encontrar sua diferenciação, tanto do mundo infantil quanto do adulto dos pais.  No entanto estão apavorados. Faltam-lhe referencias sociais definidas, como do ritual de passagem que lhes sirva de ponte entre o garoto da infância e o adulto que a sociedade espera que ele seja.
 Na nossa sociedade a medida para saber se o jovem pode ascender a condição de adulto é a possibilidade de ter independência emocional e financeira, o que tem demorado muito nas últimas décadas. A sexualidade não pode esperar tanto assim.
Tomados pelas exigências de um corpo invadido pelos hormônios sexuais de um lado e pela pressão das exigências anunciadas pelo mundo adulto sem referências definidas de outro, “você já não é mais uma criancinha” para isso ou ainda “é muito cedo para você fazer ou escolher isso” ele poderá fechar-se ou rebelar-se, ambas reações consideradas normais nessa fase.
Vamos falar um pouco das fases percorridas pelo animal homem até tornar-se adulto.
A sexualidade não aparece de repente ela faz parte de um processo de amadurecimento iniciado na primeira mamada, quando a mãe ao oferecer o seio lhe apresenta a possibilidade de sentir prazer na boca. Esse encontro é o despertar do corpo capaz de desejar na criança.   Vive um idílio de completude com essa mãe que considera parte sua. Aos poucos com a possibilidade de locomover-se e com a exigência de que controle os esfíncteres tem a notícia que  o mundo não lhe pertence, aparecem os ataques de raiva e exigência de retorno a condição anterior. Tenta controlar como pode, temos a fase anal. Por volta dos três anos descobrem o prazer de relacionar-se e com ele as possibilidades de manifestar suas vontades e potência, as rivalidades levam ao prazer da competição, vamos ver quem vai ganhar! Na verdade o que está em jogo é a triangularidade edípica, onde o menino admira e compete com o pai pela mãe e a menina admira e compete com a mãe e deseja o pai. Essa é a fase fálica que estende-se até a entrada da latência aos 6-7anos, um longo período de silêncio importante até o despertar da sexualidade que ficou adormecida.
A adolescência trará todo conflito vivido na infância, mas agora com a força dos hormônios e do lugar de um sujeito capaz de “brigar” com os pais “heróis” poderosos da infância que o frustraram. A adolescência termina quando esses pais deixam de ter a importância vital que tinham na infância, tanto material quanto emocionalmente.
Como podemos perceber a nossa sexualidade é extremamente complexa.

A ausência de rituais que dê referências balizadoras também atinge os pais (não há dança, reza, passagem garantida pelo grupo que apazigue).

1 - Um novo momento para eles também. Inevitavelmente sofrerão com a perda do lugar de “heróis”. São esses pais amados e ainda idealizados que sofrerão o ataque inevitável daqueles que os tinham como heróis.
 A mãe que um dia fora a bela rainha para a menina, se tornará a bruxa má da linda princesa que sofre com os ataques invejosos daquela que quer impedir que ascenda ao lugar junto ao príncipe.
O menino vive na figura do pai a perseguição do capitão gancho com quem luta para mantém e proteger os meninos perdidos na terra do nunca.

2 - Muitas vezes vão se deparar com resinificação da sua própria adolescência, as consequências serão inevitáveis. Não conseguirão dar conta de manter-se no lugar do adulto que limita os ataques sem inibi-los.

Então a angústia de como agir, como transpor esse embate para poder proteger o filho dos riscos a que está exposto, afinal ele está tomado pelos hormônios e por todo conjunto de afetos da relação com os pais da infância e não há ritual que os proteja e encaminhe.

1 - O jovem vai precisar de espaço para se colocar enquanto um sujeito que vai questionar o funcionamento do casal.
A referência do como os pais viveram e vivem as questões amorosas e sexuais serão a princípio o modelo que terá. O amor e a rivalidade infantil agora com a força de um corpo adolescente potente assustam e trazem ambivalência.

2 - Precisa de um pai e uma mãe que não abandone a sua condição de adulto.
Um pai que tenta ser “descolado” provoca desconforto diante dos amigos do filho ao mesmo tempo que o deixa sem com quem brigar.

3 - A menina com corpo de mulher precisa que a mãe suporte ser desbancada do lugar de mãe idealizada da infância da mesma forma que o menino precisa de espaço para poder manifestar sua força e potência diante do pai.

Informar, ensinar, educação sexual?
Nos dias de hoje não faltam informações sobre a sexualidade, seja na escola, no clube, nas redes sociais, na televisão. Então o mito de que os deslizes da adolescência como a gravidez precoce, o fantasma da Aids ou das drogas eram fruto da falta de informação, de que haveria certa “inocência” entre os jovens que os colocava em situações de risco.
Sendo assim, o que pensar, por exemplo, de uma garota que engravida inesperadamente ou mesmo do garoto que a engravidou?
O garoto vê nos envolvimentos sexuais uma possibilidade de manifestar sua potência. Sente-se mal naquele corpo que lhe é um peso desajeitado, o tamanho do pênis passa a ser uma questão assim como o tamanho da coleção de meninas conquistadas.  
A competição entre os garotos sobre a virilidade e capacidade de relacionar-se sexualmente faz parte de uma busca de auto afirmação que esconde a insegurança e dúvidas em relação a sua capacidade de exercer o papel de homem e o medo de se apaixonar e deixar definitivamente o mundo infantil.
Não é no discurso do pai, como se imagina, no momento do “agora vamos conversar sobre sexo”, que o garoto encontrará espaço para lidar com o fantasma do fracasso de sua investida como “macho”.
O que vai contar são as atitudes desse pai diante da sua própria condição masculina do como transmite em atos as formas como lidou e lida com seus próprios fantasmas, em relação a vida amorosa e sexual.
Esse garoto precisa encontrar nessa relação um “capitão” não como o capitão gancho, que é solitário e infeliz e inveja a capacidade de voar (“fantasiar”) do garoto, mas um capitão que tem prazer com sua própria vida e potência principalmente porque já navegou muito e sabe do prazer de ancorar numa relação amorosa, e exatamente por isso pode suportar ver esse garoto rebelar-se para tornar-se um homem melhor que ele. 
Para tanto a mãe ao ver seu garoto com corpo que caminha para a puberdade, precisará abrir mão do seu garotinho, para autorizá-lo a buscar o carinho de outra mulher. Nada fácil levando em conta que a capacidade de sedução de uma mãe sobre o filho é incontestável.
Engravidar uma garota será portanto ao mesmo tempo um ato de rebeldia e de saída para o conflito com os pais. Nesse momento, tornar-se pai tão precocemente será um jeito de pular etapas importantes, talvez porque elas estavam intransponíveis.
A menina diferente do menino, muito cedo reconhece seus atributos sexuais. Para ela atrair a atenção dos garotos faz parte do jogo de sedução para mantê-la na posição de forte competidora da mãe, seu corpo pede mais que o corpo de um homem, pede a admiração de todos, meninos e meninas.
Impossível para uma mãe que tem seus atributos femininos abalados ter que se deparar com essa provocação de sua capacidade diante daquele corpo jovem e sedutor. 
Serão as suas vivências satisfatórias amorosas e sexuais que poderão lhe dar suporte nesse momento, para que permita que a filha se aproxime mesmo que através da provocação e rebeldia.
O pai por outro lado perderá o poder sobre a filha, outros machos da espécie estão por perto. Como manter os limites necessários que são cuidados imprescindíveis para a adolescente, sem abusar da autoridade aprisionando a garota, assim como uma princesa na torre? pode acreditar que ela arrumará um jeito para que seu príncipe a resgate, a gravidez seria uma saída destas.
Abrir mão da sua garotinha para outro homem, será um divisor de aguas em sua vida. A dura experiência de reconhecer como ato de amor pela filha, deixa-la viver sua condição de mulher desejante, trará a possibilidade de revisar o como vivi e vem vivendo sua condição de homem desejante com sua mulher.
Temos então de um lado um garoto e uma garota tomados pela força dos hormônios, mas sem a menor condição de administrá-los, ao mesmo tempo em que precisa encontrar uma forma de satisfaze-los não encontrará saídas fáceis para seu conflito.
De outro temos pais sobrecarregados e muitas vezes culpabilizados, O importante não é a harmonia.

 Na adolescência, todos na família estarão vivendo um momento de crise.



Reflexões

1 - A sexualidade faz parte do amadurecimento psíquico, as perguntas virão em todas as idades, as respostas devem se limitar ao que foi perguntado, com clareza e se possível incluindo-se nas respostas. Como: Eu também na sua idade tinha estas dúvidas ou coisa assim.

2 - 
O grupo é uma forma de encontrar seus iguais, nas dúvidas nas tristezas inevitáveis da idade. Mas pode também ser uma fuga do contato com os problemas quando não existir espaço para a crise na família. Neste caso tomar a coragem de falar do desencontro que estão vivendo dentro de casa e do quanto estão sofrendo pode ser uma saída. Outra forma é encontrar espaço para conversar sobre os amigos deles, o jovem as vezes tem necessidade de ficar fora para manter sua diferenciação dos pais.

3 - A autoridade só se dá pelo respeito. Respeito ao momento, ao silêncio. Perceber que algo vai mal no jovem em relação a sua vida sexual, não é o suficiente para interroga-lo. Será preciso que os pais se abram primeiro em relação a suas próprias preocupações em relação ao momento, referindo-se a sua própria adolescência ou história.

4 - 
As regras devem ser poucas, coerentes e fixas. Elas são fundamentais para dar segurança ao jovem. Por exemplo, trazer a namorada ou namorado para 
dormir em casa. É preciso pensar muito sobre essa autorização. Levar em conta que estão em momento de experimentação.
Claro que os pais preferem que os filhos estejam em casa, seria mais seguro, mas as consequências têm que serem refletidas, os limites não devem servir para facilitar a vida dos pais, mas sim para cuidar e proteger o filho.
Penso que com a facilidade de trazer para dentro de seu quarto o parceiro sexual, infantiliza a relação sexual, colocando-a como um brinquedo a mais que se levou para o quarto do filho.
As consequências serão o prolongamento da adolescência, afinal pra que sair de casa?






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