Os rituais de acasalamento no
animal garantem a preservação da espécie. O macho mais forte e corajoso será o
procriador mais apropriado.
A
sexualidade é parte do ritual de passagem para o mundo dos adultos. Em algumas
tribos indígenas, por exemplo, todos se envolvem na passagem, o ritual é bem
definido, com tarefas do garoto, reclusão das meninas, dança e reza de toda a
tribo. Um processo bem definido que dá referência e suporte para inserção que
definirá claramente o papel que desempenhará no mundo adulto a sexualidade é
apenas parte do contexto que trata-se do futuro da comunidade. Em uma tribo
brasileira por exemplo, o noivo assumirá a responsabilidade de sustentar toda a
família da noiva, o patriarca passa seu lugar de provedor a ele.
Hoje
o jovem tem dificuldades de encontrar um suporte social para sua passagem.
Agrupam-se como podem, definem padrões, modas, comportamentos, gírias, na
tentativa de encontrar sua diferenciação, tanto do mundo infantil quanto do
adulto dos pais. No entanto estão
apavorados. Faltam-lhe referencias sociais definidas, como do ritual de
passagem que lhes sirva de ponte entre o garoto da infância e o adulto que a
sociedade espera que ele seja.
Na
nossa sociedade a medida para saber se o jovem pode ascender a condição de
adulto é a possibilidade de ter independência emocional e financeira, o que tem
demorado muito nas últimas décadas. A sexualidade não pode esperar tanto assim.
Tomados pelas exigências de um
corpo invadido pelos hormônios sexuais de um lado e pela pressão das exigências
anunciadas pelo mundo adulto sem referências definidas de outro, “você já não é
mais uma criancinha” para isso ou ainda “é muito cedo para você fazer ou
escolher isso” ele poderá fechar-se ou rebelar-se, ambas reações consideradas
normais nessa fase.
Vamos falar um pouco das fases
percorridas pelo animal homem até tornar-se adulto.
A sexualidade não aparece de
repente ela faz parte de um processo de amadurecimento iniciado na primeira
mamada, quando a mãe ao oferecer o seio lhe apresenta a possibilidade de sentir
prazer na boca. Esse encontro é o despertar do corpo capaz de desejar na
criança. Vive um idílio de completude
com essa mãe que considera parte sua. Aos poucos com a possibilidade de
locomover-se e com a exigência de que controle os esfíncteres tem a notícia que
o mundo não lhe pertence, aparecem os
ataques de raiva e exigência de retorno a condição anterior. Tenta controlar
como pode, temos a fase anal. Por volta dos três anos descobrem o prazer de
relacionar-se e com ele as possibilidades de manifestar suas vontades e
potência, as rivalidades levam ao prazer da competição, vamos ver quem vai
ganhar! Na verdade o que está em jogo é a triangularidade edípica, onde o
menino admira e compete com o pai pela mãe e a menina admira e compete com a
mãe e deseja o pai. Essa é a fase fálica que estende-se até a entrada da
latência aos 6-7anos, um longo período de silêncio importante até o despertar
da sexualidade que ficou adormecida.
A adolescência trará todo
conflito vivido na infância, mas agora com a força dos hormônios e do lugar de
um sujeito capaz de “brigar” com os pais “heróis” poderosos da infância que o
frustraram. A adolescência termina quando esses pais deixam de ter a
importância vital que tinham na infância, tanto material quanto emocionalmente.
Como podemos perceber a nossa sexualidade
é extremamente complexa.
A
ausência de rituais que dê referências balizadoras também atinge os pais
(não há dança, reza, passagem garantida pelo grupo que apazigue).
1 - Um novo momento para eles
também. Inevitavelmente sofrerão com a perda do lugar de “heróis”. São esses
pais amados e ainda idealizados que sofrerão o ataque inevitável daqueles que
os tinham como heróis.
A mãe que um dia fora a bela rainha para a
menina, se tornará a bruxa má da linda princesa que sofre com os ataques
invejosos daquela que quer impedir que ascenda ao lugar junto ao príncipe.
O menino vive na figura do pai
a perseguição do capitão gancho com quem luta para mantém e proteger os meninos
perdidos na terra do nunca.
2 - Muitas vezes vão se
deparar com resinificação da sua própria adolescência, as consequências serão inevitáveis. Não conseguirão dar conta de manter-se no lugar do adulto que limita
os ataques sem inibi-los.
Então
a angústia de como agir, como transpor esse embate para poder proteger o filho
dos riscos a que está exposto, afinal ele está tomado pelos hormônios e por
todo conjunto de afetos da relação com os pais da infância e não há ritual que
os proteja e encaminhe.
1 - O jovem vai precisar de espaço para se
colocar enquanto um sujeito que vai questionar o funcionamento do casal.
A referência do como os pais
viveram e vivem as questões amorosas e sexuais serão a princípio o modelo que
terá. O amor e a rivalidade infantil agora com a força de um corpo adolescente
potente assustam e trazem ambivalência.
2 - Precisa de um pai e uma mãe que não abandone
a sua condição de adulto.
Um pai que tenta ser
“descolado” provoca desconforto diante dos amigos do filho ao mesmo tempo que o
deixa sem com quem brigar.
3 - A menina com corpo de mulher precisa que a
mãe suporte ser desbancada do lugar de mãe idealizada da infância da mesma
forma que o menino precisa de espaço para poder manifestar sua força e potência
diante do pai.
Informar,
ensinar, educação sexual?
Nos dias de hoje não faltam
informações sobre a sexualidade, seja na escola, no clube, nas redes sociais,
na televisão. Então o mito de que os deslizes da adolescência como a gravidez
precoce, o fantasma da Aids ou das drogas eram fruto da falta de informação, de
que haveria certa “inocência” entre os jovens que os colocava em situações de
risco.
Sendo assim, o que pensar, por
exemplo, de uma garota que engravida inesperadamente ou mesmo do garoto que a
engravidou?
O
garoto vê nos envolvimentos sexuais uma possibilidade de manifestar sua
potência. Sente-se mal naquele corpo que lhe é um peso desajeitado, o tamanho
do pênis passa a ser uma questão assim como o tamanho da coleção de meninas
conquistadas.
A competição entre os garotos
sobre a virilidade e capacidade de relacionar-se sexualmente faz parte de uma
busca de auto afirmação que esconde a insegurança e dúvidas em relação a sua
capacidade de exercer o papel de homem e o medo de se apaixonar e deixar
definitivamente o mundo infantil.
Não
é no discurso do pai, como se imagina, no momento do “agora vamos conversar
sobre sexo”, que o garoto encontrará espaço para lidar com o fantasma do
fracasso de sua investida como “macho”.
O que vai contar são as
atitudes desse pai diante da sua própria condição masculina do como transmite
em atos as formas como lidou e lida com seus próprios fantasmas, em relação a
vida amorosa e sexual.
Esse garoto precisa encontrar
nessa relação um “capitão” não como o capitão gancho, que é solitário e infeliz
e inveja a capacidade de voar (“fantasiar”) do garoto, mas um capitão que tem
prazer com sua própria vida e potência principalmente porque já navegou muito e
sabe do prazer de ancorar numa relação amorosa, e exatamente por isso pode
suportar ver esse garoto rebelar-se para tornar-se um homem melhor que ele.
Para tanto a mãe ao ver seu
garoto com corpo que caminha para a puberdade, precisará abrir mão do seu
garotinho, para autorizá-lo a buscar o carinho de outra mulher. Nada fácil
levando em conta que a capacidade de sedução de uma mãe sobre o filho é
incontestável.
Engravidar uma garota será
portanto ao mesmo tempo um ato de rebeldia e de saída para o conflito com os
pais. Nesse momento, tornar-se pai tão precocemente será um jeito de pular
etapas importantes, talvez porque elas estavam intransponíveis.
A
menina diferente do menino, muito cedo reconhece seus atributos sexuais. Para
ela atrair a atenção dos garotos faz parte do jogo de sedução para mantê-la na
posição de forte competidora da mãe, seu corpo pede mais que o corpo de um
homem, pede a admiração de todos, meninos e meninas.
Impossível para uma mãe que
tem seus atributos femininos abalados ter que se deparar com essa provocação de
sua capacidade diante daquele corpo jovem e sedutor.
Serão as suas vivências
satisfatórias amorosas e sexuais que poderão lhe dar suporte nesse momento,
para que permita que a filha se aproxime mesmo que através da provocação e
rebeldia.
O pai por outro lado perderá o
poder sobre a filha, outros machos da espécie estão por perto. Como manter os
limites necessários que são cuidados imprescindíveis para a adolescente, sem
abusar da autoridade aprisionando a garota, assim como uma princesa na torre?
pode acreditar que ela arrumará um jeito para que seu príncipe a resgate, a gravidez
seria uma saída destas.
Abrir
mão da sua garotinha para outro homem, será um divisor de aguas em sua vida. A
dura experiência de reconhecer como ato de amor pela filha, deixa-la viver sua
condição de mulher desejante, trará a possibilidade de revisar o como vivi e
vem vivendo sua condição de homem desejante com sua mulher.
Temos então de um lado um
garoto e uma garota tomados pela força dos hormônios, mas sem a menor condição
de administrá-los, ao mesmo tempo em que precisa encontrar uma forma de satisfaze-los
não encontrará saídas fáceis para seu conflito.
De outro temos pais
sobrecarregados e muitas vezes culpabilizados, O importante não é a harmonia.
Na adolescência, todos na família estarão vivendo um momento de crise.
Reflexões
1 - A sexualidade faz
parte do amadurecimento psíquico, as perguntas virão em todas as idades, as
respostas devem se limitar ao que foi perguntado, com clareza e se possível
incluindo-se nas respostas. Como: Eu também na sua idade tinha estas dúvidas ou
coisa assim.
2 - O grupo é uma forma de encontrar seus iguais, nas dúvidas nas tristezas inevitáveis da idade. Mas pode também ser uma fuga do contato com os problemas quando não existir espaço para a crise na família. Neste caso tomar a coragem de falar do desencontro que estão vivendo dentro de casa e do quanto estão sofrendo pode ser uma saída. Outra forma é encontrar espaço para conversar sobre os amigos deles, o jovem as vezes tem necessidade de ficar fora para manter sua diferenciação dos pais.
3 - A autoridade só se
dá pelo respeito. Respeito ao momento, ao silêncio. Perceber que algo vai mal
no jovem em relação a sua vida sexual, não é o suficiente para interroga-lo.
Será preciso que os pais se abram primeiro em relação a suas próprias
preocupações em relação ao momento, referindo-se a sua própria adolescência ou
história.
4 - As regras devem ser poucas, coerentes e fixas. Elas são fundamentais para dar segurança ao jovem. Por exemplo, trazer a namorada ou namorado para
dormir
em casa. É preciso pensar muito sobre essa autorização. Levar em conta que
estão em momento de experimentação.
Claro que os pais preferem que
os filhos estejam em casa, seria mais seguro, mas as consequências têm que
serem refletidas, os limites não devem servir para facilitar a vida dos pais,
mas sim para cuidar e proteger o filho.
Penso que com a facilidade de
trazer para dentro de seu quarto o parceiro sexual, infantiliza a relação
sexual, colocando-a como um brinquedo a mais que se levou para o quarto do
filho.
As consequências serão o
prolongamento da adolescência, afinal pra que sair de casa?
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