Se retornássemos, em uma
viagem imaginária, ao princípio do desenvolvimento da humanidade, talvez
encontrássemos o “bicho homem” em sofrimento, ameaçado por estar imerso num
mundo desconhecido e ameaçador.
Os enigmas pessoais são na
verdade os responsáveis pelo sofrimento humano desde nossos primórdios. S.
Freud postula que:
“O sofrimento nos ameaça a partir de três
direções: de nosso próprio corpo, condenado a decadência e a dissolução, e que
nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência;
do mundo externo que podem voltar-se contra nós com força de destruição
esmagadora e impiedosa; e finalmente de nossos relacionamentos com os outros
homens”.
Esta inquietação, funcionou
como um motor em direção à busca, no mundo, da raiz de nossas dores, na
esperança de encontrarmos um bálsamo que nos alivie.
No entanto, a fragilidade
humana diante da vida, a triste certeza da morte, a imprevisibilidade dos
acontecimentos e dos relacionamentos, apesar das grandes evoluções, ainda fazem
parte dos fantasmas, amalgamados a humanidade. Fantasmas esses, que durante
séculos foram alvo de várias formas de “exorciza-los”.
Uma delas foi a busca do
conhecimento, que fortalece o homem por dar a sensação de controle e desvendamento,
através da construção de instrumentos, ferramentas e saberes.
Assim, ao voltar-se para o
mundo externo o homem se depara com um desconhecimento ameaçador, mas
instigante, e então, de pé, passa a olhar para o horizonte e a caminhar em
busca de respostas. Surgem novos conhecimentos, os mitos a filosofia e a
ciência, como forma de clarear questões e sentimentos enigmáticos.
Os mitos tentam dar conta
magicamente dos acontecimentos inexplicáveis criando um certo conforto mágico
de que estava tudo em perfeita ordem. No entanto, a angústia e a inquietação se
mantiveram, abrindo espaço para a pesquisa filosófica, científica e
tecnológica. Quanto mais o homem avança, mais se afasta dos mitos e se aproxima
da ciência.
A psicologia é filha da
filosofia, e empenha-se em entender o funcionamento mental, a princípio, uma
espécie de pesquisa exploratória em busca de respostas às questões
existenciais, ligadas aos segredos da alma.
O homem foi à lua, pôs seus
olhos na terra onde vive, em suas cores em sua forma na sua dimensão, na sua
insignificância diante do universo. Conheceu os segredos da física, da química
e da biologia, e do seu potencial criador tanto quanto destruidor. Descobriu
formas de imitar a natureza, construiu, destruiu. Cada vez mais se aproximou
dos enigmas que o atormentavam desde o princípio. Dentre eles o enigma de sua
própria existência enquanto sujeito, um novo conhecimento, o inconsciente,
tanto trouxe respostas quanto insegurança, diante da constatação que não tem
domínio nem sobre si mesmo.
Diferente do que o “bicho homem”
buscava (o controle e poder sobre tudo que o ameaçava), essas descobertas
revelaram sua triste condição de sujeito a-sujeitado a sua condição de submissão
aos limites, seja em relação ao mundo externo, a natureza, ao seu próprio
corpo, submetido ao fim, e a si próprio. No entanto, o mais desconcertante são
as suas limitações e dificuldades na relação com os outros.
O desenvolvimento tecnológico
trouxe recursos fundamentais, na área da comunicação, ou seja, para facilitação
dos contatos entre nós humanos. Hoje é possível acessar alguém no outro lado do
mundo, quando há apenas um século, era preciso esperar um longo tempo para que
uma correspondência chegasse. As informações sobre os acontecimentos, quase que
in loco, nos deram a oportunidade de ampliar conhecimento acerca de outras
realidades, tanto sociais quanto pessoais.
No entanto, penso que
fracassamos, ao tentar superar a nossa inabilidade diante das relações
humanas. Paradoxalmente, com tanta
informação acerca do outro, nunca estivemos tão solitários e isolados em nosso
próprio mundo.
Temos os instrumentos para nos
aproximarmos uns dos outros, mas ao que parece, isso trouxe uma espécie de
reação defensiva. O mundo virtual, passou a ser usado não como forma de criar
recursos relacionais, mas ao contrário, hoje serve ao isolamento e a construção
de uma sociedade de ermitões. Cada um protegido em sua caverna, simula um mundo
de relacionamentos, apoiados na construção de fantasias feitas para sustentar
outras fantasias, criando um mundo de faz de conta, onde tudo é uma simulação
de um mundo idealizado.
Estar com o outro, não é
fácil, e se não nos damos a oportunidade de enfrentar o impasse, entre querer
estar junto e querer estar protegido, nos tornamos cada vez mais inábil, caímos
em um círculo vicioso, onde o medo passa a ser o senhor da situação.
Construímos um grande arsenal
para nos aproximarmos enquanto sujeitos, falhos e incompletos que somos, mas o
utilizamos como armadura para que ninguém nos encontre em nossas faltas,
falhas, limites e necessidades. Não é difícil ver isso no dia a dia, mas são as
festas em família, as mais reveladoras dessa grande legião de ermitões que nos
tornamos.
Há pouco tempo, as pessoas
mais velhas de uma família, não deixavam espaço de questionamento, para que a
reunião nos dias marcantes de sua história, todos se reunissem. Era uma
prática, onde não havia muito lugar para questionamento, e apesar do
desconforto, esse momento marcava tanto as diferenças entre seus membros, quanto
as similaridades, logo são nessas oportunidades que os conflitos familiares
surgem com toda força, vejam o filme “Álbum de família”, e logo dá para se
precipitar dizendo: não quero isso! Que horror!
E é mesmo!
Mas, relacionar-se é condição
de sobrevivência humana, portanto não é escolha, como Piera Aulagnier diz, em
seu texto “Condenado a investir”:
“Para se preservar vivo, está
condenado a preservar uma relação de investimento com seu próprio corpo, com o
Eu desses outros cujo desejo se revela sempre autônomo e por vezes antinômico
ao seu próprio, com essa realidade que nunca estará totalmente em conformidade
com a representação que ele almejava se dar dela”.
O contato com o outro, nos dá
a oportunidade de investir energia psíquica, condição necessária para que a
vida continue, para que não nos asfixiamos em nós mesmos. No entanto, o contato
com o outro, que na verdade é imaginário, nos coloca diante do teste da
realidade, de nosso próprio modo de existir, de nossos próprios contornos. Nada
fácil, como segue Piera:
“Esse corpo, esse outro
investido por ele, essa realidade, serão periódica e inevitavelmente fontes de
sofrimento, provocando por isso um movimento de desinvestimento, um desejo de
fuga”.
Dessa forma, podemos responder
com clareza, porque as inovações nos meios de comunicação, trouxeram mais
distanciamento entre as pessoas. Os novos instrumentos tecnológicos, na
verdade, possibilitam o escoamento de energia de forma virtual, dando a
impressão que pudemos nos relacionar sem nos expor, e, portanto, sem nos ferir
ou ferir o outro. Como se estivéssemos protegidos do teste da realidade tanto
interna quanto externa, sem deixar de viver.
A questão é que como o
escoamento é virtual, passa-se a viver sob ameaça da chegada do teste da
realidade, nesse caso a constatação de que não houve escoamento algum, de que foi
tudo espuma.
A vida, a relação com o outro, passa a ser o
mal a ser evitado, pois denuncia o quanto estamos equivocados em relação a nós
mesmos e o mundo. Dentro de nossas cavernas virtuais, sonhamos com um mundo que
não existe, tanto interno quanto externo, mas internamente sofremos com o
pânico do retorno do mal que deixamos fora da caverna.
