quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CAVERNAS VIRTUAIS



Se retornássemos, em uma viagem imaginária, ao princípio do desenvolvimento da humanidade, talvez encontrássemos o “bicho homem” em sofrimento, ameaçado por estar imerso num mundo desconhecido e ameaçador.

Os enigmas pessoais são na verdade os responsáveis pelo sofrimento humano desde nossos primórdios. S. Freud postula que:

 “O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado a decadência e a dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo que podem voltar-se contra nós com força de destruição esmagadora e impiedosa; e finalmente de nossos relacionamentos com os outros homens”.

Esta inquietação, funcionou como um motor em direção à busca, no mundo, da raiz de nossas dores, na esperança de encontrarmos um bálsamo que nos alivie.

No entanto, a fragilidade humana diante da vida, a triste certeza da morte, a imprevisibilidade dos acontecimentos e dos relacionamentos, apesar das grandes evoluções, ainda fazem parte dos fantasmas, amalgamados a humanidade. Fantasmas esses, que durante séculos foram alvo de várias formas de “exorciza-los”.
 
Uma delas foi a busca do conhecimento, que fortalece o homem por dar a sensação de controle e desvendamento, através da construção de instrumentos, ferramentas e saberes.
Assim, ao voltar-se para o mundo externo o homem se depara com um desconhecimento ameaçador, mas instigante, e então, de pé, passa a olhar para o horizonte e a caminhar em busca de respostas. Surgem novos conhecimentos, os mitos a filosofia e a ciência, como forma de clarear questões e sentimentos enigmáticos.

Os mitos tentam dar conta magicamente dos acontecimentos inexplicáveis criando um certo conforto mágico de que estava tudo em perfeita ordem. No entanto, a angústia e a inquietação se mantiveram, abrindo espaço para a pesquisa filosófica, científica e tecnológica. Quanto mais o homem avança, mais se afasta dos mitos e se aproxima da ciência.

A psicologia é filha da filosofia, e empenha-se em entender o funcionamento mental, a princípio, uma espécie de pesquisa exploratória em busca de respostas às questões existenciais, ligadas aos segredos da alma. 

O homem foi à lua, pôs seus olhos na terra onde vive, em suas cores em sua forma na sua dimensão, na sua insignificância diante do universo. Conheceu os segredos da física, da química e da biologia, e do seu potencial criador tanto quanto destruidor. Descobriu formas de imitar a natureza, construiu, destruiu. Cada vez mais se aproximou dos enigmas que o atormentavam desde o princípio. Dentre eles o enigma de sua própria existência enquanto sujeito, um novo conhecimento, o inconsciente, tanto trouxe respostas quanto insegurança, diante da constatação que não tem domínio nem sobre si mesmo.

Diferente do que o “bicho homem” buscava (o controle e poder sobre tudo que o ameaçava), essas descobertas revelaram sua triste condição de sujeito a-sujeitado a sua condição de submissão aos limites, seja em relação ao mundo externo, a natureza, ao seu próprio corpo, submetido ao fim, e a si próprio. No entanto, o mais desconcertante são as suas limitações e dificuldades na relação com os outros.

O desenvolvimento tecnológico trouxe recursos fundamentais, na área da comunicação, ou seja, para facilitação dos contatos entre nós humanos. Hoje é possível acessar alguém no outro lado do mundo, quando há apenas um século, era preciso esperar um longo tempo para que uma correspondência chegasse. As informações sobre os acontecimentos, quase que in loco, nos deram a oportunidade de ampliar conhecimento acerca de outras realidades, tanto sociais quanto pessoais.

No entanto, penso que fracassamos, ao tentar superar a nossa inabilidade diante das relações humanas.  Paradoxalmente, com tanta informação acerca do outro, nunca estivemos tão solitários e isolados em nosso próprio mundo.

Temos os instrumentos para nos aproximarmos uns dos outros, mas ao que parece, isso trouxe uma espécie de reação defensiva. O mundo virtual, passou a ser usado não como forma de criar recursos relacionais, mas ao contrário, hoje serve ao isolamento e a construção de uma sociedade de ermitões. Cada um protegido em sua caverna, simula um mundo de relacionamentos, apoiados na construção de fantasias feitas para sustentar outras fantasias, criando um mundo de faz de conta, onde tudo é uma simulação de um mundo idealizado.

Estar com o outro, não é fácil, e se não nos damos a oportunidade de enfrentar o impasse, entre querer estar junto e querer estar protegido, nos tornamos cada vez mais inábil, caímos em um círculo vicioso, onde o medo passa a ser o senhor da situação.

Construímos um grande arsenal para nos aproximarmos enquanto sujeitos, falhos e incompletos que somos, mas o utilizamos como armadura para que ninguém nos encontre em nossas faltas, falhas, limites e necessidades. Não é difícil ver isso no dia a dia, mas são as festas em família, as mais reveladoras dessa grande legião de ermitões que nos tornamos.

Há pouco tempo, as pessoas mais velhas de uma família, não deixavam espaço de questionamento, para que a reunião nos dias marcantes de sua história, todos se reunissem. Era uma prática, onde não havia muito lugar para questionamento, e apesar do desconforto, esse momento marcava tanto as diferenças entre seus membros, quanto as similaridades, logo são nessas oportunidades que os conflitos familiares surgem com toda força, vejam o filme “Álbum de família”, e logo dá para se precipitar dizendo: não quero isso! Que horror!

E é mesmo!

Mas, relacionar-se é condição de sobrevivência humana, portanto não é escolha, como Piera Aulagnier diz, em seu texto “Condenado a investir”:

“Para se preservar vivo, está condenado a preservar uma relação de investimento com seu próprio corpo, com o Eu desses outros cujo desejo se revela sempre autônomo e por vezes antinômico ao seu próprio, com essa realidade que nunca estará totalmente em conformidade com a representação que ele almejava se dar dela”.

O contato com o outro, nos dá a oportunidade de investir energia psíquica, condição necessária para que a vida continue, para que não nos asfixiamos em nós mesmos. No entanto, o contato com o outro, que na verdade é imaginário, nos coloca diante do teste da realidade, de nosso próprio modo de existir, de nossos próprios contornos. Nada fácil, como segue Piera:

“Esse corpo, esse outro investido por ele, essa realidade, serão periódica e inevitavelmente fontes de sofrimento, provocando por isso um movimento de desinvestimento, um desejo de fuga”.

Dessa forma, podemos responder com clareza, porque as inovações nos meios de comunicação, trouxeram mais distanciamento entre as pessoas. Os novos instrumentos tecnológicos, na verdade, possibilitam o escoamento de energia de forma virtual, dando a impressão que pudemos nos relacionar sem nos expor, e, portanto, sem nos ferir ou ferir o outro. Como se estivéssemos protegidos do teste da realidade tanto interna quanto externa, sem deixar de viver.

A questão é que como o escoamento é virtual, passa-se a viver sob ameaça da chegada do teste da realidade, nesse caso a constatação de que não houve escoamento algum, de que foi tudo espuma.

 A vida, a relação com o outro, passa a ser o mal a ser evitado, pois denuncia o quanto estamos equivocados em relação a nós mesmos e o mundo. Dentro de nossas cavernas virtuais, sonhamos com um mundo que não existe, tanto interno quanto externo, mas internamente sofremos com o pânico do retorno do mal que deixamos fora da caverna. 


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