terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Escrever ... uma verdadeira higiene...

De onde vem a capacidade criativa de nós seres humanos tão subjugados a imensidão de forças intimidadoras, tanto internas quanto externas?
O mundo, tanto o interno quanto externo, onde vivemos, nos imprime um estilo de vida por vezes perversor de nossos próprios e caros desejos e princípios.
Uma simples saída de casa, em um dia qualquer da semana, nos conduz a uma infinidade de sinais que apontam para assustadoras contradições.  Estranhamente nos advertem, por exemplo, que a gentileza atrapalha.
A paciência é rara entre os viventes na cidade grande. A pressa atropela os momentos de possível encontro entre mortais, exigindo rapidez e precisão de movimentos.
 As forças intimidadoras advindas do mundo interno, também não nos são menos difíceis de serem administradas. O complexo processo de nos tornarmos humanos mantém aprisionado grande parte de nossa energia psíquica, hoje sabemos que a angustia e ansiedade são inerentes a condição humana.
Um paradoxo velho conhecido: nas dificuldades e grandes tormentos, a capacidade criativa se manifesta como grande recurso de sobrevivência e esperança, como aposta na vida.  Na eminência de sucumbir, duas respostas são possíveis a de Thanatos (pulsão de morte) e a de Eros (pulsão de vida). Quando Eros surge, a criatividade aparece como recurso de saída e continuidade da vida. Como diz a música “Uma bomba sobre o Japão fez nascer um Japão de paz...”
O analista entrega grande parte de sua vida na escuta a um outro empenhado em abdicar de suas próprias questões, julgamentos e até mesmo crenças. Poderíamos dizer que essa entrega, esse empréstimo, vai na contramão da manifestação criativa do sujeito. No entanto, acontece exatamente o contrário.  
Ao mantermos em suspenso nossa condição de sujeito desejante, para abrir espaço para a associação livre e consequente ação da “função analítica”, de certa forma entramos em contato, sem perceber, com um mundo desconhecido, por vezes caótico, nesta intersecção que impulsiona e exige uma saída criativa.
J.D.Nasio em “A criança magnífica da psicanálise” diz que o psicanalista escreve por higiene.
Depois de trinta e seis anos ouvindo, ano após ano tantas histórias incríveis e únicas em meu divã, constato que todas elas foram capazes de me fazer rever essa minha escolha atualizando-a a cada dia.
Ao reconhecer que a necessidade de cuidar de minhas questões, em análise e das questões de meus pacientes em supervisão e estudo, não são suficientes para aliviar a carga afetiva inerente à relação analítica, então eu escrevo!
Escrever, nesse caso, é criar, é materializar a partir do inominável o que jamais seria capaz de ser descrito.
Essas reflexões e contos, registradas aqui, e nos meus livros e artigos, não são histórias que ouvi dos meus pacientes no meu divã, são histórias que criei para dar palavra para os personagens fictícios paridos a partir do encontro dos meus conteúdos mais secretos com a minha prática analítica.
São histórias que carregam e fazem circular emoções e sentimentos experimentados ao longo de uma vida, vivencias verídicas ou não, aconchegadas em algum lugar secreto do meu ser que encontram na criação de um personagem a possibilidade de ganhar o mundo.
Uma verdadeira “higiene”....


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016


Resultado de imagem para renas de natal

PAPAI NOEL EXISTE 

                Bom dia Dona Joana? Como tem passado? Como vão as crianças?
                Ah Dona Lurdes as coisas não andam nada boas aqui em casa, sempre estamos as voltas com a falta de dinheiro. Sabe como é vida de pobre, nossa alegria é a chegada do maior presente do mundo, nossos filhos, mas por ironia do destino eles passam a ser a maior causa de insônia e dor de cabeça, como dar conta de tudo que eles precisam?
                É mesmo Dona Joana, mas vejo que a senhora está grávida de novo, é o sétimo, não é?
                É sim, mais um para nos trazer alegria e preocupações, é a vida, Dona Lurdes, é a vida! Quando eu era mocinha, sonhava com uma família, mas não imaginava o que isso significaria.
                De repente um bebê chora e reclama a mãe, Joana pede à filha mais velha Marta para que veja o que está acontecendo com o caçula da casa. Mãe, diz ela, ele acordou, acho que está com fome. 
                - Então vá preparar a mamadeira dele – grita Joana.
                São dias árduos para Marta, desde pequena viveu em meio as dificuldades e conflitos dos pais que se estendiam a ela e seus irmãos. Quando o cobertor é pequeno cada um se ocupa mais ferozmente de manter-se aquecido, vale tudo, atacar, culpar e humilhar, as dificuldades financeiras são tantas que invadem as relações afetivas.
                Na falta aparece o lado ruim das pessoas, pensa Marta, concluindo que na abundância viveriam apenas o lado bom de todos. Na televisão todos parecem tão felizes com o que consomem, deve ser essa a fórmula da felicidade, filosofa Marta do alto de seus nove anos.
                Como primogênita tem certa autoridade sobre os irmãos o que significa desfrutar de algumas regalias com os pais, afinal divide as responsabilidades com eles, mas não pode relaxar, brincar…mas pode sonhar.... Aliás fantasiar é seu refúgio secreto, onde as coisas boas acontecem... Mas Marta tem apenas um único sonho: encontrar um tesouro no quintal da casa onde moram e enfim trazer algum equilíbrio e conseqüente felicidade para todos.
                Depois de mais um ano difícil com o nascimento de mais um irmão e aumento de todos os conflitos e afazeres domésticos que sobrecarregam Marta, é chegada a véspera de Natal. Desde o começo do mês de dezembro seus irmãos, começaram a fazer os pedidos para o Papai Noel. Marta, sorri internamente pensando no quanto eles são tolos e ela esperta.
                - Será que não percebem ou não querem perceber que essa história é para enganar as crianças?   Ah se você não for bonzinho, ou não tirar boas notas não vai ganhar presente do Papai Noel. Ruminava ela com sarcasmo e certa prepotência.
                Marta já não fazia cartinhas desse tipo há muito tempo, considerava-se acima de todos, muito mais evoluída e adulta que os babacas dos seus irmãos. Todos acordaram felizes e esperançosos de receber os presentes, diferente dela que tinha uma informação preciosa que a protegia da frustração; sabia que o ano tinha sido muito difícil e que os pais não dariam, novamente o que pediram. Senta-se diante da Televisão e encanta-se com tantas ofertas de felicidade. O telefone toca, a mãe grita para que ela atenda.
                – Alô quem fala? Do outro lado da linha ouve um oh oh oh eu sou o Papai Noel, quem está falando é a Marta? Sou eu mesma, como você sabe o meu nome? Vou desligar, que trote bobo você está passando, nem criancinha de cinco anos acreditaria que o papai Noel ligaria para ela na véspera de natal... essas crianças pequenas acham que ele está ocupado preparando os presentes para entregar a noite.  
                - Mas estou mesmo preparando os presentes e percebi que esse ano novamente você não fez sua cartinha para mim... retruca alegremente a voz do outro lado.
                - Me poupe, seja lá quem você for, tenho mais o que fazer do que dar ouvidos a quem quer me fazer de idiota, vou desligar. Retruca Marta irritada.
                - Não desligue, me conta porque você não acredita mais em mim? Apela a voz no telefone.
                - Pare com isso.  Gritou ela, desligando o telefone e voltando a ver a Televisão. Respira aliviada por ter resolvido o assunto sozinha quando um homem barbudo como o papai Noel aparece na tela e pergunta: - Por que você desligou o telefone? Assustada Marta, cobre o rosto. Ele continua a falar, - Meninas como você Marta não conhecem a magia da infância, Ela estava com o controle remoto na mão e rapidamente desligou a TV.
                  – Ufa... que loucura, acha que não estou batendo bem da cabeça, sussurrou ela. Levantou-se do sofá e quando estava indo para a cozinha ouviu a campainha de sua casa tocar. A mãe grita lá do quarto para que ela atenda a porta. Olha pelo olho mágico e lá está o mesmo homem da TV. Meu Deus, pensa ela, eu enlouqueci mesmo e desesperada pede para ele ir embora. Ele diz: não se assuste eu faço parte de um dos sonhos que você insiste em não sonhar. – Como assim? Pergunta Marta.
                Ele responde agora aliviado por ter a oportunidade de falar com Marta e calmamente lhe explica.  Todos nós somos dotados de uma capacidade de fantasiar, sonhar, algumas vezes nos perdemos nesses devaneios, mas eles são poderosas fontes de vida. Tenho percebido que você não sabe sonhar, não utiliza desse mundo maravilhoso que tem aí dentro e acaba sendo essa menina chata e pedante que é.
                Tomada de furor Marta grita, dizendo que ele não sabe de nada que ele nem existe. Ele retruca: - e você existe? Olha para você, vive como uma máquina, cumpre tarefas, assiste televisão, se impõe para seus irmãos e colegas, não sabe brincar nem sonhar, isso é existir? E ainda por cima não me dá a menor chance de torná-la mais doce.
                - Ah você se acha espertinho, claro que sonho e se você realmente me conhecesse saberia disso.
                - Do que você está falando??? Daquela besteira de encontrar tesouro e resolver o problema de todos? Ah Marta, me desculpe, mas você é uma menina muito ignorante neste assunto. Isso não é sonhar isso é tentar resolver o problema de todos como você sempre acha que tem que fazer.
                De repente Marta se dá conta que não sabe do que ele está dizendo, aliás que não sabe mesmo nada de si mesma. Esteve tão ocupada pelos gritos e pedidos de todos que nem percebeu que estava se deixando de lado, ele tinha razão, isso era existir? Mas ela não se entregaria tão fácil assim aos argumentos daquele velho desconhecido. Questiona-o então: Olha você, digamos que seja o papai Noel, o que você faz não é muito diferente do que eu. Vive o tempo todo preparando presentinhos para iludir as criancinhas de que a vida é bela, isso é existir? Você não passa de um velho que quer aparecer para se reafirmar porque na verdade não existe.
                Então é assim que você trata seus sonhos e esperanças? Pergunta com voz entristecida, o senhor do outro lado da porta, destitui-os de valor como faz com todo mundo que demonstra sentimento?
                 Quando uma criança, como teus irmãos e amigos, sonha com o Natal não é o presente que importa, mas o poder acreditar que alguém pode ouvir seus desejos, mais que isso é considerar que os próprios desejos são importantes. O Natal não é apenas a chegada do Papai Noel, na verdade ele simboliza a esperança como um presente que vem dos céus como a estrela de David, nos indicando que viver vale a pena se pudermos acreditar e valorizar o que os outros sentem e o que sentimos, por mais difícil que seja.
                Marta, eu sou construído a partir dos desejos e esperanças das crianças que como você tem um longo e penoso caminho pela frente, afinal viver não é fácil para ninguém. Assim como minhas renas, vocês crianças, crescidas ou não, me conduzem no trenó mágico da imaginação, os presentes podem não chegar, mas a esperança e crença na vida estarão sempre presentes se a porta do coração de cada uma de vocês estiver aberta.
                 Abra a porta Marta e permita que eu e você enfim possamos existir, assim viver será mais que uma tarefa, será sempre um presente mágico vindo dos céus.
    

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SUSTO



Nós humanos precisamos nos sentir seguros, afinal a vida oferece tantos perigos...

De dentro, produtos dos fantasmas ameaçadores criados por nós...

De fora, vindo dos céus, impostos pelas inevitáveis circunstancias da vida a que todos estamos sujeitos...

Perigos reais,  ou imaginários, não importa, todos são vividos ou temidos, e apavoram tanto que mal podem ser tocados...

Para tanto tumulto, tormento e barulho assustador, avassalador, é preciso se prevenir, se proteger, criar artifícios reais ou imaginários que limitem os riscos, e que nos dê a sensação de segurança, estabilidade e constância. Tipo o “tudo bem não foi nada” da mãe quando a criança chora depois de um tombo.


O efeito colateral dessa manobra, é que essa formula, não dá a menor noção de que monstros enfrentamos, afinal mal podemos suportar deixá-lo em nós para dimensionar o tamanho do perigo. Como a mãe que não olha os joelhos do garoto, sacode rapidamente com tapinhas por cima das calças evita-se ver o machucado, mas ele continua sangrando.

Quando estamos diante de nossas angústias e temores, quase sempre, reveladores de nossos limites e de nossa finitude, também damos alguns tapinhas. Compramos, comemos planejamos alguma coisa.  Nos esquivamos, dizendo que não é nada, mas por dentro sentimos o risco e em algum lugar, sabemos que levantamos muralhas, alicerces, redomas protetoras, para não sermos atingidos pelo que inevitavelmente já nos atingiu. 

O sucesso a comemoração, nem sempre são pelo bem conquistado, mas por ter conseguido se esquivar da certeza da dor inevitável que a vida nos impõe. 

Outra manobra as vezes parece um paradoxo. Ao mesmo tempo que pulsamos e insistimos em sobreviver à morte, flertamos com ela, nos colocamos em situações de risco, numa tentativa louca de romper o limite da vida, para assim ter a sensação de controle sobre o incontrolável fluxo da vida.


Quando diante da morte de um bebê que acabou de nascer, da morte de uma jovem mãe, ou de um time inteiro de jogadores, nos perguntamos como a vida pode terminar para  quem teria tantos capítulos a escrever?

Notícias como essas, acordam nossos fantasmas, que zelosamente mantemos protegidos, pois retiram o cobertor que encobre a nossa ignorância angustiante diante da morte, nos levado a sentir na pele, ao mesmo tempo, a fragilidade e a importância de cada minuto do nosso pulsar.