
PAPAI NOEL EXISTE
Bom dia Dona Joana? Como tem passado? Como vão as
crianças?
Ah Dona Lurdes as coisas não andam nada boas aqui em
casa, sempre estamos as voltas com a falta de dinheiro. Sabe como é vida de
pobre, nossa alegria é a chegada do maior presente do mundo, nossos filhos, mas
por ironia do destino eles passam a ser a maior causa de insônia e dor de
cabeça, como dar conta de tudo que eles precisam?
É mesmo Dona Joana, mas vejo que a senhora está
grávida de novo, é o sétimo, não é?
É sim, mais um para nos trazer alegria e
preocupações, é a vida, Dona Lurdes, é a vida! Quando eu era mocinha, sonhava
com uma família, mas não imaginava o que isso significaria.
De repente um bebê chora e reclama a mãe, Joana pede
à filha mais velha Marta para que veja o que está acontecendo com o caçula da
casa. Mãe, diz ela, ele acordou, acho que está com fome.
- Então vá preparar a mamadeira dele – grita Joana.
São dias árduos para Marta, desde pequena viveu em
meio as dificuldades e conflitos dos pais que se estendiam a ela e seus irmãos.
Quando o cobertor é pequeno cada um se ocupa mais ferozmente de manter-se
aquecido, vale tudo, atacar, culpar e humilhar, as dificuldades financeiras são
tantas que invadem as relações afetivas.
Na falta aparece o lado ruim das pessoas, pensa Marta,
concluindo que na abundância viveriam apenas o lado bom de todos. Na televisão
todos parecem tão felizes com o que consomem, deve ser essa a fórmula da
felicidade, filosofa Marta do alto de seus nove anos.
Como primogênita tem certa autoridade sobre os irmãos
o que significa desfrutar de algumas regalias com os pais, afinal divide as
responsabilidades com eles, mas não pode relaxar, brincar…mas pode sonhar....
Aliás fantasiar é seu refúgio secreto, onde as coisas boas acontecem... Mas Marta
tem apenas um único sonho: encontrar um tesouro no quintal da casa onde moram e
enfim trazer algum equilíbrio e conseqüente felicidade para todos.
Depois de mais um ano difícil com o nascimento de
mais um irmão e aumento de todos os conflitos e afazeres domésticos que
sobrecarregam Marta, é chegada a véspera de Natal. Desde o começo do mês de
dezembro seus irmãos, começaram a fazer os pedidos para o Papai Noel. Marta,
sorri internamente pensando no quanto eles são tolos e ela esperta.
- Será que não percebem ou não querem perceber que
essa história é para enganar as crianças? Ah se você não for bonzinho, ou não tirar
boas notas não vai ganhar presente do Papai Noel. Ruminava ela com sarcasmo e
certa prepotência.
Marta já não fazia cartinhas desse tipo há muito
tempo, considerava-se acima de todos, muito mais evoluída e adulta que os
babacas dos seus irmãos. Todos acordaram felizes e esperançosos de receber os
presentes, diferente dela que tinha uma informação preciosa que a protegia da frustração;
sabia que o ano tinha sido muito difícil e que os pais não dariam, novamente o
que pediram. Senta-se diante da Televisão e encanta-se com tantas ofertas de
felicidade. O telefone toca, a mãe grita para que ela atenda.
– Alô quem fala? Do outro lado da linha ouve um oh oh
oh eu sou o Papai Noel, quem está falando é a Marta? Sou eu mesma, como você
sabe o meu nome? Vou desligar, que trote bobo você está passando, nem
criancinha de cinco anos acreditaria que o papai Noel ligaria para ela na véspera
de natal... essas crianças pequenas acham que ele está ocupado preparando os
presentes para entregar a noite.
- Mas estou mesmo preparando os presentes e percebi
que esse ano novamente você não fez sua cartinha para mim... retruca
alegremente a voz do outro lado.
- Me poupe, seja lá quem você for, tenho mais o que
fazer do que dar ouvidos a quem quer me fazer de idiota, vou desligar. Retruca
Marta irritada.
- Não desligue, me conta porque você não acredita
mais em mim? Apela a voz no telefone.
- Pare com isso.
Gritou ela, desligando o telefone e voltando a ver a Televisão. Respira
aliviada por ter resolvido o assunto sozinha quando um homem barbudo como o
papai Noel aparece na tela e pergunta: - Por que você desligou o telefone?
Assustada Marta, cobre o rosto. Ele continua a falar, - Meninas como você Marta
não conhecem a magia da infância, Ela estava com o controle remoto na mão e
rapidamente desligou a TV.
– Ufa... que loucura, acha que não estou
batendo bem da cabeça, sussurrou ela. Levantou-se do sofá e quando estava indo
para a cozinha ouviu a campainha de sua casa tocar. A mãe grita lá do quarto
para que ela atenda a porta. Olha pelo olho mágico e lá está o mesmo homem da
TV. Meu Deus, pensa ela, eu enlouqueci mesmo e desesperada pede para ele ir
embora. Ele diz: não se assuste eu faço parte de um dos sonhos que você insiste
em não sonhar. – Como assim? Pergunta Marta.
Ele responde agora aliviado por ter a oportunidade de
falar com Marta e calmamente lhe explica. Todos nós somos dotados de uma capacidade de
fantasiar, sonhar, algumas vezes nos perdemos nesses devaneios, mas eles são
poderosas fontes de vida. Tenho percebido que você não sabe sonhar, não utiliza
desse mundo maravilhoso que tem aí dentro e acaba sendo essa menina chata e pedante
que é.
Tomada de furor Marta grita, dizendo que ele não sabe
de nada que ele nem existe. Ele retruca: - e você existe? Olha para você, vive
como uma máquina, cumpre tarefas, assiste televisão, se impõe para seus irmãos
e colegas, não sabe brincar nem sonhar, isso é existir? E ainda por cima não me
dá a menor chance de torná-la mais doce.
- Ah você se acha espertinho, claro que sonho e se
você realmente me conhecesse saberia disso.
- Do que você está falando??? Daquela besteira de
encontrar tesouro e resolver o problema de todos? Ah Marta, me desculpe, mas
você é uma menina muito ignorante neste assunto. Isso não é sonhar isso é
tentar resolver o problema de todos como você sempre acha que tem que fazer.
De repente Marta se dá conta que não sabe do que ele
está dizendo, aliás que não sabe mesmo nada de si mesma. Esteve tão ocupada
pelos gritos e pedidos de todos que nem percebeu que estava se deixando de
lado, ele tinha razão, isso era existir? Mas ela não se entregaria tão fácil
assim aos argumentos daquele velho desconhecido. Questiona-o então: Olha você,
digamos que seja o papai Noel, o que você faz não é muito diferente do que eu. Vive
o tempo todo preparando presentinhos para iludir as criancinhas de que a vida é
bela, isso é existir? Você não passa de um velho que quer aparecer para se reafirmar
porque na verdade não existe.
Então é assim que você trata seus sonhos e
esperanças? Pergunta com voz entristecida, o senhor do outro lado da porta,
destitui-os de valor como faz com todo mundo que demonstra sentimento?
Quando uma
criança, como teus irmãos e amigos, sonha com o Natal não é o presente que
importa, mas o poder acreditar que alguém pode ouvir seus desejos, mais que
isso é considerar que os próprios desejos são importantes. O Natal não é apenas
a chegada do Papai Noel, na verdade ele simboliza a esperança como um presente
que vem dos céus como a estrela de David, nos indicando que viver vale a pena
se pudermos acreditar e valorizar o que os outros sentem e o que sentimos, por
mais difícil que seja.
Marta, eu sou construído a partir dos desejos e
esperanças das crianças que como você tem um longo e penoso caminho pela frente,
afinal viver não é fácil para ninguém. Assim como minhas renas, vocês crianças,
crescidas ou não, me conduzem no trenó mágico da imaginação, os presentes podem
não chegar, mas a esperança e crença na vida estarão sempre presentes se a
porta do coração de cada uma de vocês estiver aberta.
Abra a porta
Marta e permita que eu e você enfim possamos existir, assim viver será mais que
uma tarefa, será sempre um presente mágico vindo dos céus.
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