De onde vem a capacidade
criativa de nós seres humanos tão subjugados a imensidão de forças
intimidadoras, tanto internas quanto externas?
O mundo, tanto o interno
quanto externo, onde vivemos, nos imprime um estilo de vida por vezes perversor
de nossos próprios e caros desejos e princípios.
Uma simples saída de casa, em um dia qualquer da semana, nos conduz a uma infinidade de sinais que apontam
para assustadoras contradições.
Estranhamente nos advertem, por exemplo, que a gentileza atrapalha.
A paciência é rara entre
os viventes na cidade grande. A pressa atropela os momentos de possível
encontro entre mortais, exigindo rapidez e precisão de movimentos.
As forças intimidadoras advindas do mundo
interno, também não nos são menos difíceis de serem administradas. O complexo
processo de nos tornarmos humanos mantém aprisionado grande parte de nossa
energia psíquica, hoje sabemos que a angustia e ansiedade são inerentes a
condição humana.
Um paradoxo velho
conhecido: nas dificuldades e grandes tormentos, a capacidade criativa se
manifesta como grande recurso de sobrevivência e esperança, como aposta na
vida. Na eminência de sucumbir, duas
respostas são possíveis a de Thanatos (pulsão de morte) e a de Eros (pulsão de
vida). Quando Eros surge, a criatividade aparece como recurso de saída e
continuidade da vida. Como diz a música “Uma bomba sobre o Japão fez nascer um
Japão de paz...”
O analista entrega grande
parte de sua vida na escuta a um outro empenhado em abdicar de suas próprias
questões, julgamentos e até mesmo crenças. Poderíamos dizer que essa entrega,
esse empréstimo, vai na contramão da manifestação criativa do sujeito. No
entanto, acontece exatamente o contrário.
Ao mantermos em suspenso
nossa condição de sujeito desejante, para abrir espaço para a associação livre e
consequente ação da “função analítica”, de certa forma entramos em contato, sem
perceber, com um mundo desconhecido, por vezes caótico, nesta intersecção que
impulsiona e exige uma saída criativa.
J.D.Nasio em “A criança
magnífica da psicanálise” diz que o psicanalista escreve por higiene.
Depois de trinta e seis
anos ouvindo, ano após ano tantas histórias incríveis e únicas em meu divã,
constato que todas elas foram capazes de me fazer rever essa minha escolha
atualizando-a a cada dia.
Ao reconhecer que a
necessidade de cuidar de minhas questões, em análise e das questões de meus
pacientes em supervisão e estudo, não são suficientes para aliviar a carga
afetiva inerente à relação analítica, então eu escrevo!
Escrever, nesse caso, é
criar, é materializar a partir do inominável o que jamais seria capaz de ser
descrito.
Essas reflexões e contos, registradas aqui, e nos meus livros e artigos, não são histórias que ouvi dos meus pacientes no meu divã, são histórias que
criei para dar palavra para os personagens fictícios paridos a partir do
encontro dos meus conteúdos mais secretos com a minha prática analítica.
São histórias que carregam
e fazem circular emoções e sentimentos experimentados ao longo de uma vida,
vivencias verídicas ou não, aconchegadas em algum lugar secreto do meu ser que
encontram na criação de um personagem a possibilidade de ganhar o mundo.
Uma verdadeira “higiene”....

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