Os
primeiros cabelos brancos, assim como as primeiras rugas não são tão
reveladores do processo de decadência a que nosso corpo está sujeito, quanto a
primeira visita ao oculista para quem nunca precisou de óculos.
Passar
a utilizar um apoio como os óculos, quando nunca precisamos, nos coloca
inevitavelmente na condição de dependência que cada um a seu modo resistirá a
admitir, mas a ameaça de finitude não parará por ai. As dores lombares e a
necessidade de mais quietude assim como pequenos outros sinais como
esquecimentos bobos, são também admissíveis e portanto relevados, mas quando os
remédios de uso continuo chegam a notícia da finitude entrou pela porta da
frente.
No
entanto, essa ameaça esteve presente de forma implícita desde quando pudemos
nos pensar enquanto sujeito. Encontramos meios de driblá-la durante toda a
vida, elegemos problemas substitutos com os quais possamos ter a ilusão de que
estamos no comando.
Nós
seres humanos sofremos durante toda a vida com a triste certeza de que não
existiremos para sempre assim como as pessoas que amamos. Essa verdade precisa
ser escondida nos recônditos de nosso inconsciente para que possamos ter alguma
esperança, para que ela não tinja de morte nossa existência. Mas é um saber que
permeia nossa vida. Construímos causas com as quais possamos lidar, assim como
sofrimentos carregados de libido que nos mantém crentes que quando nos
livrarmos dele teremos o grande presente do “felizes para sempre”.
O mundo
contemporâneo encontrou uma forma particular de manejar esta dura realidade.
Hoje estamos divididos entre os que tem e os que não tem, os que podem e os que
não podem, os bregas e os top, os bombados e os caídos, e assim por
diante. O difícil é perseguir esse
modelo de poder, mas mais difícil ainda é estar em “baixa” e não se incomodar.
Elegemos um grupo
que é colocado como modelo do ideal e na moda sempre pautado pelo fora do ideal
e da moda.
Hoje está na moda
ser jovem e bonito. Uma verdadeira batalha foi travada com ajuda do
desenvolvimento tecnológico para evitar o mal do envelhecimento que é a
contrapartida do que está na moda. Ser velho é feio é brega e desprezível, não
está na moda.
Por outro lado,
paradoxalmente, esta mesma tecnologia criou novos recursos para que mais
pessoas cheguem até essa velhice tão desprezível.
Outro dia vi uma
mulher muito feminina e charmosa dirigindo um ônibus, há algumas décadas atrás
seria algo surpreendente e com certeza fora da curva. Hoje com direção
hidráulica e outros recursos dirigir um ônibus não exige a força do macho da
espécie e nós mulheres expandimos nossos horizontes no mundo do mercado de
trabalho, nessa e em tantas outras áreas.
Por quanto tempo
nós mulheres ocupamos o lugar das que não tinham, das limitadas, por termos uma
constituição física diferente dos homens? Nossa feminilidade era vista como
fragilidade e impotência, como parte do movimento fálico natural da nossa
cultura, nós éramos as que não tinham.
Não seriam os
velhos hoje os que são colocados nesse lugar da fragilidade e impotência? Aposentar-se antes era sinônimo de fim da
vida, hoje muitos aproveitam esse momento para construir uma nova carreira,
abraçar uma causa antiga, correr atrás dos desejos secretos, ou coisa assim.
Nosso olhar para a
velhice é marcado pelo nosso olhar para finitude. Envelhecer é entrar em
contato com o limite do tempo, é saber que isso tudo vai acabar para nós
mortais. Quando jovens fazemos de conta que não seremos atingidos pela morte,
que ela é uma realidade distante que atinge velhos e doentes, quando a idade
vai chegando já não podemos mais usar desse subterfugio para nos enganar sobre
nossa condição humana.
O velho representa
para o novo o lado obscuro que precisa ser mantido no outro. Representa limite,
doença, morte, é desvalorizado e por que não dizer rejeitado e excluído. Em
nossa cidade quem passou dos sessenta começa a ter algumas regalias, que parecem
um cuidado que inclui, mas não seriam elas também um sinal de exclusão? Não
seria uma generalização dizer que todos os que passam dos sessenta não tem
condição de pagar um ônibus ou ficar em uma fila?
Nas civilizações orientais a sabedoria dos
anciões é procurada e almejada por aqueles que ainda não viveram o bastante
para alcança-la. A sabedoria é o presente que conquistamos através dos segundos,
minutos, horas, dias meses, anos, décadas, que foram tomados de vivências que
nos sacudiram, alegraram, decepcionaram, entristeceram, envergonharam e algumas vezes nos
orgulharam.
O envelhecimento é
uma condição natural de todos através dos doloridos sinais anunciadores da
lenta e paulatina e inevitável partida. O efeito de tal evento no psiquismo é
dos mais variados.
Passamos a vida
perseguindo objetivos, sonhos, mas também os boicotando afastando-os,
negando-os uma luta fruto das formas como lidamos com nossas limitações. São as
famosas tramas inconscientes que nos colocam constantemente diante destas duas
forças, a que quer avançar e a que quer parar, mais que isso recuar, a que
torna o envelhecer um ponto de chegada ou de partida.
O tempo é o senhor
de nossas vidas e como tal em algum momento acaba por nos revelar que mesmo
definindo nossa passagem por aqui, sempre nos deu e dará escolha, pois a batuta
sempre esteve em nossa mão. Contraditório, mas real, ao mesmo tempo em que a
morte é inevitável a vida sempre é uma escolha diária independente de quantos
anos já tenhamos percorrido.
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