Quando temos contato com a delinquência na
juventude, logo nos apressamos em associa-la as dificuldades sócio econômicas
dos países de terceiro mundo como o Brasil. Relacionamos as dificuldades de
estrutura básica, como a educação e alimentação, como um dos fatores
determinantes da desordem que estes jovens vivem e provocam no meio. Há algumas décadas, perdi essa visão
equivocada.
Quando me propus a intervir “quichotianamente” em
uma instituição que acolhia crianças carentes e supostamente futuros delinquentes,
entrei em contato com a equação do local que era e é bem-intencionada e
simples.
Esta instituição, considera que a pobreza e o meio
em que essas crianças crescem são os determinantes do que ela se tornará. Logo,
oferecer a elas outras oportunidades, como auxilio nas dificuldades
educacionais, atividades esportivas, cultura, alimentação e lazer, as
afastariam da utilização da agressividade, dirigida tanto ao meio quanto a si
mesma.
Como psicanalista, fui convidada a colocar alguma
luz, no porque esta equação não estava funcionando. A instituição sofria, com o
ataque e a desvalorização do que oferecia, às crianças que atendiam. Os
monitores, esforçavam-se em conscientiza-las, mas elas retornavam com atitudes
que revelavam certo triunfo sobre todos, logo ataque no lugar do aproveitamento,
que levaria consequentemente a gratidão e amadurecimento.
Algum tempo em contato com essas crianças e seus
pais revelaram que o movimento de ataque das crianças, tinham razões
pertinentes. Atacavam o que revelava sua
fragilidade e falta, mas não exatamente de comida, educação, esporte, cultura e
lazer, mas sim de investimento e suporte emocional fundamentais para o
desenvolvimento de uma estrutura psíquica capaz de suportar a dores próprias de
todo ser humano de estar no mundo.
O contato com os pais, revelou o quanto pouco
esperavam de seus filhos, logo pouco investiam neles, tendo em vista que eram
seus produtos, assim sentiam, que nada valiam como eles. Uma herança arraigada
e maldita, difícil de ser interrompida, pois dependia fundamentalmente da
mudança de rumo, do que provavelmente foi transmitido através das gerações.
Mas, como oferecer uma oportunidade de mudança de rumo, uma possibilidade de
escolha para criança que chega nessa estrutura?
Essa era a nossa proposta. Foram anos de
intervenção psicológica com pais e crianças, com auxílio da instituição, com
reconhecimento da UNESCO, alguns resultados foram atingidos, o que provou a
eficácia do trabalho.
A
intervenção com instituições que abrigam crianças e adolescentes que sofreram a
perda do vínculo familiar, apontou que o nosso sucesso neste caso, era devido a
presença dos pais ou responsáveis, tanto na vida da criança quanto na
intervenção que oferecíamos. Assim, pude concluir que a manutenção da relação
com os pais é fundamental, mesmo sendo conflitiva. A mudança de rumo, poderia
ocorrer, contanto que os pais estivessem empenhados, em envolver-se no desafio
de compreender e mudar a relação afetiva com seus filhos.
Não ocorreu o mesmo nos
abrigos, onde a criança, por motivos judiciais, era afastada da família. Tentamos
oferecer por muitos anos intervenção na dinâmica através de atendimentos e
avaliações psicológicas e como refleti em meu livro “Desamparo na Infância”:
...Descobri, no contato com
aquelas e com outras, que, quando os pais são afastados da criança, algo se
quebra como cristal, de forma definitiva. Podem-se fazer alguns arranjos, mas
confiança para valer nunca mais.
Recentemente assisti o
filme “De Cabeça erguida” e toda experiência que vivi retornou em minha mente.
A história se passa em um país de primeiro mundo a França, onde a assistência
ao menor é muito investida e organizada.
Logo na primeira cena encontramos uma juíza que
tenta conversar com a mãe do garoto, o protagonista do filme. Uma mãe
extremamente comprometida, um pai com pouca força e uma estrutura externa
empenhada em oferecer alguma escolha para aquela criança durante seu
desenvolvimento até a adolescência. Percebe-se durante todo filme a luta do
garoto para sobreviver aos efeitos destrutivos de sua mãe em sua vida, uma
mulher visivelmente com sérios problemas vinculares. Durante todo filme, ao
mesmo tempo em que se mostra rejeitadora, (como na cena inicial),
descompensa-se quando o filho precisa de seu vínculo emocional e de seu cuidado
e proteção. No entanto isso não era o mais grave, mas sim ela ser totalmente
refratária a qualquer tipo de intervenção.
Uma certa desilusão me abateu. Apesar de minha
visão, em relação a intervenções na infância, com caráter preventivo da
delinquência juvenil, não ser muito otimista atualmente, sempre acreditei que
um trabalho de responsabilidade do estado, organizado e realmente interessado
na criança e sua família, como esse oferecido pela França, poderia preencher as
lacunas deixadas por uma relação de base desestruturante. Esse filme me fez
pensar, que se trata de um problema muito mais delicado e complexo e de difícil
solução. Todo suporte imaginável, como financeiro, educacional, social,
psicológico e educacional de nada servem se os pais e responsáveis não tem
condições mínimas de reconhecimento, elaboração e mudança pessoal.
Penso que este assunto de tamanha relevância está longe de ser conscientizado. Os pais também passaram por experiências marcantes, virando assim uma bola de neve a passar de geração para geração.
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