segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DESAMPARO NA INFÂNCIA


Quando temos contato com a delinquência na juventude, logo nos apressamos em associa-la as dificuldades sócio econômicas dos países de terceiro mundo como o Brasil. Relacionamos as dificuldades de estrutura básica, como a educação e alimentação, como um dos fatores determinantes da desordem que estes jovens vivem e provocam no meio.  Há algumas décadas, perdi essa visão equivocada.

Quando me propus a intervir “quichotianamente” em uma instituição que acolhia crianças carentes e supostamente futuros delinquentes, entrei em contato com a equação do local que era e é bem-intencionada e simples.
Esta instituição, considera que a pobreza e o meio em que essas crianças crescem são os determinantes do que ela se tornará. Logo, oferecer a elas outras oportunidades, como auxilio nas dificuldades educacionais, atividades esportivas, cultura, alimentação e lazer, as afastariam da utilização da agressividade, dirigida tanto ao meio quanto a si mesma.

Como psicanalista, fui convidada a colocar alguma luz, no porque esta equação não estava funcionando. A instituição sofria, com o ataque e a desvalorização do que oferecia, às crianças que atendiam. Os monitores, esforçavam-se em conscientiza-las, mas elas retornavam com atitudes que revelavam certo triunfo sobre todos, logo ataque no lugar do aproveitamento, que levaria consequentemente a gratidão e amadurecimento.

Algum tempo em contato com essas crianças e seus pais revelaram que o movimento de ataque das crianças, tinham razões pertinentes.  Atacavam o que revelava sua fragilidade e falta, mas não exatamente de comida, educação, esporte, cultura e lazer, mas sim de investimento e suporte emocional fundamentais para o desenvolvimento de uma estrutura psíquica capaz de suportar a dores próprias de todo ser humano de estar no mundo.

O contato com os pais, revelou o quanto pouco esperavam de seus filhos, logo pouco investiam neles, tendo em vista que eram seus produtos, assim sentiam, que nada valiam como eles. Uma herança arraigada e maldita, difícil de ser interrompida, pois dependia fundamentalmente da mudança de rumo, do que provavelmente foi transmitido através das gerações. Mas, como oferecer uma oportunidade de mudança de rumo, uma possibilidade de escolha para criança que chega nessa estrutura?

Essa era a nossa proposta. Foram anos de intervenção psicológica com pais e crianças, com auxílio da instituição, com reconhecimento da UNESCO, alguns resultados foram atingidos, o que provou a eficácia do trabalho.

 A intervenção com instituições que abrigam crianças e adolescentes que sofreram a perda do vínculo familiar, apontou que o nosso sucesso neste caso, era devido a presença dos pais ou responsáveis, tanto na vida da criança quanto na intervenção que oferecíamos. Assim, pude concluir que a manutenção da relação com os pais é fundamental, mesmo sendo conflitiva. A mudança de rumo, poderia ocorrer, contanto que os pais estivessem empenhados, em envolver-se no desafio de compreender e mudar a relação afetiva com seus filhos.

         Não ocorreu o mesmo nos abrigos, onde a criança, por motivos judiciais, era afastada da família. Tentamos oferecer por muitos anos intervenção na dinâmica através de atendimentos e avaliações psicológicas e como refleti em meu livro “Desamparo na Infância”:

         ...Descobri, no contato com aquelas e com outras, que, quando os pais são afastados da criança, algo se quebra como cristal, de forma definitiva. Podem-se fazer alguns arranjos, mas confiança para valer nunca mais.

         Recentemente assisti o filme “De Cabeça erguida” e toda experiência que vivi retornou em minha mente. A história se passa em um país de primeiro mundo a França, onde a assistência ao menor é muito investida e organizada.

Logo na primeira cena encontramos uma juíza que tenta conversar com a mãe do garoto, o protagonista do filme. Uma mãe extremamente comprometida, um pai com pouca força e uma estrutura externa empenhada em oferecer alguma escolha para aquela criança durante seu desenvolvimento até a adolescência. Percebe-se durante todo filme a luta do garoto para sobreviver aos efeitos destrutivos de sua mãe em sua vida, uma mulher visivelmente com sérios problemas vinculares. Durante todo filme, ao mesmo tempo em que se mostra rejeitadora, (como na cena inicial), descompensa-se quando o filho precisa de seu vínculo emocional e de seu cuidado e proteção. No entanto isso não era o mais grave, mas sim ela ser totalmente refratária a qualquer tipo de intervenção.

Uma certa desilusão me abateu. Apesar de minha visão, em relação a intervenções na infância, com caráter preventivo da delinquência juvenil, não ser muito otimista atualmente, sempre acreditei que um trabalho de responsabilidade do estado, organizado e realmente interessado na criança e sua família, como esse oferecido pela França, poderia preencher as lacunas deixadas por uma relação de base desestruturante. Esse filme me fez pensar, que se trata de um problema muito mais delicado e complexo e de difícil solução. Todo suporte imaginável, como financeiro, educacional, social, psicológico e educacional de nada servem se os pais e responsáveis não tem condições mínimas de reconhecimento, elaboração e mudança pessoal.
         

Um comentário:

  1. Penso que este assunto de tamanha relevância está longe de ser conscientizado. Os pais também passaram por experiências marcantes, virando assim uma bola de neve a passar de geração para geração.

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