sexta-feira, 13 de março de 2026

DESAMPARO NA INFÂNCIA*

 

                            

*Resumo da apresentação no Congresso Internacional transdisciplinar da Infância e Adolescência do Instituto Langage do livro de minha autoria: DESAMPARO NA INFANCIA - uma visão psicanalítica

Poderia falar de pelo menos três vértices:

A primeira é o atendimento psicanalítico na infância como prevenção da delinquência juvenil, quando este seria o caminho natural de sua realidade, assunto difícil tendo em vista que não é propósito da psicanálise adaptar o sujeito a realidade externa. Difícil quando é essa mesma realidade externa que perturbada pelo comportamento da criança nos procura para colocar ordem no caos instalado. Poderíamos chamar esse primeiro vértice do lugar do demandante, do portador da angústia.

 

A segunda é o nosso ou melhor de quem recebe a angústia e   inquieta-se em torno dela em busca de compreensão e possível resposta. A princípio está tudo certo, somos profissionais e fomos chamados a executar nosso trabalho. Mas, exatamente por sermos profissionais, não podemos nos enganar, sabemos que esse encontro, esse pedido de aquiete esse menino, não o deixe ser um transgressor, tocará inevitavelmente e singularmente em cada um dos profissionais envolvidos.

 

A terceira e mais importante, a meus olhos, é o vértice da criança. Portanto foi o eleito para que me aprofunde hoje.

Foram três trabalhos realizados pelo Instituto de Olho No Futuro.

Intervenção na história da criança carente

Suporte

Anjo

 

As crianças do primeiro local, moram em favelas na periferia de São Paulo, a maioria (80%) não convivem com o pai e a mãe é arrimo de família. Levantam muito cedo para junto com seus irmãos, acompanharem a mãe em uma condução lotada até a escola ou o centro comunitário da ACM, que seguirá para seu trabalho, maioria como doméstica, nas imediações.

No Centro Comunitário ou na escola encontram uma realidade totalmente diferente daquela onde moram, muito melhor, mas são “estrangeiros” nesse bairro e sentem nas mensagens subliminares do dia a dia. Apesar da escola ser Estadual está localizada em local de pessoas com poder aquisitivo maior, um choque passar por todas aquelas casas, escolas e crianças dentro do carro de seus pais enquanto elas caminham exaustas puxadas pela sua mãe, afinal não existem linhas de ônibus que passem perto da escola. Dentro da sala de aula outro drama, não conseguem e não querem acompanhar a matéria, estão cansados e muito pouco interessados em aprender, esse caminho é árido difícil e incerto, difícil de sonhar, mais fácil pensar em uma saída mais rápida como ser jogador de futebol ou modelo. Isso eles viram na TV, de onde vieram os craques e modelos descobertos ao acaso.

Depois da escola uma perua os leva até a ACM, um clube, local de pessoas de classe média e média alta. Na frente existe uma entrada com as catracas para os sócios, o transporte passe por ela e os leva para os fundos, onde fica o centro comunitário mantido com a parceira da prefeitura de São Paulo com a ACM.

Recebem alimentação, reforço escolar e utilizam o “clube” em horários especiais para eles nas piscinas e quadras, mas também podem   inscreverem-se em aulas junto com os sócios.

É então que aparece a queixa e angústia da instituição. Como eles podem não estar agradecidos, Por que não aproveitam do que lhe é oferecido, pulam de curso em curso, não se implicam em nada, estão cada vez mais agressivos.

Nossa resposta: vamos perguntar a eles e a seus pais. 

Descobrimos nos pais o mesmo descontentamento da escola e da instituição em relação a seus filhos. Descobrimos o quanto esses pais colocavam estes locais como detentores do saber em detrimento da própria valorização de sua função paterna. Delegavam por sentirem-se incompetentes e quando não funcionava não decepcionavam-se com a instituição mas com os seus filhos.

Um trabalho psicanalítico foi proposto: grupo de pais, atendimento às crianças e aos monitores e responsáveis pelo Centro Comunitário.

É claro que não conseguimos mudar a realidade   externa com nossas constatações e grupos, afinal ela é reflexo de nossa sociedade, mas ao darmos voz para a criança e seus pais legitimamos suas queixas ao mesmo tempo em que desmontamos o modelo antes reafirmado pelos seus pais: “Esse menino não tem jeito!” agora era com eles!.

As crianças do segundo   trabalho, “Suporte”, estavam abrigadas pelo poder público em lares sociais. Vou discorrer apenas sobre o primeiro. Esse abrigo, oferece todos os recursos concretos necessários para a criança crescer e desenvolver-se, grande espaço, camas individuais, quartos separados por idade, alimentação balanceada, passeios e recreação com voluntários no fim de semana e férias, monitores que conduzem-nas nas escolas da proximidade.  Um verdadeiro paraíso para crianças que na maioria das vezes moravam em situações tidas como de risco não muito diferente do nossos garotos do nosso trabalho anterior, mas devemos considerar que houve uma quebra catastrófica, de repente foram interrompidos em suas histórias e afastados dela sem saber ao certo por que e sem a menor condição de escolha.

 No entanto o pedido de ajuda novamente não é deles mas da instituição que está indignada com a falta de reconhecimento e gratidão a princípio de um dos garotos de 10 anos, o mesmo tempo que a instituição existe, abrigado desde bebê que apresenta comportamentos destrutivos dentro e fora do abrigo.

Quando chegamos o garoto já havia sido expulso daquele abrigo com a ameaça de ser internado na Febem. Mas ele havia apontado a falha nos alicerces daquela instituição e o pedido foi mantido.

Nos dispusemos a ouvir, a instituição, a criança os funcionários.

A Diretoria e a assistente social, relatam o quanto eles são fechados, parece que vivem em outro mundo, não parecem merecedores de tanto recurso.

Os outros funcionários assim como as crianças, não expressam muita coisa.

Levantamos o quanto as crianças não tinham espaço para expressarem sua infelicidade pela quebra do vínculo familiar que subtraiu dela capítulos que só poderiam ser reparados se reconhecidos e elaborados. Sabíamos que atender àquelas crianças era trazer um mundo desarrumado que inevitavelmente recairia em seus cuidadores. Propomos organizar um grupo de todas as pessoas que trabalhavam no abrigo, desde a diretoria até o motorista, em paralelo ao atendimento do grupo de crianças. 

Os encontros com as crianças ocorreram e como imaginamos trouxeram comportamentos indesejáveis para todos, mas infelizmente não pudemos realizar o grupo do pessoal do abrigo, por limitações da dinâmica que poderíamos discutir em outro momento, porque quero continuar privilegiando o vértice da criança. 

Ana Alvarez em artigo que discute brevemente a questão do atendimento a crianças que sofreram trauma, fala sobre o risco do trauma do trauma. Sem poder oferecer condições de acolhimento do abrigo, lugar ao qual pertenciam então, penso que provocamos o trauma do trauma ao dar-lhes espaço para falar de seu desamparo e todos os sentimentos que provocavam sem respaldo dos responsáveis pela sua sobrevivência, viramos vilões e fomos afastados.

O terceiro trabalho, Anjo, não foi menos dramático. Aconteceu em paralelo ao anterior em um abrigo mais flexível e estávamos otimistas com o resultado possível que se desenhava. Foi um grupo de jovens voluntários de uma ong implicada com os passeios, presentes e visitas a crianças de abrigos, nos procurou com a seguinte dor: “Eles simplesmente destroem os presentes caros que conseguimos para eles, em suas cartinhas para o papai Noel pedem coisas como uma casa, uma mãe, um computador”.

 Ouvimos vinte crianças do abrigo, todas diziam que os voluntários só vinham nas datas festivas, mas já estavam acostumadas, mas se não viessem também estava tudo bem.  Se viessem ótimo até porque ganhavam muitas coisas.

Concluímos que estas crianças não faziam vínculos como forma de evitar a dor do afastamento, um jeito de sobreviver ao desamparo.

Fomos mais radicais e já que eles estavam tão dispostos a ajudar tínhamos uma proposta. Um projeto piloto chamado Anjo.

Utilizamos testes projetivos, e escolhemos os voluntários também através de testes projetivos e entrevistas. Em seguida cruzamos os dados e montamos duplas. O voluntário se comprometeria a ser a referência desta criança em todas as situações menos as econômicas, alias os presentes foram retirados da relação. Para sustentar o peso desse lugar o voluntário faria acompanhamento quinzenal com uma terapeuta para auxiliá-lo.

Nos primeiros seis meses apesar de muitos ajustes as coisas caminharam, mas aos poucos os voluntários foram mudando suas vidas de uma forma surpreendente, a princípio parecia coincidência, mas aos poucos todos deixaram o projeto por mudanças na vida pessoal, como gravidez, casamento, decisão de deixar o país, ou a mais óbvia, “descobri que preciso de análise e na análise descobri que a criança desamparada que quero ajudar está dentro de mim”.

Como no trabalho do “Suporte” não pudemos cumprir com o que acenamos para essas crianças, apontamos para o desamparo delas e acertamos no nosso desamparo diante delas.

Infelizmente é preciso que recorramos árduo e dolorido caminho para reconhecermos o óbvio. O nosso primeiro trabalho deu certo.  Olhando de trás para frente podemos observar que aqueles pais, com dificuldades de valorizar seu papel na vida psíquica do seu filho eram candidatos a provocarem uma situação de perda do vínculo e autoridade sobre eles, afinal diante de tanta sensação de incompetência quem sabe é a escola a instituição, etc. Quero acreditar que ao colocarmos luz sobre a relação deles com seus filhos ampliamos as suas possibilidades de escolha.

Quem viu Estamira pode compreender a riqueza criativa em meio ao que parece desprezível e descartável quando a filha dela diz que preferia ter podido estar com ela independente de qualquer coisa.

 

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