Considerando
que os casamentos saíram da condição de arranjados, pois havia interesse em que
a família fosse preservada e protegida, ser um moço ou moça de boa família era
fundamental para ser indicado a casar, considerando os dotes de cada um. A
lógica seguida não era do amor ou da afinidade, mas sim dos interesses
familiares.
Tudo
mudou a partir do momento em que os limites familiares foram rompidos. Antes o desejo não estava pautado pelo
sujeito, mas sim pelo seu entorno. Um sapateiro tinha filhos homens para serem
sapateiros, para levarem adiante o legado familiar.
A
mulher tinha como função a procriação, seus sentimentos e desejos ela deveria
guardar para si. Diferente do homem que poderia buscar uma mulher para realizar
o que não podia ser feito com a mãe de seus filhos, caso a esposa tivesse
interesse amoroso ou sexual por outro parceiro, era duramente condenada.
Não
era diferente se tivesse outro interesse, que o de ser mãe, se quisesse fazer
outra coisa além dessa função. Temos resquícios desse tempo até os dias de
hoje, onde a mulher se desdobra para dar conta de todos os papéis impostos socialmente
e tentar ir atrás de seus desejos supostamente liberados nos novos tempos.
A
partir do momento em que o laço tradicional foi rompido, onde um filho poderia
transpor os limites estabelecidos pela história familiar e romper com o
determinado tudo mudou. Mas, considero que isso não aconteceu pela força do
desejo do jovem, mas sim pela necessidade cultural e social, a industrialização
assim como o desenvolvimento científico e tecnológico começa a recrutar esses
jovens assim como o foram nas guerras. Hoje são soldados de um novo tempo.
O
sapateiro, já não é necessário, o importante é investir no consumo, em um novo
produto. A industrialização trouxe esse novo apelo, consumir mais abre novas
frentes de trabalho, que faz a máquina rodar, ganhando mais, consumo mais. Tudo
para que o progresso chegasse. A pertença através do ofício familiar, foi
rompida, dando lugar a necessidade de novos conhecimentos, novos parâmetros de
sucesso, referencias para além das familiares.
Muitas
consequências, entre elas a perda do sentido da vida. Antes sabia-se, mesmo que
sendo algo ditatorial, de onde se veio e para onde se deveria caminhar, a
identidade apesar de imposta já era posta, não causava angustia, mesmo que
trouxesse certa apatia pela condição de submissão que limitava e minava sua
criatividade.
Uma
abertura que lançou o jovem num mundo desconhecido, inclusive interior. As
drogas tomam força nesse momento, pois anestesiam as angústias e dúvidas, sobre
seu destino, ou mesmo sobre o sujeito do desejo que insiste em aparecer.
Mas,
também permitiu que muitos fossem valentes para frente de ataque e mesmo sem
saber porque ou por o que estavam lutando, tinham um objetivo vencer, um
propósito, fazer parte do novo chamado de guerra. Estava lançado a um mundo
competitivo, onde a motivação eram as conquistas que ampliavam os ganhos
corporativos. Esse mundo corporativo que convoca a deixar de lado a própria
história, para galgar postos, mostrar competências, desafiar seus limites,
mostrar sua força, não há lugar para afeto nessa luta, ele afetaria o
rendimento, logo o resultado seria comprometido.
Mas,
a crise sempre chega, ainda bem. E terá um momento em que esse jovem amadurecerá
e se não foi enredado pelo legado familiar que tenta eternizar um tempo
passado, nem foi golfado pelo propósito capitalista, ou seduzido pelas
conquistas ditadas pelo consumo, vai se perguntar: onde estou? Quem sou? Onde
está o garoto(a) que sonhava em ser...? É assim que quero mesmo viver? O que
realmente desejo?
continua...
trecho do capítulo do livro "Amor em tempo de internet" a ser lançado em outubro de 2019
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