quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Nos braços de um psicopata


Uma mulher atravessando um momento de ruptura, tanto dos laços de um casamento falido há anos, quanto de suas apostas na segurança e apoio, que nesse mesmo casamento lhe serviam de suporte egoico.
 Romper ... foi sempre um problema para ela.  Como uma “boa” histérica, rompimentos levavam a re-significação dos conteúdos infantis edípicos. Uma mãe dominadora, um pai com dificuldades de ocupar seu lugar dentro do casal, mais duas irmãs para competir, e se não bastasse três irmãos, muito investidos em sua masculinidade pelo casal.
Quais as chances dessa menina, espremida entre tantas demandas, manifestar seus desejos? Muito poucas. Em algum momento, uma migalha lhe sobrava como retribuição pela sua quietude e silêncio, por não ser mais uma demandante na família. Opa... isso passou a ser sua grande diferença. Paradoxal, mas sua alteridade pôde ser construída no silenciar de suas demandas e desejos. Ela era a quietinha, a que não dava trabalho, a que se ocupava de minimizar os conflitos.
Ao longo da infância acumulou em um canto escuro de seu ser seus desejos, inquietudes, frustrações e furores. Como o bebê sábio descrito por Winnicott, sabia que a família não daria conta de mais uma criança viva e pulsante. Aquietava-se, interrompia-se, condenava-se pelas manifestações de vida, que saiam pelas bordas.
 As lembranças de investimento narcísico, sempre estiveram relacionadas ao seu silêncio, não poderia abrir mão dessa rara fonte de alimento psíquico. Observações do pai como: sua irmã é muito nervosa preciso estar com ela, você é mais bonita e calma não precisa que eu esteja com você. Que coisa difícil ser investida no não investimento......
Ela cresceu como pôde e encontrou esse homem que pouco ou nada lhe pedia em termos de vínculo, que se satisfazia em uma relação de fachada, que lhe dava pouco e lhe pedia pouco. Uma repetição da cena familiar edípica, o silêncio era partilhado no lugar da demanda e do desejo.
Depois de anos no divã, ela começa a demandar esse homem, passa a se queixa a pulsar. A princípio projetando toda sua esquiva e covardia nele, e atacando a partir de um lugar mais protegido e investido. Depois percebeu como aquela parceria escondia a ambos. Descobriu sua covardia e mais, que eles, a sua covardia e o silêncio, não a protegiam ao contrário a expunham a situações mortíferas. 
É essa mulher que está no primeiro parágrafo deste texto, as voltas com uma decisão, não vai mais se esconder. Rompendo o silêncio denuncia a pobreza da relação em que vivem e o desejo por uma vida onde possa manifestar-se, sair do armário....
Difícil, foram necessárias três separações em um mesmo casamento. Foi somente na terceira que ela encontra a saída definitiva para sua questão de vida.
Conhece um homem disposto a investi-la narcisicamente, incrivelmente disponível a acompanha-la na saída assustadora do armário. Não havia espaço para o medo ou para pensar de que ordem era esse interesse e o quanto custaria. Não importava ela estava em mar aberto, o barco havia afundado, no horizonte somente muita agua, nenhuma terra firme a não ser o armário. Estava convicta de que qualquer coisa que se oferecesse como suporte  agarraria com todas as suas forças.
Mas vamos convir que com tamanha demanda somente um homem com uma estrutura psicopata teria condições de compreender e acolher tanta demanda de existência. Estranho? Mas vamos pensar.... O psicopata detecta na sua vítima as suas necessidades e desejos e se empenha em atendê-las.
 Pensemos em Dom Juan, ele coloca a mulher no lugar do falo e a endeusa envolvendo-a em seu manto acolhedor que mais parece um cobertor de bebê. Usa sim uma venda nos olhos, mas assim como suas intenções ela não é importante para a mulher, porque o que ele mais garante no momento da conquista é que suas intenções estão todas em suspenso pois está totalmente embevecido por ela.
O olhar que atravessa a máscara é penetrante e confiante e envolve-a e entorpece-a.  Ela se entrega deliberadamente tomada pelo desejo a tanto reprimido de amar e ser amada incondicionalmente.
Um jogo perigoso mas vital para ambos. Ele por precisar vencer o desafio de investir aquela mulher tão pouco investida, tão pouco crente em si mesma, tão assustada. Ele precisa convence-la que ela é a coisa mais importante em sua vida, que é o ar que ele respira, que sem ela morreria, para poder dar seu bote.
Astutamente detecta sua grande questão: ela não se acha digna de investimento amoroso, ela considera que precisa “pagar” com seu investimento, sofrimento e silêncio o amor do outro.   Ele dá duro nesta questão e consegue arrastá-la para dentro dele, mas mal sabe ela que ele jamais entregou-se.
Nesse momento estabelecem um pacto inconsciente, ambos colocam uma venda entre eles para não verem a simulação da entrega incondicional daquele homem como manipulação daquela mulher. Ela sabe, mas....
Interessante como uma relação desta pode sim ser interessante para esta mulher. Assim como o bebê que a princípio se considera o centro do mundo por não ter ainda condições de lidar com os seus limites e faltas, essa mulher também precisa desse momento de investimento narcísico que este homem em suas intenções escusas acaba por lhe oferecer.
 Assim, ela aos poucos vai se tornando mais segura, ele garante uma ilha de amor ao afastar a todos com o discurso que eles não a merecem e que a está defendendo e colocando-a a salvo deles.
Sabemos que o psicopata faz isso com sua presa para ter controle sobre ela, mas nesse caso apesar disso ocorrer, ele presta-lhe sem saber um grande e importante serviço. Preenche o vazio deixado em seu mundo infantil, afasta-a das relações que a convidavam para dentro do armário e oferece-lhe e autoriza-a a receber e alimentar-se de todo afeto e amor disponível no mundo que ela sempre conheceu, mas nunca se sentia digna de deseja-lo.
 Os limites tão estreitos do ego desta mulher são alastrados e ela pode enfim abrir seus braços e descobrir que pode abraçar o mundo se assim o desejar e mais ela se descobre desejando muito, descobre um mundo interno rico e colorido e um mundo externo encantador. Encontra nos braços do amado um receptáculo de toda sua energia contida, que ele entusiasmado com tão entrega, transforma em poder de construção e investimento para que ela continue em seus braços.
Ela fortalece-se cresce aprende mais sobre suas conquistas e descobre tantos outros caminhos para realizar seus desejos e preencher suas necessidades no mundo. Com esse olhar expandido toma coragem de tirar o véu da dupla a revelia de seu par. Já não precisa mais dos braços do amado para dar e receber o que deseja de sua vida. Assim toma certa distância que a diferencia dele e um susto!
Encontra um homem falido, sem condições de se apropriar de sua vida, um vampiro, que na calada da noite necessita alimentar-se do sangue de outrem para sobreviver. Não possui nenhuma autonomia e domínio sobre si mesmo é um prisioneiro de suas próprias manobras.
Esse momento é para ela semelhante ao do elefante, Dumbo, da história infantil quando descobre que a peninha que carregava não era a responsável pela sua capacidade de voar, mas sim suas grandes e antes rejeitadas orelhas.
Assim, sem a venda descobre as traições, manipulações, sangue frio e maldade daquele homem. Decepciona-se, chora, sofre muito, está novamente diante de uma ruptura, mas agora está pronta para ela.
Não se trata mais de um barco afundando e a deixando em apuros, mas sim de um barco que precisa afundar, para ela  seguir em frente, apropriada de tudo que aquela relação lhe ofereceu,  podendo  então emergir com a força de suas próprias asas alçando seu voo particular!










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