quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Filme Border





Assisti o filme Border, uma produção sueca, dirigido por Ali Abbasi. Uma viagem instigante do diretor nos conduz a mundos estranhos e portanto perturba-dores. Tudo que não faz parte do nosso circuito, causa mesmo essa sensação de não saber nem sequer o que estamos sentindo, numa abordagem lacaniana, um atravessamento do real. 
Passado esse primeiro momento, as ideias vão pipocando e aos poucos o imaginário vai nos salvando da perda de chão. Mas, depois de uma noite de sono perturbado pelas pontas soltas, algo de muito importante me surgiu. 
A protagonista, Tina, se reconhece desde sempre como tendo uma síndrome cromossômica, responsável pela deformação de sua imagem. Ela tem aspecto físico de homus sapiens, e uma sensibilidade olfativa peculiar, sente o cheio de sentimentos alheios, uma composição interessante entre uma sensibilidade primitiva e uma percepção humanizada sutil.
Leva sua vida entre um trabalho onde essa habilidade é reconhecida e aproveitada, tem um relacionamento desafetado com um homem com quem mora, e um pai que visita afetivamente em uma casa de repouso, único momento, que vislumbramos afeto na protagonista. 
Quando inesperadamente é sacudida em suas bases pelo encontro, de um homem com os mesmos aspectos físicos que ela. O cheiro dele a perturba de longe, visivelmente, ela foi despertada da sonolência que vivia dentro daquele corpo e ambiente.  
Aos poucos tudo vai se transformando, ou melhor ela vai ganhando vida, até o ápice onde, aquele que tanto a atrai lhe diz que ela é um troll como ele. 
Dois sentimentos a acompanham lado a lado a partir dai. 
Um de descoberta e apropriação do próprio corpo através da aceitação e interesse amoroso daquele que reconhecia nela uma mulher desejante.
Nesse ponto, penso na teoria da Piera Aulagnier que postula que a mãe  antecipa a existência de um filho. Na trama, a fala dele desconstrói quem ela é, antecipando  o emergir da mulher contida, lhe dando a possibilidade de expandir o que sentia de forma desordenada, mas descortinadora de si mesma. 
O outro, de conflito com aquele que a nomeou a princípio, um choque difícil, mas que todos que vivemos a passagem da adolescência podemos reconhecer. A indignação pela imposição dos pais ao modelo do pautado no desejo do que sejamos, surge de forma violenta e fundamental para que nos apropriemos de nós mesmos, e possamos falar em nosso próprio nome. 
A condição de troll, e a relação de cumplicidade afetiva, vai ampliando encantadoramente seu espaço no mundo,  o amor libidinal desperta a potência e o prazer em seu corpo que ganha vida. 
Um amor e encontro que a conduz novamente a proposta que ela seja como ele.
 Ela então pode se reconhecer na alteridade, não é como o pai um humano e  não é como esse que a despertou e nomeou, mesmo sendo uma troll.
A separação se faz necessária para que possa preservar seus contornos, enriquecida e potencializada pela beleza do envolvimento. 

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