domingo, 24 de maio de 2020

O efeito traumático do Coronavírus

Nós humanos, somos os únicos seres vivos que sabemos da nossa finitude, mas como também sabemos da existência de um futuro, podemos planejar, criar artifícios, medidas protetoras que afastam essa notícia fatídica.
A rotina nos tranquiliza, dando a fantasia de que tudo está bem, sabemos o que irá acontecer em uma semana, um mês, um ano ou até mais. O planejar, nos conforta, apesar de nos manter em certa ansiedade.
Mas, tudo isso é passado, a notícia da pandemia, da quarentena, da necessidade de isolamento, tirou tudo do lugar, um tremor assustador, que só conhecíamos nos filmes de ficção, fraturaram nossas bases e temos medo, estamos sem nossas caras garantias da vida, algo que há menos de seis meses inimaginável.
O mundo inteiro, indistintamente, foi surpreendido com o rápido e desolador avanço de um vírus desconhecido.
Portanto, estamos sob efeito do trauma, todos nó
O trauma, segundo a psicanálise, é um acontecimento violento e desestruturante, na medida em que não existe recurso psíquico suficiente para ser sentido, sofrido, elaborado e processado.
Diante de uma situação traumática, as reações possíveis são de negação e atuação. Negar, não é apenas não poder sentir, é insistir categoricamente, alucinadamente que é uma invenção, histeria coletiva, ou mesmo algo que não acontecerá ou não está conosco. Os efeitos da negação são desastrosos, pois não dá oportunidade de que medidas curativas e protetoras possam ser tomadas, assim as consequências do trauma vão se alastrando desordenadamente.
Outra possibilidade diante do evento traumático é a atuação, o pânico o desespero desordenado, sem ao menos saber o por que? É a hora da compulsão.
Pode ser por compras exageradas como mantimentos, papel higiênico, ou qualquer coisa como forma de abastecer, sabe lá o que?
Compulsão por notícias, manter a mente totalmente envolta com o elemento traumático, consumindo o maior número de informações, em uma tentativa de não perder o controle sem poder se dar conta, que tal controle já foi perdido.
Compulsão por limpeza, um desespero por ter controle sobre o que está sujo, a casa, o carro, o próprio corpo, como se pudesse limpar assim esse vírus de sua vida.
Compulsão pelo trabalho, principalmente aqueles que estão trabalhando em casa, os horários já não delimitam o tempo, descarregar sem limite do próprio sono, alimentação até a exaustão como forma de afastar a notícia dolorosa e traumática.
Compulsão religiosa, não falo das religiões tradicionais, mas do número grande de mensagens despejadas nas redes explicando e conduzindo o momento, oferecendo fórmulas e dietas mágicas, o mar de fake news, todos freneticamente envolvidos em trazer algo que afaste a notícia que estamos com nossas bases fraturadas.
Muito teremos que caminhar, mal posso vislumbrar os próximos passos, afinal moro nesse planeta e também estou sob efeito do trauma. Mas, penso que ainda passaremos um longo período atordoados, tentando processar o tamanho dessa ferida na história da humanidade, a princípio, quando pudermos dar conta do desastre, teremos que enfrentar o luto, não apenas pela perda das vítimas fatais do Coronavírus, mas também pela perda de nossas vidas como eram antes de tal abalo e dolorosamente encontrar outro jeito de planejar nosso futuro. Espero viver para saber como será isso.
No momento só me resta o lema dos Alcoólicos Anônimos: Um dia de cada vez!




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