Depois
de um ano como 2020, em um balanço sobre as consequências alarmantes da pandemia,
falar sobre o abalo que sofremos em nossas certezas, denunciador de que vivemos
a mercê de grandes rombos em nossas infantis ilusões narcísicas, não é novidade,
Freud já falava disso no texto Mal Estar da Civilização, como também não é
novidade que lutamos inconformados com essa verdade.
Os novos
tempos, a medicina que promete a postergação da morte, assim como o sonho de
imortalidade alimentado pelo mundo virtual, são provas vivas de que insistimos
em ter controle, ou viver na ilusão de ter controle sobre tudo e todos.
No começo da pandemia
surgiram todos os tipos de respostas. Desde as cientificas às místicas, mas
nenhuma delas deu conta da dor que se estendeu por todo ano, dia após dia,
diante de um vírus que insistia e insiste em se fazer uma ameaça presente para
todas as áreas de conhecimento.
Tudo saiu do
lugar.
Em relação aos
políticos, vimos alarmados, seu despreparo e desespero, típico da imagem do
conto, O rei está nu. Coisas esquisitas vieram a tona, como a fala de um dos
lideres de uma das nações mais poderosas: “Meu cabelo precisa ficar perfeito”, diante
das regras de diminuição do jato de agua, instituído para lidar com a ameaça de
escassez de agua no mundo. E tantas outras, que nem merecem ser citadas.
A ciência, também
se viu desnuda. Toda a sabedoria capaz de imitar e driblar a natureza, como o
genoma, o estudo de DNA o controle da criação desde um vegetal até um ser
humano, enriquecendo a muitos, foi pressionada a mostrar a que veio.
A hora da verdade chegou, o conhecimento científico
não deu conta de interromper um ciclo mortal avassalador, assim como os menos
brilhantes cientistas do século passado diante da gripe espanhola. Uma corrida se
fez, entre grandes laboratórios e interesses financeiros, mas nada pode esconder
a constatação dos limites e fragilidades, da ciência, essa dama espetacular que
era a grande esperança da soberania humana.
A religiosidade
por outro lado, se fez escandalosa. Líderes religiosos que encantavam milhões
de pessoas, são denunciados por abuso sexual, sedução e enriquecimento ilícito,
revelando que o poder corrompe, mesmo sendo em nome de Deus.
A violência de
repente passou a ser denunciada e, de alguma forma um grito contra ela se fez
presente. Movimentos contra o preconceito tomaram força, como nunca nesse ano. Estaríamos
nós, nos identificando com o negro morto por asfixia sob a pressão dos pés de
um guarda branco, ou estaríamos nos envergonhando de nos vermos como esse
agressor, diante da natureza que submetida a nossos poderes suplica por sobrevivência?
Eu ousaria dizer que somos os dois, somos vítimas e algozes, nessa luta insana
pelo poder de controle sobre a natureza, sobre o diferente de nossas visões egocêntricas,
o inesperado, ou seja, o que nos tira o chão das ilusórias certezas narcísicas.
“O homem é um vírus”. Acredito que essa é fala mais lúcida que ouvi
nessa pandemia e o coronavírus, assim como outros acontecimentos avassaladores
da natureza, seriam uma tentativa de salvar o ecossistema, combatendo seu
agressor, o homem, para reencontrar o equilíbrio!

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