terça-feira, 16 de agosto de 2022

Existe uma função “vóterna”?

 



        A psicanálise de modo geral define como função, a representação da  presença do outro dentro do psiquismo que funda e sustenta o sujeito a partir de um lugar definido.

        Assim, a função materna é o representante da mãe internalizadas que engloba as características necessárias e esperadas da pessoa que acolhe, ampara e protege a criança.

        No nascimento nosso primeiro contato com esse outro, mãe, é fundamental para existência e sobrevivência física e psíquica. Nascemos em situação de total dependência, sem uma mãe que sustente fisicamente “para dar mamar” e cuidar e psiquicamente “para dar afeto” não é possível a continuidade da vida.

         Aos poucos interiorizamos essa mãe, ou seja, ela passa a morar dentro de nós e fala de acolhimento, aceitação, receptividade, doação, ligação afetiva, mas também remete as situações vividas de desamparo, dor de amar e rejeição.

        Essa experiência de acolhimento bem como de contato com desamparo inevitável, se constitui como nossa primeira marca inconsciente, é quando essa mãe passa aos poucos a existir dentro do sujeito temos a introjeção da “função materna”.

        Uma mãe suficientemente boa como diz o psicanalista Winnicott, ao manifestar seus limites permite que o bebê reconheça sua existência descolada da mãe. Quando a mamada falta o bebê tem contato com o seu corpo, sua dor, portanto seus limites e pode se ver como um ser separado da mãe, irá encontrar ou desenvolver seus próprios recursos.

        Chamamos de função paterna qualquer evento que venha a possibilitar o contato com o limite do amor oceânico entre mãe e filho. Assim, a própria falta da mamada a princípio tem essa função. Mas com o tempo esta função precisa ser personifica em alguém amado que coloque limites para proteger e para impedir que o sujeito se esvaia no outro. Alguém que represente uma lei que serve para todos e todas as situações.

        A principio a relação com esta figura acalma mesmo que traga algum desconforto, pois vem “podar” o sujeito. Aos poucos vamos introjetando, ou seja, tendo este pai dentro de nós, que dependendo de cada um vai ser mais rígido ou mais flexível, a modulação de sua presença dá o tom de nossa rigidez ou displicência conosco e com os outros.

        Duas funções primordiais na constituição do sujeito, a materna e a paterna. Como estamos falando de representação psíquica, são funções que não precisam ser necessariamente frutos da presença e ação da mãe ou pai biológico. Quando vemos nos relatos dos capítulos anteriores, avôs que ocupam o lugar da mãe ou pai, diria que eles os substituíram abdicando de seus lugares de avôs, mas de que lugar é esse que falamos?      

        Existiria uma função vóterna? a  presença dos avós faria diferença na constituição do sujeito? Traria prejuízos sua ausência ou falha, assim como em relação à função materna e paterna? Como se daria a introjeção desta figura? Que representação teria?

        Para tanto precisamos recuperar o conceito de castração e complexo de Édipo, formulado por S. Freud e amplamente utilizado e discutido por todos os outros grandes estudiosos de psicanálise. Poderíamos dizer que os fundamentos da teoria psicanalítica só puderam ser consolidados a partir do momento que em Freud pode conceber a sexualidade infantil, tirando a criança do lugar de anjo assexuado, vítima passiva e deu-lhe um lugar ativo nos romances familiares, como ele chamou.

        As vivências dos primeiros meses de vida são fundamentais para que o bebê reconheça o contorno de seu corpo, físico e psíquico que a princípio é continuidade do corpo da mãe.

        No entanto, Winnicott postula que para tanto a mãe precisa regredir à condição do bebê que foi para poder entender e amparar seu filho a partir de um lugar comum. Diz ainda que neste momento de necessidade extremas do bebê, ao viver essa regressão  pode unir-se de forma completa a ele oferecendo-lhe o que chamou de holding, que: “Protege da agressão fisiológica, leva em conta a sensibilidade cutânea do lactente – tacto, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade à queda (ação da gravidade) e a falta de conhecimento do lactente da existência de qualquer coisa que não seja ele mesmo. Inclui a rotina completa do cuidado dia e noite, e não é o mesmo que com dois lactentes, porque é parte do lactante, e dois lactentes nunca são iguais. Segue também as mudanças instantâneas do dia-a-dia que fazem parte do crescimento e do desenvolvimento do lactente, tanto físico como psicológico.”  (Winnicott, 1979/1983, p.48)

        Para tanto a função do pai neste momento é cuidar e oferecer suportes que a liberem para tal entrega. 

Winnicott diz: O pai tem uma função também importante: "Pode ajudar a criar um espaço em que a mãe circule à vontade". (Winnicott, 1982, p.26)

        Nesta fase a presença do pai é fundamental assim como da avó materna para oferecer suporte e investimento afetivo para nova mãe, que se encontra regredida à condição de bebê, para poder aproximar-se desse novo ser, deixando, por um momento, de lado para tanto, seus próprios interesses e demandas. Esse é o amor incondicional de que tanto se fala, uma entrega total e irrestrita.

        Nessa hora se o pai assim como a avó materna aceitarem a proposta inconsciente de ocupar o lugar antes de responsabilidade dessa mulher como sujeito possibilitarão a entrega plena dessa mãe a seu bebê.

        Essa disponibilidade afetiva da nova mãe permite que a criança viva o seio, em sua fantasia, como continuidade do seu corpo oferecendo à mãe a experiência de completude fálica, onde nada falta.

        O corpo do bebê é libidinizado pelo contato físico com a mãe, a intimidade desse laço estabelecido nestes primeiros cuidados  desde  de higiene até a alimentação, marcam as partes do corpo. Assim, por exemplo, o contato da boca com o seio, determinará a boca como uma das primeiras zonas erogenas do futuro adulto.

        Esse prazer, advindo do afastamento da dor do desprazer da fome, frio e dor ganha um novo status. Mamar deixa de ser uma necessidade apenas física, passa a ser um ato de prazer e realização de desejo marcado no corpo físico, na boca, e no psiquismo, deixando um traço de memória no psiquismo.  

        O bebê passa a poder sonhar, alucinar, o momento da amamentação e cuidado como forma de suportar a ausência e encontrar prazer mesmo que o seio e os cuidados não estejam presentes no concreto. 

        Quando é chegada a hora do desmame ele entrará em contato com a dor da separação pela primeira vez.

        Segundo Piera Aulagnier, esse momento tem a força do que chamou de “violência da interpretação”, a mãe precipita um novo momento em seu bebê, momento esse fundamental para constituição psíquica do sujeito.

        No entanto para que essa mãe precipite essa nova experiência é preciso que suas figuras de suporte, o pai da criança e a avó materna, interfiram nessa relação simbiótica, devolvendo à mãe as responsabilidades com ela mesma, trazendo-a de volta para seu lugar de sujeito. Ou seja, recupere seus contornos, sem “ter” mais o bebê como sua continuidade e completude.

        Da parte do pai da criança, que vivenciou o prazer de amparar e cuidar de uma “mãe” talvez como forma de ressignificar antigos laços do menino que foi, com a própria mãe, ao deixar o lugar de apoio e suporte  sentirá falta de um lugar junto a essa mulher.

        Por um instante ocupará o lugar do terceiro excluído, mas se conseguir ter resolvido ou ressignificado o lugar de bom menino da mamãe, vai requisitar o retorno da mulher “castrada” sem a vivência de completude da gravidez e do nascimento. Uma crise será instalada para que possam encontrar-se a partir de seus desejos e faltas para tornarem se novamente um casal.

        Em relação à avó materna, um confronto, antigas mágoas retornam na retirada do suporte a condição regredida da mãe quando do nascimento do filho.

        Todas as questões relacionais não resolvidas entre mãe e filha virão à tona e sacudirão o laço.  Um acerto de contas importante para relação que deixará marcas, mas possibilitará a bebê-menina  se tornar  mulher-mãe e a mãe da mãe  tornar-se avó.

        O desprazer sentido neste momento acompanhado da vivência de desamparo despertada pela ausência da mãe que oferecia completude, “empurra” bebê e mães para novas descobertas, experiências e funções.

        Assim o contato com outra forma de alimentar-se apesar de causar tristeza nas duas mães é acompanhado da descoberta de outras formas de alimento e troca afetiva assim como no bebê que vive o desmame e a quebra da relação simbiótica.

        A criança por volta dos nove meses já é capaz de experimentar e reconhecer a ausência da mãe, mas pode suportá-la, festejando seu retorno. Não estamos mais no registro da relação simbiótica. Como conseqüência a criança internaliza a representação de seus próprios contornos e conseqüentemente da existência de um outro.

        O choro passa a ter outras características torna-se apenas um dos muitos instrumentos para chamar a atenção para suas faltas e dores bem como de sua existência. Gracinhas e atos reforçados pelos outros são o início de uma nova forma de comunicação e acesso ao mundo.  

        No período do primeiro ao segundo ano, grandes conquistas vão dando mais liberdade à criança, mas também lhe colocando em contato com os limites. Nesse momento tudo que leva a um “não” exerce atração como forma da criança conhecer e testar seus limites que definirão seus contornos e poderes.

        O acesso à linguagem e conquista do caminhar a conduzem diretamente a grande e dolorida verdade ele não é “sua majestade o bebê”.

        Da grande queda narcísica a busca desesperada de controlar o adulto que o retirou do trono na tentativa de retomada do poder, são apenas alguns meses, o controle dos esfíncteres coincide com esse momento.

         Assim, ao perceber o quanto o adulto quer que ele faça algo, como usar o pinico, descobre o controle que pode exercer a partir desta demanda. Pode corresponder ou não ao que esperam dele.

        Entre os quatro e cinco anos uma nova luta trava-se. Um mundo onde existem os que tem poder e os que não tem leva a criança a ora ter comportamentos de tirania ora de submissão e temor de perder o amor dos pais.

        Um embate que a leva, ao final, a transforma-se, entendendo sua condição de terceiro excluído na relação com os pais ao   ser abertamente apresentada ao pai como companheiro e objeto de desejo da mãe.

        Um novo conflito se instala. A criança resiste, assim como a sua mãe, muitas vezes, a permitir que esse outro entre definitivamente na relação.

        Cenas como a criança dormindo entre os pais são denunciadoras dessa resistência. Certa vez uma garotinha de quatro anos protestou: “Não é justo vocês dormirem juntos enquanto eu durmo sozinha em meu quarto”.   

        Será o vínculo do casal como homem e mulher e não como pais, que irá oferecer ferramentas para lidar com essa situação. A tal garotinha se confortaria se os pais pudessem dizer: “Quando você crescer e tiver um amor poderá dormir acompanhada como nós”.

        Mas se o pai não saiu da condição de menino ou a mãe de menina, se identificarão com sua garotinha a acolherão em sua cama.  

        Se os pais não deixaram a relação de suporte instalada como apoio à regressão materna, quando o bebê nasceu, não poderão mais ser um casal em detrimento do congelamento daquele momento que provavelmente infantilizará a relação. Não teremos mais homem e mulher, apenas pai e mãe. Inevitavelmente as dificuldades sexuais serão as primeiras a denunciar esta situação.

        A função “vóterna” teria um momento especifico privilegiado para instalar-se e assim como em relação ao casal, dependeria da elaboração do delicado momento do nascimento do bebê. Se mãe e filha puderem sair da condição da relação de uma menina-mãe com sua mãe-avó para uma relação entre mulheres.

        Nesse encontro, um embate! chegou à hora onde a mais velha cederá o lugar de mãe para a jovem mãe, validando esse desejo e autorizando-a para que seja inclusive uma mãe melhor que ela foi.  

        Se isto ocorrer haverá lugar para a relação da avó com seu neto (a), sendo esta relação descolada da relação com a filha, não ameaçará as competências ou poderes desta mãe, portanto a criança não será inconscientemente utilizada por uma delas ou ambas, como  corda em  cabo de guerra ou ser lenha na fogueira das vaidades.

        A nova avó para cumprir com esta sua nova função terá a difícil e triste tarefa de abdicar dos seus saberes de mãe para ocupar-se de novos saberes.

        Uma luta trava-se internamente dentro do imaginário desta mulher-mãe-avó, mais próxima do processo de luto. Experimenta a morte dentro dela da função de mãe que se tornou obsoleta e dispensável.   

        Uma passagem difícil de se realizar, principalmente tendo acabado de reviver com todas as emoções e cores o contato com seu bebê-mãe no nascimento do neto (a).

        Lembro-me de um comentário de minha mãe quando minha filha acabou de nascer e eu estava totalmente embevecida e mal conseguia ir ao banheiro, ela diz em tom de repreensão como há muitos anos eu não ouvia: “Esqueça um pouco desse bebê, vamos cuidar de você”. Levei um choque, como ela podia pedir uma coisa dessas, naquele momento o cuidado dela me agrediu, pois atacou minha vivência de continuidade com meu bebê, um corte necessário de uma mãe protegendo sua filhinha da entrega incondicional ao seu bebê, um pedido de retorno à relação mãe e filha do passado, imprescindível em um momento e totalmente desnecessária logo em seguida.

        É desse lugar de poder, agora vivenciado, que a mãe da mãe deverá abdicar para deixar que sua filha o ocupe do seu jeito e com seus recursos por mais que considere que seria mais fácil com sua ajuda.

        É como assistir uma criança apreendendo a vestir-se, uma tentação ir até ela e acabar com aquela angústia de pernas trocas e roupas enroladas. Mas a única forma capaz de ajudá-la a adquirir ferramentas importantes para lidar com seus desafios, é permitindo que ela exerça o papel que agora é dela por mais desajeitada e assustada que esteja e por vezes clame por ajuda.

        A relação com o filho ou filha passa por transformações ano após ano, até quando é chegada à hora de ele ou ela precisar ocupar a função de mãe ou pai solicitando de forma definitiva a desocupação deste lugar para que possam assumi-lo junto de seu bebê.

        Tornar-se desnecessária enquanto mãe é tarefa difícil e imprescindível para o surgimento de um novo lugar na relação com os filhos e os netos.

        Nesse processo de luto será preciso para esta mulher, despedir-se da maternidade e todas as suas mazelas, de todos os bebês que não teve e gostaria de ter tido, de tudo que gostaria de ter dado e não deu a seus filhos, perdoar-se pelos erros grosseiros e os bem intencionados que jamais poderão ser reparados, despedir-se dos acertos e conquistas vividos nessa milagrosa relação e constatar com tristeza que não  retornarão.

        Para o pai-avô, esse processo ocorre de forma mais branda, mas não menos importante. Sua garotinha no passado,  encantada por ele,  secretamente desejando dar-lhe de presente um filho, ao tê-lo, tornou-se mulher e mãe  destronando-o do posto de pai objeto de admiração e figura protetora. Seu garotinho, seu admirador  e rival, ao tornar-se homem e pai ocupará seu lugar junto a uma mulher e um filho, decretando a subida ao trono que ele ocupava.

        Após esta dura passagem, aposentados da função de pai e mãe, são tomados pela dor da perda acompanhada pelo vazio de seus dias.

        Como em toda perda vivida durante nossa história, será uma nova  oportunidade de ressignificação das relações edípicas, um reencontro com a vivência do passado, da infância e adolescência.

        Estar novamente no lugar do terceiro excluído, como nesses antigos e dolorosos momentos (infância e adolescência),  abrirá novamente a ferida primitiva da castração. Ou seja, as antigas dores advindas do anúncio de nossos limites poderão ser revividas e oferecerem novas configurações tão ou mais sofridas que no passado.

        Aos poucos os avós poderão sentir o desprazer de deixarem ir o que tanto amam para descobrir o prazer da independência e alivio ao isentarem-se das responsabilidades e pressões diárias internas e externas, em relação aos filhos e netos.

        Com esse desprendimento e liberdade  aproximar-se do neto(a) terá um colorido especial, um jeito lúdico e descompromissado, capaz de abrir espaços únicos no universo de ambos.

        A brincadeira torna-se coisa séria e nos encontros, não importa quantos sejam ou serão, os lugares da criança roubam a cena.

        Quem já viveu essa experiência sabe do prazer de virar novamente um menino ou menina entregue a um jogo qualquer que nos faz perder a noção de tempo. 

        Por um momento o adulto dentro de nós tranqüiliza-se e tranqüiliza a criança tanto a que nos habita quanto a que nos acompanha e nos guia por esses espaços inimagináveis.

        Relações raras, capazes de preencherem lacunas e de responderem a questionamentos fundamentais de forma branda e corriqueira. Pular corda, rolar no chão, jogar bola, não fazer nada, tudo tão bobo e tão importante.

        Num mundo onde as crianças ocupam papel de valorizado destaque e andam cada vez mais atarefadas, onde os pais estão muito ocupados com a formação e futuro de seus filhos,  é essencial que a criança tenha dentro dela uma figura que represente desprendimento, tranqüilidade e envolvimento com o lúdico e criativo.

        Serão recursos valiosos no futuro, capazes de abrir uma brecha naqueles momentos onde parece não haver mais saída. 


Trecho extraído do livro: Voternidade - ser avó, ser avô um doce desafio - Sonia Pires

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