Uma relação de amor é antes de tudo uma
experiência de vida que nos coloca diante de todos os nossos capítulos passados
e sonhados, lembrados e esquecidos, provocando uma revolução na nossa história,
nos ameaçando tanto quanto nos encantando.
Vivemos preso no passado sonhando com um
futuro, o encontro amoroso nos surpreende, nos avassala por nos colocar diante
do presente, do “aqui e agora”, do real, com as vestes do amor primeiro do
passado, não dá para planejar quando irá acontecer e se o fizer, estará diante
do sofrimento de nunca alcançá-lo, próprio do nosso sentimento infantil de ser
“avulso” diante de um mundo de casais.
Por outro lado, também não é possível
escapar e se livrar do amor sem um grande sofrimento psíquico.
O que coloca o relacionamento amoroso na
qualidade de investimento privilegiado, é a nossa busca pela completude, de uma
cumplicidade possível, que ao mesmo tempo em que é ansiada é temida.
As brigas de casal são exemplos típicos,
parecem bobos, à luz da razão, mas falam de questões afetivas profundas. Assim
quando ouvimos um amante dizendo à sua amada que precisa de espaço, que não
está se reconhecendo, vemos o temor de se perder no outro tão próprio de um
momento em que um dia esteve envolvido lá trás na relação mãe-bebê. Mas, o
encontro revela o quanto é prazeroso estar envolvido assim como a satisfação e
angustia de estar diante de um outro tão amado e desejado.
O
amor nos desestabiliza mesmo quando ausente, pois quando estamos de coração
vazio, a pulsão de vida reclama sua presença, para revivermos com os recursos
psíquicos de que dispomos, nossa história, nos abrindo a possibilidade de
reinventa-la e reescreve-la.
Nessa viagem no presente que traz à tona
aspectos regressivos quanto progressivos, buscamos sim a simbiose como na
psicose tanto quanto a tememos. Podemos nos tornar nesse momento próximos do
que vive o paranoico, assustados com a suspensão parcial da razão.
O
ciúmes, o controle e aquelas coisas que jamais o sujeito se imaginou fazendo,
roubam a cena e denunciam o quanto o investimento libidinal que está sendo
evitado já aconteceu. Utilizamos de
nossas defesas perversas como a recusa, o desafio e a sedução, quando
revivemos nossa “submissão” diante do
eleito, reveladora de nossa dependência e desamparo, incapazes de correr o
risco de conhecer e se fazer conhecido do amado.
É
comum vermos cenas do amado dizer: “Você é a pessoa mais importante da minha
vida, sem você eu não poderei viver” para no momento seguinte simplesmente
desaparecer, com a mesma naturalidade de “Don Juan”, mesmo não se tratando de
uma estrutura perversa.
O
susto de se ver envolvido amorosamente, ao mesmo tempo que leva a satisfação
tão ansiada do encontro, também ameaça, podendo despertar nossas defesas
perversas transformando desamparo
em desafio assim, seduzir quem me ameaça
para provar que “tenho controle” sobre a situação, recusando admitir o envolvimento.
Se tivermos suporte psíquico interno
para permanecermos investindo e permitindo investimento de libido, superamos o
susto e nos vemos diante da dor, entramos em contato com o luto revivido do
objeto amado perdido no passado, inevitavemente despertando Tanatos, a pulsão
de morte, que anunciará os riscos e sofrimento que se seguirão ao investimento
amoroso. O medo de amar revela o
quanto desejamos e estamos “condenados”
o medo é do tamanho do desejo.
O que diferencia um amante de outro, não
é apenas a capacidade de entrega, mas o quanto o sujeito que ama é capaz de
dispor-se a entrega que inevitavelmente o fará sofrer, pois denuciará a todo
momento tanto sua dependência e ameaça de desamparo, quanto a imperfeição e
distanciamento do ideal de amor construído e desejado.
É a aproximação real através da fala, do
uso do simbólico, que ambos irão transformar esse eu amado construído
internamente com o material do passado, desinvestindo as figuras amadas
anteriormente para dar lugar a um outro amado e investido de libido, de pulsão
de vida. É preciso este momento de
junção, que será reinvestido na ausência ou na decepção do amado.
“Não sei de onde, mas sei que sempre te
conheci, não sei por que, mas sei que sempre te amei. Absurdo sentir o peito
doer quando você não está comigo mais absurdo ainda sentir sua presença dentro
de mim.
Amar você é assim, a sensação que você
sempre esteve aqui ao mesmo tempo em que sua falta sempre senti.
Amar você é assim, sonhar em te abraçar
como só nós dois sabemos, mas no auge desta ausência sentir seu corpo em mim.
Amar você é assim, uma lucidez enlouquecida, uma alucinação realizada, uma falta na completude a mais completa e sincera essência do meu ser abrigada dentro de mim!”
O que espero e preciso receber do amado
é o mesmo que o amado espera e precisa receber, essa simetria não é jamais
perfeita, mas é suficiente para manter a angústia de dependência afastada assim
como o temor do desamparo.
O
amado e seu amante se manterão vivos
através da capacidade e disposição de na ausência do outro real, mante-lo vivo dentro do psíquismo,
sustentando o investimento da libido,
realizada através dos laços verbais.
Simetria que propõe uma troca de
investimentos libidinais, entre dois
sujeitos que se desejam e reconhecem o valor da junção representada em palavra
que cria um fio condutor, capaz de
afastar cada vez mais a vivência de perda do objeto amado infantil, podendo
então viver um amor possível que dependerá do investimento de ambos enquanto seres desejantes e desejados.
No entanto, falamos de movimento entre
dois seres singulares, sujeitos sujeitados a sua estrutura psíquica, o teste da
realidade será de tempos em tempos solicitado, uma prova de amor, ou algo
assim, desta forma a verdade do sujeito é posta a prova, assim como a da junção amorosa,
oferecendo a possibilidade de rever suas
próprias verdades.
Trecho extraído do livro: O jeito de Amar de Cada Um - Sonia Pires
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